Apresentamos dois trechos do romance Rouxinol, livro de estreia do escritor e cineasta Bruno Graziano. Na obra, Dario, prestes a completar trinta anos, ganha a vida como jardineiro em São Paulo. Numa manhã de inverno, acorda intranquilo e sente a vontade inadiável de sumir sem avisar ninguém, partindo para uma viagem sem volta rumo ao norte amazônico. Carrega somente uma mochila nas costas. É em Alter do Chão, uma vila balneária nas margens do rio Tapajós e recém descoberta pelo turismo de massa, onde ele encontra Dalila, uma mulher independente e de sentimentos bárbaros. Este encontro abrupto é inicialmente truncado e promove para ele uma aventura perigosa e desafiadora que exige sua sobrevivência ao mesmo que se vê deslumbrado por surpreendentes encantos dentro da maior floresta do mundo. Nesta atmosfera paradisíaca em completa transformação, Dario viverá a semana decisiva de sua vida – uma paixão indecifrável, um bioma que ele não conhece e o encontro com pessoas buscando um lugar para existir diante de tempos líquidos.

Fotografia de Bruno Graziano para o seu livro Rouxinol.

um sonho

Um pássaro de adoração internacional. Pequenino e camuflado em seu habitat arbustivo. Conhecido pelo canto garboso de duzentas e cinquenta distinções. Inspiração de poetas e artistas das mais variadas estirpes. Um voador cinematográfico. Pacífico, antepõe os insetos a qualquer outra carne em sua dieta de sobrevivência. Um personagem que canta mais alto quando acompanhado e mais aturdido quando em busca de seu amor. Figura romântica, resistente às intempéries do extermínio humano em cima da fauna exaurida. Destilador de uma segurança inerte à timidez. A opulência de seu canto, raramente exposta ao mesmo instante de sua presença, esconde-se diante de qualquer alusão ao caos. Resguarda a beleza que lhe posta aos olhos alheios, gosta de migrar, de voar por aí, e o faz como força vital para onde possa buscar públicos fiéis de ouvidos atentos ou simplesmente um local para que ensaie o canto perfeito de sua obsessão. Não admite o descompasso de sua riqueza musical seja na vigorosa primavera, quando com sorte se acasala, ou no início do verão, período em que a composição de sua melodia ecoa mais constante e acalmada. A procriação dos filhotes é generosa e a formação é concebida de memória transmitindo aos próximos e próximas o dom musical de uma herança duradoura. Crescem dispostos pela aventura e deixam rotineiramente o lado mortal de lado tornando-se perenes ao lustre sonoro e à beleza de um canto improvisado, misterioso e inspirador.

voo livre

O personagem principal desta história é um jovem que completará trinta anos de idade daqui nove meses. Mede um metro e oitenta e cinco de altura e pesa setenta e oito quilos distribuídos num porte atlético e uma postura simpática. Seu cabelo é preto e um pouco crespo, raspado em máquina três. Aparenta ser uns anos mais velho. Ele acha que é por causa do excesso de raios ultravioletas que se dispôs a enfrentar desde pequeno sem boné, óculos escuros e protetor solar. Gosta do sol como quem delira diante da inocência, do mistério ou do espanto. O sol o empurra para frente e lhe dá energia para praticar sua teimosia, que junto com a imaginação e a lealdade, considera serem as principais virtudes de sua personalidade. A predisposição ao calor, desmedida como tudo que é bom, proporcionou uma morenice rígida na pele. As mãos e pés são grandes, mas compatíveis com sua envergadura. O peitoral é ávido e proeminente, os ombros largos e as costas um pouco arqueadas. Os braços longos são marcados por músculos regulares, não excessivos, além de duas cicatrizes no antebraço esquerdo, adquiridas na infância e já transformadas em manchas rosadas. As pernas são um pouco finas, comprometendo sua uniformidade corpórea, porém não chegam a caracterizá-lo como um peito de pombo. Os olhos são pintados de castanho-escuro, o nariz é grande e projetado e a boca pequena se comparada com a de outros homens. Faz a barba uma vez por semana. Gosta de tomar dois banhos por dia. Fala pouco e costuma serrar as pálpebras por tique e por impulso em demonstrar que está prestando atenção. Sorri com economia diante de humorismos, mas não se deixa rogar quando o ímpeto de gargalhar lhe acomete diante dos outros.

