Em formato híbrido, a MARÉ — Mostra Ambiental de Cinema do Recife 2021 tem início nesta segunda, 29 de novembro e segue até 7 de dezembro no Recife, e pela primeira vez no Arquipélago de Fernando de Noronha, com exibições de filmes, além de oficinas, encontros, debates e diversas atividades culturais que compõe três eixos: Cidades e Conflitos, Ecossistemas e Biodiversidade, Povos e Territórios, voltados para acontecimentos urgentes, entre eles, a COP 26, mudanças climáticas, a década dos oceanos e o Marco Temporal.

Temas que nos são muito caros, uma vez que as urgentes e efetivas soluções para a crise climática foram substituídas por medidas incrementais dos governos e empresas, principalmente em relação à adaptação e mitigação das dificuldades dos países em desenvolvimento, e pela timidez em relação aos compromissos de redução de emissões. Para Rafael Buda, coordenador geral da mostra:

Quando penso em meio ambiente, a reflexão que faço é que o meio é o todo, tudo que está ao nosso redor é o ambiente. Estamos vivendo um momento de urgência, seja devido a covid-19 ou com a sobrecarga do uso dos recursos naturais, e pouca ou quase nenhuma preocupação com a sustentabilidade. Acreditamos que o cinema é uma ferramenta potente de conscientização e transformação ambiental, e é nessa perspectiva que realizamos sexta edição da MARÉ. Sempre com inovação e trazendo ao público temas atuais, essa edição consolida um trabalho feito com carinho e preocupação com todo o ambiente e a sustentabilidade da nossa cidade e planeta.

A ciência vem dando avisos e pautando as verdades inconvenientes sobre os riscos de extinção de espécies para ouvidos que sequer querem ouvi-las e mentes cauterizadas que insistem em não considerá-las. Infelizmente, a falta de prudência nunca deu certo quando se trata da natureza. E essa realidade é bem apresentada na obra “Um sonho recorrente”, de Juliana Lapa, que ilustra o cartaz com a arte oficial do MARÉ. Na obra, Juliana traz a Torre de Cristal, do Parque das Esculturas de Francisco Brennand sendo engolida por essa resposta gigante da natureza. Segundo a artista:

“Acredito que muitas pessoas que vivem em cidades litorâneas têm esse sonho recorrente com grandes ondas, tsunamis.  Eu sou uma delas. Este é um desenho que tem um poder simbólico muito grande, ele anuncia que uma grande mudança se aproxima, seja pela força da natureza, seja pela força da emergência diante da grave situação ambiental.”

A edição marca a estreia da primeira mostra a ocupar o centenário Teatro do Parque. “Fazer a sexta edição da MARÉ no Parque tem um valor único: a preservação histórica de espaços culturais, que se torna mais especial com a partida de Geraldo Pinho, um dos maiores incentivadores do cinema nacional”, completa Tiago Delácio, coordenador de programação da MARÉ.

Composta por 18 curtas e 6 longas, totalizando 24 filmes de 11 estados e 2 países, a curadoria da edição de 2021 da MARÉ é do crítico, curador e pesquisador André Dib em parceria com o curador da Mostra Cinema do Mar, Fellipe Redó. Entre os destaques, o longa de abertura “Por onde anda Makunaíma?” de Rodrigo Séllos, refaz a trajetória do personagem em suas diferentes formas, da ancestralidade indígena às obras da literatura, cinema e teatro, propondo uma reflexão sobre a cultura brasileira ao longo do século 20. O filme conta com imagens de Joana Fomm, Milton Gonçalves, Paulo José e depoimentos do ativista Jaider Esbell. O pernambucano “Bem Virá”, da diretora Uilma Queiroz, realizado no interior por mulheres sertanejas e da capital, reforça a importância do protagonismo feminino e contrapõe o estereótipo de elementos do Sertão, a exemplo da seca. O filme propõe um debate especial após a sessão no Teatro do Parque. Para André Dib:

A programação deste ano foi composta por filmes marcados pelo desejo de ruptura e questionamento. Na mesma medida, são obras que buscam no fazer cinematográfico e na memória cultural processos de cura e formas outras de se conectar e estar no mundo que não aquelas que nos levaram à tragédia em tantos níveis como a que estamos vivendo. É importante destacar a força da produção da Região Norte, que participa com dois curtas e um longa significativos neste sentido,  assim como o cinema indígena representado pelo filme Essa Terra é Nossa.

