Se você ainda não ouviu falar em Thais Zaki, se prepare! A Philos apresenta uma exclusiva com uma das artistas mais promissoras de 2022. Nascida em um dos lugares mais pobres do Brasil, o Garimpo do Socotó, Thais reside hoje na França e é aluna de uma das escolas de arte mais prestigiadas da região Parisiense, ENSAPC. E em um um pequeno Café de Paris, na região do Marais, ela nos responde algumas perguntas rápidas e deixa o gosto do que está por vir em sua produção. Dentre os assuntos ela nos fala sobre a percepção do tempo e visceralidade. 

Uma das coisa mais interessantes sobre as nossas conversas, é exatamente a forma como você aborda várias temáticas. Para as pessoas que não te conhecem, como você se descreveria?

Eu me descreveria como uma pessoa curiosa, em constante expansão e preocupada com o futuro, acho que isso é o que mais me define como artista. Eu realmente me preocupo muito com a passagem do tempo, como a gente o percebe de formas diversas e o que  estamos fazendo com nossa existência conjunta… Enquanto mulher afro-indígena, baiana e nordestina, me questiono sobre as humanidades, não só as humanidades Sapiens mas todas as outras humanidades que estão aí, mas que são ignoradas pela gente. Como artista eu me descreveria como alguém que sente a visceralidade.

Já são seis anos de Europa e desses seis temos quatro anos de França. Neste momento você tem finalizado uma exposição em Paris e está participando da exposição coletiva “Espumas Siderais”, em São Paulo, na Galeria Marli Matsumoto. Como você enxerga essas duas possibilidades acontecendo?

Na França eu tive uma facilidade muito maior enquanto artista de mostrar meu trabalho, de falar de arte e de pensar arte. Aqui consigo criar mais acessos do que no Brasil. Talvez eu esteja em um momento onde o Brasil está me notando, mas eu percebo que é sempre muito mais simples criar aqui na França. Talvez por ser uma mulher que vem de fora, que vem de outra cultura, desperta mais curiosidade. Aqui eles têm aberto mais portas para mim do que meu próprio país. Por que arte eu já fazia no meu país desde que me entendo por gente e sempre foi a rua o meu lugar, aqui eu consegui mais espaço tanto na rua como em instituições. A exposição que acontece no Le Chambre, em Amberville, foi um convite do espaço para que eu experimentasse a galeria deles, sem que eles me conhecessem de lugar nenhum apenas quiseram conhecer o meu trabalho e me deram espaço, o que convenhamos é muito difícil de acontecer no Brasil.

Thaís Zaki, em Paris, pelas lentes de Lucas Fonseca (2021)

E como você chegou até o Brasil?

Através dos colecionadores brasileiros importantes, como a Clarice Tavares por exemplo, uma historiadora especializada em Arte Latino Americana e Contemporânea,  ela é uma curadora importante em NY.  Ou pelos olhos da Juliana Monachesi, que me achou  ali nas redes sociais, os algoritmos também me levaram às pessoas que eu precisava me conectar, mas não acredito que foi sorte, até porque eu trabalho muito (risos). Expor meu trabalho nas redes sociais me dá a oportunidade de outros curadores que estão no Brasil e no mundo entrarem em contato comigo. O que me faz querer partir para  apresentar o meu trabalho em outros lugares.

Aproveito e convido as pessoas a conhecer a exposição Espumas Siderais na galeria da Marli Matsumoto, que vai até 21 de dezembro.  Venham me ver e ver tantos outros bons artistas que participam da exposição como o Cildo Meireles e a  Elle de Bernardini, por exemplo. A Curadoria é da Juliana e ela tá lá pessoalmente aos sábados fazendo um  tour com os visitantes

Seu trabalho tem um projeto principal, como conversamos bastante nesta semana, que é sobre o lugar que você veio, sobre o que lhe faz transpirar essa arte e estética visceral que a sua pintura tem…

