Neste verão a Philos lançou livro Coleus, do escritor e multiartista Mateus Capelo. Na obra, a crônica e o ensaio se encontram numa narrativa que traz ao cerne de sua discussão o corpo e a construção da sexualidade através de uma história intimista, erótica e desejosa. uma crônica – de coração magoado e amores sexualmente efêmeros – que é apresentada de maneira diligente pelo autor. Aqui você lê alguns excertos de Coleus acompanhados de vídeos de ensaios e processos do artista:

A gente interrompe todo o delírio e sai dali. Floripa é bem o tipo de cidade que, tendo alguém visto, mandaria um grupo de pessoas pra nos cercar. Fiquei com medo pela gente. Eu fiquei com medo pela gente diversas vezes, na verdade. Porque não dava pra disfarçar o que a gente sentia: o jeito que a gente olha pra quem a gente ama é o jeito que a gente olha pra quem a gente ama. 

eu tava falando do tempo, esse tempo de quarentena, esse tempo que obriga a gente a mostrar um pouquinho de senso coletivo. Só que o senso coletivo cometeu facebookcídio, encerrou o twitter e foi andar de mãos dadas com o Covid. Vamos morrer? É, ainda bem.

Acho que meu coração é vagabundo e meu pau um michê-0800. Mas tá tudo diferente e não tô pensando e tampouco tentando enfiar os acontecimentos recentes em alguma narrativa prévia. Não acho que exista o que explique e isso tem a ver com o vírus, também.

Eu acho engraçada essa afirmativa de que o corpo é político, sabe? Mas ele alimenta que política afinal? Pela encomenda por vir, essa resposta é óbvia. Sei lá, alguém tem o código de rastreio do correio?

E acho que aprendi isso com o Cris: ele me amava e me dizia. Eu amava, não dizia, mas fazia amor. Entende? Não era o substantivo, era o verbo. Não sei porque não dizia… talvez eu saiba. Mas a gente se amava e se amava na ação das coisas. Quando ele me pegava de moto e acelerava um pouco só pra eu apertar mais o abraço. Quando ele fazia mil cafés na manhã e um pão caseiro. Ou quando ele queria me comer com aquela tora no meio das pernas e achava coisa simples. 

Isso tudo tá uma merda e o dia lá fora maravilhoso. Sol, céu azul e um frio pra se aquecer. A natureza sabe que tem um vírus será? Por isso que a cultura ocidental odeia tanto a natureza? Porque ela não tá nem aí pra gente? Cães deveriam usar máscara? O céu deveria estar nublado? 

Nesses delírios assim eu quero mesmo é que vá tudo pra puta que pariu. Já que a gente tá distante, eu moro aqui e você num outro lugar, eu quero que vc seja o meu país, ou melhor, meu país não! Meu porto seguro. Por que imagina se guerrearem contra mim? Vc é que vai ser atingido. Pobre Brasil, pobre Brasil. A gente vai cair?

A natureza vária das coisas. Filmo tudo porque o som que eu faço é o som que as águas fazem também. O líquido que corre de mim tem a correnteza do rio.

Quanto amor ao macho! O que fica de si, é esse exemplo de uma vida sobrevivendo na perspectiva da resistência. O que me é curioso: entre o mérito e o privilégio, não existe conquista. Pois, óbvio, não há força.

E é isso que me cansa nessa coisa de WhatsApp. O objetivo não é chegar a um resultado de um projeto, mas sim alimentar o status de um papel social: estou ocupado, tô trabalhando e tenho que responder mil mensagens. Ninguém tem tempo, mas tá todo mundo disponível.

Só que é isso mesmo e parece que ninguém sabe: o pau é penetrável. Há essa coisa do mastro que invade, mas ele também tem um canal – meato, e do mesmo modo que serve pra saída de urina, também pode entrar o que lhe couber. Não é assim com o cu?

O trunfo do homem que mente é ter certeza de que fala a verdade. Nesse sentido, acho que pensar estrategicamente se torna até fácil… porque é isso: desejam a confirmação das coisas que acreditam.

Eu tava no carro com minha irmã e vi escrito numa placa assim: a vida é a melhor direção. Em certos assuntos, eu sou um covarde. Esse é um deles.