Em comemoração à Década dos Oceanos (2021 a 2030) a MARÉ apresenta uma seleção de filmes pensados especialmente com objetivo de fazer um alerta aos espectadores, para lançar de imediato iniciativas radicais a fim de  reduzir os índices cada vez mais alarmantes na emissão de gases poluentes na atmosfera e no oceano. Para Fellipe Redó, curador da Mostra Cinema do Mar:

As obras são uma coleção fílmica que apresenta uma certa desconfiança na política de apaziguamento, de disruptura à normalidade vendida nas farmácias e pelo Governo Federal, de anúncio distópico de futuro embora não completamente improvável. Ainda assim, os filmes que compõem esta seleção tem o objetivo de contribuir dando visibilidade às ODS – Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável.

oficinas, encontros & debates

Duas oficinas compõem a programação da edição da mostra no formato híbrido entre os dias 29 de novembro e 3 de dezembro: Oficina de documentário ambiental, com Marlom Meirelles [presencial] e a Oficina de animação stop motion com materiais reutilizados, de Bruno Cabús [virtual].

Voltados para os eixos da mostra e seus desdobramentos, a edição da MARÉ 2021 promove o 2º Encontro de Festivais Ambientais de Cinema e os debates O desafio da década: a restauração dos oceanos e a perda da biodiversidade, com Heloísa Schurmann, Andrea Olinto e Rômulo Faria; Marco Temporal: resistência e luta dos povos tradicionais, com Iran Xucuru, Whodson Silva e Carolina Canguçu, e Planeta em risco: a emergência climática, conflitos econômicos, políticos e impactos imediatos, com Inamara Melo, Moacy Araújo e Silvio Tendler.

No Recife, o Cineteatro do Parque recebe a 6ª MARÉ nos dias 29 e 30 de novembro. A MARÉ será a primeira mostra a ocupar o Parque, espaço histórico que retomou recentemente suas atividades após um longo período fechado. Já no dia 4 de dezembro, uma exibição ao ar livre ocupará o Cais do Sertão [Espaço Umbuzeiro – vão livre] e no dia 5 de dezembro, uma ação de limpeza ambiental em parceria com as associações e coletivos Xô Plástico, Recife sem Lixo e Green Girls está programada no Parque das Esculturas. As novidades desta edição são exibições e debates na Ilha de Fernando de Noronha nos dias 6 e 7 de dezembro.

CineRuaPE

Em parceria com o Coletivo CineRuaPE, a MARÉ 2021 irá realizar uma visita guiada no Cineteatro do Parque em comemoração ao retorno do equipamento cultural do Recife, espaço que concentra grandes exibições cinematográficas e atrações culturais desde 1915. O coletivo CineRuaPE vem realizando atividades em prol da memória, retomada e preservação dos cinemas de rua do Estado de Pernambuco há seis anos. A visita ganha o nome ‘Geraldo Pinho’, programador do Parque por muitos anos e grande incentivador da MARÉ, falecido recentemente. Compondo a programação, uma sessão especial de curtas da mostra será exibida para alunos da rede pública de ensino. Toda programação da MARÉ 2021 pode ser acessada no site do evento.

Pepita, filme que será apresentado na MARÉ.

A MARÉ é uma realização da Bonsucesso Comunicação de Cultura, produção A saga Audiovisual e Cidadania, com incentivo do Funcultura e apoios da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Recife, Administração de Fernando de Noronha, Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Secretaria Estadual de Turismo e Lazer, EMPETUR, Cais do Sertão e Editora CEPE.