Fotografia de Bruno Graziano para o seu livro Rouxinol.

Dario é um mestiço, descendente direto de brancos, pretos e índios, filho da fabulosa tragédia que é a miscigenação brasileira. Morou a vida toda em São Paulo, na capital. Nasceu no segundo andar de um casarão de esquina já demolido na rua Conselheiro Carrão, no bairro do Bixiga, no último ano da década de oitenta. Cresceu em meio a fuscas, pizzarias e sotaques ítalo-nordestinos. Quando os pais se divorciaram ele tinha seis anos de idade, quando foi morar com a mãe na região da Lapa, num casebre da rua Sepetiba, uma via comprida saída da avenida principal e que escorrega larga numa ladeira fresca de casas ajardinadas e guaritas de segurança que depois de duas rotatórias se transforma em outro bairro, mais simples e ensolarado, onde morava o tio da cocada, a centenária Dona Pina e o gordo tarado por pés. O açougue vendia fiado logo em frente ao alargamento onde funcionava a padaria próxima da banca de jornal, das garagens-oficinas, dos arbustos de manacá da calçada e de uma praça triangular reinada por um jequitibá rosa. Era uma rua pacata na década de noventa e começo dos anos dois mil, ou pelo menos o suficiente para adultos soltarem pipas e crianças andarem de motocicletas noventa cilindradas, um ruído vil da memória de sua adolescência sem lembranças de prédios altos e trânsito infernal de carros. O contraste a esta vida bairrista onde tudo parecia auto-suficiente era sentido por ele quando acompanhava seus pais nas idas ao trabalho e assim tinha a chance de conhecer novos pontos da metrópole, nunca sabendo se estaria no centro, bairro, subúrbio ou periferia. E o fato de ter andado muito pela cidade desde que estava na barriga da mãe, inviolável de sua pessoa, o tornou um curioso e o curioso vê beleza, mas vê também muita coisa que não presta. Quando ele completou vinte e sete anos, tornou-se um ser humano inconformado com os novos costumes urbanos que passaram a fazer parte do cotidiano das grandes capitais de forma mais intensa após a virada do século vinte para o vinte um. O uso expressivo de aparelhos digitais em todas as relações entre pessoas, a dependência do automóvel para locomoção, o estilo de vida verticalizado, o alto grau de dependência ao consumismo como filosofia de pertencimento, o crescente medo de assaltos e roubos, o marketing acima de tudo e a propriedade particular acima de todos. Inconformou-se com o ar que circunda a cidade e com a luz que ilumina seu asfalto áspero, o primeiro cinzento e tóxico, a segunda pálida e metalizada numa ambientação que para ele potencializa a doença constante de quem circula diariamente nos ambientes públicos. Incomodou-se com as pequenas enfermidades do estilo de vida urbanóide; a enxaqueca, o resfriado, a gripe, a rinite, a sinusite, a dor de garganta, a azia, as alergias de pele e as tosses alheias e irremediáveis. Fez bons amigos na vida adulta, cultivados com alegria e imprevisibilidade, e flertou com uma diversidade de mulheres nas noitadas de sambas de roda, nas baladas de rock alternativo e nas festas dionisíacas que ocorriam na Vila Anglo. Adorava os restaurantes por quilo e os teatros de rua, a descida da rua São Bento e o Parque Ibirapuera. 

Fotografia de Bruno Graziano para o seu livro Rouxinol.