Eu escrevo sobre a percepção do tempo e para notar a temporalidade eu entro em um estado de hipnose. O transe hipnótico me leva a uma percepção temporal diferente é a partir dele que projeto meu olhar sobre a sociedade. Apesar de eu manter a consciência adulta, volto a sentir à minha primeira infância, nos meus oito ou nove anos, numa fase de mais liberdade para criar e existir. Infelizmente aos 11 a minha arte foi tocada por um abuso sexual, digamos assim, e isso me modificou, mudou meu olhar para a arte. Por isso preciso voltar a uma idade anterior para criar  e a hipnose me dá essa possibilidade. Desde que comecei a pintar em transe comecei a me interessar muito pela visceralidade, pois é assim que me sinto, em um Eu visceral. A partir desse eu visceral posso simplesmente observar sem me preocupar com regras, diferenças sociais, culturais, diferenças de raça…mesmo se essa liberdade da infância também foi moldada de alguma forma pelo sertão da Bahia. Voltar às peculiaridades do sertão é voltar ao mais visceral de mim. Essa visceralidade sentida na primeira infância, passou a ser a minha medida de observação do tempo, e a partir dela busco notar o que molda a percepção coletiva de aceleração e desaceleração do temporal.  A minha métrica é visceral, procuro reconhecer fatores, desejos e atos viscerais na nossa sociedade e como estes tocam a mim e aos outros. Por exemplo, o desejo das mulheres de terem seu poder reconhecido nesse momento em que vivemos, é um desejo visceral. Ele está agora em seu ponto máximo, falo sobre isso em minha exposição, noto se esse desejo acelera ou desacelera a percepção de tempo. Por exemplo, quando falamos de mulheres negras ou indígenas presidentes falamos de novos imaginários coletivos, estamos propondo aceleração do tempo ou pelo menos o direcionamento de um tempo em aceleração.  Assim como quando propomos resgatar valores e saberes ancestrais, estamos propondo desacelerar o tempo, não por estarmos olhando para o passado, mas porque no passado os processos eram mais valorizados e sentidos que hoje.

Quais são as fontes onde você se banhou para chegar até esse processo?

Rosana Paulino com certeza é uma referência enorme. O Bispo do Rosário, o quarto do Bispo é uma coisa que me fez entrar e construir meu quarto-forte, me levando ao meu mais alto grau de hipnose. Eu penso em Bispo, penso em hipnose. Filósofos? vários! A maior parte das minhas referências são filosóficas. Vandana Shiva, Sueli Carneiro, Jürgen Habermas. Nesse momento escrevo uma crítica a Bauman, até concordo em alguns pontos com ele, mas o acho pessimista e incompleto. Decidi então escrever, pois gosto da ideia de tempo fluido, mas ele como homem branco, muitas vezes exclui a influência preta e indigena na liquidez e sustentação da solidez .  Na primeira parte da modernidade  a sólida, em quem as estruturas se apoiavam? No sangue de pretos e indígenas, a partir do momento que essa escravidão tradicional cessa e dá lugar a uma nova escravidão sutil e mais abrangente – capitalista e aceleradissima, na sociedade as coisas passam a ficar mais liquidas, a escravidão também passa a ficar mais líquida,  no capitalismo ela é tão adaptavel que é quase impeceptivel para a maioria. Quando Bauman fala que a fragilidade do estado de direito está deixando as coisas instáveis, ele não deixa claro, mas dá a entender que isso é ruim para  “toda a sociedade”, quando está se referindo a “comunidade branca”, que é quem detém o direito e para quem serve o estado. Eu, não branca, enquanto parte da sociedade, penso que nessa instabilidade “líquida” está a possibilidade da nossa ascensão de poderes, já que o estado foi criado para nos explorar, perseguir e exterminar, a sua instabilidade nos dá a possibilidade mínima de espaço para lutar por mudanças nessa estrutura.   Além de Bauman,  me apoio assim em várias escritoras pretas, Chimamanda, Djamila, Angela Davis…

Me conta três livros que você super indica para os leitores da Philos.

Pele preta, máscaras brancas, Frantz Fanon, super indico. A queda do céu, Bruce Albert e Davi Kopenawa Yanomami. Existe um livro que não é muito recorrente, se chama Método Moderno de tupi antigo,  esse é um dicionário de tupi, mas é um livro que eu acho que ajuda não indígenas a se interessarem em perceber como pensam os povos indígenas, através da análise de contos e escritos antigos em tupi e ajuda também nessa tentativa de comunicação, pois eu acho que o Brasil falha muito com a população indigena, em respeitar nossas culturas que já estavam lá. Já se foram três, mas se ainda assim vocês não forem ler nenhum, leiam, por favor, Uma desobediência criativa, de Vandana Shiva.

Thaís Zaki, em Paris, pelas lentes de Lucas Fonseca (2021)

Lucas Fonseca (Pernambuco, 1990) é Artista Plástico (UFPE) e Historiador (UPE), participou de projetos de arte educação e curadoria para o Museu Murillo La Greca e o Instituto Ricardo Brennand, ambos em Recife. Para além de ter atuado em monitorias do MNBA – Museu Nacional de Belas Artes (Chile).