A artista Márcia Falcão apresenta a sua primeira exposição individual marcada pelo gesto e fisicalidade, em 12 trabalhos inéditos. Sua pintura articula relações entre o corpo feminino e a cidade, partindo da experiência da própria artista na periferia do Rio de Janeiro, onde nasceu, vive e trabalha. São obras carregadas de um ethos de violência, entre a gestualidade e a narrativa, em uma pintura de forte impacto visual.

Márcia Falcão, Moça reclinada no fio do facão presa em casa (2021)

E sobre a exposição nós conversamos com a artista que nos contou sobre os fios condutores da dor que cerceiam a individual que tem espaço na Carpintaria, da Fortes D’Aloia & Gabriel:

Eu comecei a pintar aos 19 anos, e houveram várias pausas na minha vida. Mas eu estava sempre buscando a própria pintura como protagonista do meu trabalho. Eu estava saindo de um divórcio, tinha acabado de ser mãe – com uma filha de dois anos e outra de seis meses no período em que me separei. Então as questões do corpo, desse corpo que gera e se transforma, desse corpo que sofre feridas emocionais, estiveram ainda mais presentes no meu trabalho mais recente, que desenvolvi desde o começo da pandemia. É uma forma de colocar neste suporte que me interessa, que é a pintura, as questões que estavam me atravessando neste momento. 

Segundo o curador Raphael Fonseca: “Ao observar as pinturas recentes de Márcia Falcão, um elemento talvez chame a atenção do espectador: o chão onde essas narrativas se desenrolam costumam ser vermelhos e fragmentados, como se víssemos a representação de uma sucessão de cacos. De certa maneira, sim, essas pinturas simulam chãos muito comuns no “subúrbio carioca” – precisamente no bairro onde a artista foi criada, Irajá. Esse elemento arquitetônico, porém, não é algo encontrado apenas ali, mas em todo o Brasil – da São Paulo dos anos 1940 à chamada arquitetura raio-que-o-parta em Belém do Pará. A pintura desenvolvida pela artista se movimenta da mesma forma – entre o que poderia ser visto como particular e local, e uma esfera mais ampla que convida a muitas reflexões”.

Márcia Falcão, A rede (2021)

As muitas invasões que já aconteceram no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, são o ponto de partida para a pintura de escala monumental, peça central da primeira exposição individual da artista. Em destaque, a figura de uma mulher que, com expressão melancólica, fita o espectador – ela é negra, tem um corpo curvilíneo e sobre a sua cabeça há um esplendor de Carnaval em cores verde-e-amarelas.

Desde o começo tenho conversado com o Raphael Fonseca, e eu não quis cercar essa exposição em nenhum assunto ou temas. É a minha primeira individual, eu estava transbordando de desejos: desejo de uma imagem, desejo do corpo, dos enfrentamentos, do desejar tudo materializado. E nela tem um trabalho que eu já queria fazer desde muito tempo, que é o trabalho da invasão do Morro do Alemão. É um trabalho grande, e eu fiquei bastante tempo pintando ele ao longo do ano. Eu queria que ele recebesse o máximo de elementos possíveis em relação a sua composição. Porque eu sempre falo isso. Os meus trabalhos têm às vezes um elemento principal e depois eu faço um fundo, eu faço outras coisas… mas eu tenho outras formas de compor trabalhos com muitos elementos – são muitas narrativas e é intencional, é demorado, minha pintura não é rápida, eu gosto de voltar nela e olhar. Eu sou acadêmica, quando eu falo de pintura eu penso na cor, eu penso som, eu penso textura e matéria, transparência. E agora nessas pinturas cheias de elementos, eu penso nas relações dos elementos entre si.

A “mulher brasileira” tão sexualizada, objetificada e estereotipada por centenas de autores nas artes visuais e na cultura de massa, não se encontra sambando e cheia de purpurina: “Não existe um pudor, mas o limite é o lugar de fala”, afirma a artista.  Para além das questões sobre racismo, violência e maternidade.

A gente tenta fazer uma barreira para o racismo não chegar, para a violência não chegar. A gente que é mãe a gente sempre tenta. Mas chega, sempre chega. E então tento manter as minhas filhas preparadas. Tem coisas que não dá para entender, o racismo é uma delas. Mas não é uma questão de entender, é uma questão de estar armado mesmo, com discursos que tenham e façam sentido, que não sejam vazios.

A pesquisa de Márcia Falcão parece nos lembrar da constante tensão entre prazer e violência, entre a festa que se dá na avenida e a violência que acomete tantas mulheres ao seu redor. Longe de apontar dedos, são imagens que corporificam contradições do estar viva no Rio de Janeiro, no Brasil e em qualquer lugar do mundo.

Eu estava mais ou menos há quase dez anos sem pintar. Pintando apenas em pequenos suportes, mas eram mais ilustrações, outras figurações. Então quando eu voltei à prática, e principalmente colocando o meu corpo em questão, o corpo de minha filha… era não apenas para falar sobre corpo, mas servindo para falar de outras coisas também. Uma questão mais social, mais política, e foi me dando mais tesão ainda em pintar! Por outro lado, o feedback de quem viu a minha exposição no HO, que foi uma exposição coletiva, também foi muito legal, porque as pessoas curtiram muito. Elas diziam: – Caramba! Você pinta!

Na obra de Márcia Falcão, o que se apresenta são composições figurativas numa palheta soturna pautada centralmente por marrons e vermelhos, que se adensam no emprego do óleo, da acrílica, do pastel oleoso e do carvão. Traços que representam o fio condutor da força, da violência ou da dor, como explica:

Olhando para o corpo de trabalho dessa exposição é a dor o que liga tudo. Eu acho que a dor é um fator que conecta todos nós. Todo mundo em algum lugar se identifica com o meu trabalho. Se por um lado não é uma dor de lamento, por outro é uma dor de quem sabe que pode sentir dor, que pode estar ferido ou que pode ser um agente de ferir o outro. Mas que está consciente disso, não no lamento. É uma constatação da dor. Não é sofrimento, é mais enfurecido do que melancólico.

A entrevista completa com a artista você lê na sétima edição impressa da Philos, que sai nesta primavera. A exposição Márcia Falcão terá espaço entre os dias 6 de novembro 2021 — 29 de janeiro de 2022, na Carpintaria, na Rua Jardim Botânico, 971, no Rio de Janeiro.


Márcia Falcão (Rio de Janeiro, 1985) vive e trabalha no Rio de Janeiro. Entre suas principais exposições coletivas estão: Crônicas cariocas, MAR — Museu de Arte do Rio (Rio de Janeiro, 2021); Engraved into the body, Tanya Bonakdar Gallery (New York, 2021); Hábito/ Habitante, Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Rio de Janeiro, 2021); Ainda fazemos coisas em grupo, Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica (Rio de Janeiro, 2020); 12 Métodos de ser chegar a lugar algum, Paço Imperial (Rio de Janeiro, 2019); e Mostra EAV Parque Lage, Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Rio de Janeiro, 2018).