A experimentação e a pesquisa determinam os vetores criativos de Anna Bella Geiger. Sua liberdade criativa se manifesta em diversos suportes e materiais. Através de apropriações, deslocamentos e ressignificações a artista incorpora questionamentos que perpassam toda a sua produção. Ao distender as fronteiras entre o passado, o presente e o futuro, Anna Bella constrói uma obra que consegue ser ao mesmo tempo atemporal e iconográfica. Junto a outras artistas contemporâneas, forma uma poderosa linhagem feminista que redefine o cenário artístico brasileiro.

Sem se comprometer com práticas estritamente conceituais, a artista desenvolve uma geografia de caráter antropológico que estrutura suas ações artísticas e expande os conceitos tradicionais de representação para se projetar como elemento de cultura e questionamento de mundo. Através de práticas dialéticas, adota uma estratégia de enfrentamento e ousadia, deslocando o agente artístico e incorporando a seriação como elemento de comunicação. Com o resgate de imagens, memórias e lembranças instaura a indagação sobre a pluralidade desse mundo contemporâneo, dilacerado em suas fronteiras, e seus limites. Como provocação estética, recusa aspectos contemplativos e insere a visualidade num campo mais amplo e expandido, longe do discurso panfletário e, também, do hermetismo conceitual. É no território difuso entre o real e o virtual, entre aquilo que está e aquilo que se desloca, que a trajetória de Anna Bella Geiger está fundada.

Anna Bella Geiger, O espaço social da arte (1977). Fotografia de Jaime Acioli.

Para a mostra “Anna Bella Geiger – entre os vetores do mundo”, além de obras de importância histórica, a Danielian Galeria traz também a vivacidade da sua produção mais recente que reflete o comprometimento artístico e inquietação intelectual de Anna Bella Geiger, com cerca de 50 trabalhos, que reúnem a produção mais recente e inédita da artista – bordados, “gavetas”, e obras das séries “Rrolos” e “RroseSelavy” -, para além de peças icônicas como os viscerais dos anos 1960, os mapas da década de 1970, as pinturas e os macios de 1980 e 1990 e a série “Burocracia”. A curadoria é de Marcus Lontra, diretor artístico da Danielian Galeria e co-curadoria de Rafael Peixoto.

Marcus Lontra afirma que “é nesse território difuso entre o real e o virtual, entre aquilo que está e aquilo que se desloca, entre a seriação como estratégia de comunicação e a independência de cada obra com seu valor e qualidade intrínseca, que a trajetória de Anna Bella Geiger está fundada”.

Dentre as obras históricas expostas destacam-se as aquarelas e gravuras conhecidas como “Viscerais” dos anos 1960; as obras compostas por fotografias e cartões postais dos anos 1970, como “O pão nosso de cada dia” (1978) e “Brasil nativo/Brasil alienígena (1976/1977); os cadernos de artista inspirados nas antigas cartilhas escolares como “A cor na arte (1976) e “O novo atlas I” (1976)” além de pinturas das séries “Pier and Ocean” e “Macios”.

Da sua produção mais recente chama a atenção as gavetas criadas por Anna Bella fundindo referências geográficas com símbolos, linhas e formas. Além disso, serão apresentados desdobramentos de séries que a artista vem realizando desde os anos 1970, ininterruptamente, em diferentes formatos e matérias, como é o caso de “Burocracia” e das intervenções em jornais inspiradas na prática de Marcel Duchamp em “RroseSelavy”.


Anna Bella Geiger nasceu em 1933, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha. Estudou Línguas Anglo-Germânicas na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro e Sociologia da Arte com Hannah Levy Deinhardt na New York University e na New School for Social Research (anos 1950). Desde então, vem expondo regularmente em individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Participou de várias Bienais Internacionais: São Paulo, Mercosul, Veneza, Liverpool, Istambul, Tóquio, das Amazonias etc. Possui obras nas Coleções: MoMA (Nova York), ISLAA (NY), Guggenheim (NY), Centre Georges Pompidou (Paris), Tate Modern (Londres), Centro de Arte Reina Sofia (Madri), MACBA (Barcelona), Victoria and Albert Museum (Londres), Getty Institute (LA), The FOGG Collection (Boston), Hank Hine – TAMPA Museum (Flórida), MAM Brasília, entre outros. Prêmios: 1º Prêmio na Casa de Las Americas (Cuba) 1962, JAC Museu de Arte Contemporânea (USP) São Paulo, 1966, Resumo JB Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro 1968, Fundação Guggenheim (NY) 1981, Bolsa Vitae de Artes, 1992, IBRAM Rio de Janeiro, 2005. Em 1987 publicou, com o filósofo brasileiro Fernando Cocchiarale, o livro “Abstracionismo Geométrico e Informal: A Vanguarda Brasileira nos anos 1950”. Leciona no HISK (Hoch Schule aus Kunst), Ghent, Bélgica e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), Rio de Janeiro.