Dario sempre apreciou os hábitos coletivos de gente simples. Se afortunava no andar de ônibus para lá e para cá, saltando em ruas de pedras portuguesas onde caminhava sem rumo cumprimentando passantes que cruzavam seu caminho mesmo que uma parte considerável deles tenha começado a demonstrar com esquizofrenia um medo de gente e partindo com pavor para o outro lado da calçada. Coisa do Maluf. Cultuava as onipresentes padarias das vitrines com coxinhas e risoles fritos duas vezes ao dia e amava as carolinas e catarinas açucaradas servidas com o cafezinho e a água gaseificada. Rememora as pedaladas de fim de tarde, o descanso nas praças de quaresmeiras e ipês despelando flores nas viradas de estação, as ruas de brincadeiras de amarelinha e rolimã, o três dentro três fora, o esconde-esconde e também as senhoras engraçadas de trato caricato, os filhos de imigrantes embolando o coloquialismo das línguas distintas, as lojas de doce sem nenhum funcionário no balcão e os vagabundos inofensivos, alguns sábios apesar de loucos, e todas essas coisas do passado pelas quais viveu diante da geração que o criou como um moleque afagado nas prosas de calçada. Sua primeira camada familiar formou-se entre hábitos enraizados nos anos sessenta e setenta do século passado e a outra geração, a deu seus avós e bisavós, é composta de um lado por uma miscelânea de imigrantes europeus fugidos da miséria do pós-guerra já na leva de italianos, portugueses, espanhóis e alemães vindo moldar parte significativa da classe trabalhadora urbana de São Paulo. Eram açougueiros, costureiras, taxistas e alfaiates. O outro lado também é misturado, mas por trabalhadores e trabalhadoras rurais do sul de Minas Gerais, descendentes dos caboclos e cafuzos da transição para a República no fim do dezenove, quando ainda se impregnava na casta social uma escravidão não cicatrizada. Destes familiares, nunca teve acesso a muitas informações, apenas fotografias amareladas de carteira e algumas lendas ouvidas de canto de orelha.

Dario não se reconhecia mais em São Paulo. O centro histórico que antes o fascinava com a opulência de acontecimentos, local de duas moradas antológicas que proporcionaram o melhor de sua mocidade, passou a enojá-lo com a podridão do concreto degradado, do esgoto e da falta de sol. Os bairros que antes o encantavam, das casas de arquitetura modernista com jardins repletos de plantas ornamentais e amoreiras frente à porta, eram agora gigantescos canteiros de obra entregues ao progresso da edificação e das grandes redes de supermercado. Já o clima suburbano tão característico de sua infância, das casas geminadas e dos cachorros presos que latiam quando soava o sino das cinco horas na igreja da rua de trás ou quando soltavam balões ilegais nas tardes de sábado ou quando o vizinho queimava fogos de artifício nos jogos de futebol no domingo, essa nostalgia toda o fez começar a sentir um certo ar melancólico diante da necessidade de ir embora para morar nas alturas das varandas gourmet que todos ali passaram a demonstrar. Não queria militar por nada além do que fosse respeitar o sonho dos que estavam à volta. Respeitava os estilos de vida, às vezes até os entendia, mas não sonhava mais o mesmo sonho da metrópole mais complexa do hemisfério sul. Tornara-se triste dentro da cidade que tanto vivera sua puerícia desbravadora, com entusiasmo e uma bem-sucedida sobrevivência até então. Estava tétrico dentro do habitat onde devorou com tanto gosto o ímpeto de sua juventude errante nas esquinas boêmias mais efervescentes de essepê e foi por isso que decidiu ir embora sem avisar ninguém ao acordar de um sonho intranquilo e entrar debaixo da água gelada do chuveiro. Lotou o mochilão com roupas e acessórios que achou necessário, quatorze quilos de sua vida material dali para frente. Colocou nas costas e, apesar do peso grande, sentiu-se leve. Não aguardou mais um dia para que pudesse se planejar. Não enviou e-mails de despedida aos que prezava. Não preparou um discurso aos que questionassem sua tomada de decisão. Não quis juntar mais dinheiro do que possuía e tão pouco se despedir dos ambientes que por ventura fosse sentir saudade. A ruptura haveria de ser abrupta, silenciosa e convicta assim como faria um cavalo azarão. Buscaria o prêmio da vida sem maiores atenções alheias à sua trajetória. Havia duas doses à disposição, uma de êxtase e outra de desespero, e acima disso tudo ele sentiu uma vontade gigante que deveria ser consumada em estado de urgência. O norte do Brasil mostrou-se seu destino.


Bruno Graziano nasceu em São Paulo, em 1987. Como realizador, co-dirigiu os documentários Brasa (2020), Chegança, no Jardim das Belas Flores (2019), Rumo aos 100 no Paraíso (2019), Cinema, Gerais e Barus (2018) Baderna (2018), Largou as Bota e Mergulhou no Céu (2016), O Acre Existe (2014), Tem Gringo no Morro (2013), Paulo Mendes da Rocha (2013) e A Primeira Vez do Cinema Brasileiro (2013). Rouxinol é seu primeiro romance publicado.