Uma feira de arte precisa criar uma linguagem capaz de expressar os seus tamanhos e desmesuras interiores. E para nós a SP-Arte necessita se (re)inaugurar em seus mais de 15 anos de exposição e mostra de artistas nacionais e internacionais.

Somos parte da cultura da Ibero-América, queremos expressar nossas cores, falar de nossas semelhanças e diferenças, sobre o que nos torna diferentemente iguais e sobre os processos políticos e sociais da artes e dos pinceis de cada artista. Ou melhor, sobre a realidade de cada um. Como editorial, queremos fomentar a troca entre os nossos povos de forma mais próspera, inclusiva e democrática, para viabilizar nosso processo de expansão de nossa latinidade, a partir de elementos que definem e representam a diversidade sociocultural do povo ibero-americano.

O espaço de venda como qualquer outro deve se tornar algo inclusivo e pertencente, criando assim um dos maiores desafios de nossa produção de arte contemporânea: A inclusão dos direitos de minorias nas políticas públicas dos nossos países. Mas, pese os avanços das últimas duas décadas, existe uma grande distância entre os espaços de criação e, principalmente, de venda dessas produções. E reconhecendo esta realidade, a Philos apresenta uma listagem dos 8 destaques de uma das maiores feiras de arte da América Latina:

  1. Flávio Cerqueira e seu Eu te disse… no stand Galeria Leme, com seu belíssimo diálogo sobre a morte, a marginalização e as obras que falam sobre um Brasil ainda distante. Em alguns momentos nos faz pensar no clássico de Clarice, Hora da Estrela e as literaturas que nos suportam mesmo quando na condição de corpos ao chão. Majoritariamente os livros usados na peça falam sobre as construções políticas e sociais do país que nos atropelam e sufocam.
  2. Fefa Lins, da Galeria Amparo 60 e seu & se trans for mar – de uma técnica impecável e qualidade ímpar. Trazer novas dinâmicas com a pauta trans elabora novas potências e acima de tudo um mínimo de lucidez para a arte contemporânea. Mesmo dentro do movimento, ver homens trans e trans-masculinos nas galerias ainda é algo raro. Fica aqui um destaque e um apelo para as galerias e festivais que infelizmente são poucos a trazer essa pauta.
  3. Inox com a obra de Jefferson Medeiros apresentando novos brasis em sua série Commodity, dentro de uma outra América Latina. Um mapa mostrado através de lentes diferentes com cápsulas de bala, machados e pratos com fome. São inúmeros suportes inovadores, trazendo assim -e finalmente- novas possibilidades.
  4. Jacqueline Terpins Galeria com uma delicadeza sem igual, cada peça da coleção “Instante” retrata exatamente o que se propõe. Um movimento, um lapso, um inflo eternizado no tempo.
  5. A HOA com destaque para a obra de Larissa de Souza com sua obra A Morada, e seus aspectos de memória e ancestralidade. A pintura acrílica é algo muito presente nas grandes feiras, mas o que mais impressiona é trazer esse mesmo suporte com uma grafia diferente de muitos outros.
  6. Alex Rocca e sua a arte de tecelagem é uma proposta sem data definida, desde a antiguidade até a arte contemporânea. Vimos muitas obras em tapeçaria em todo o evento, mas as obras do Alex merecem uma atenção especial, pela técnica, tabela cromática e precisão.
  7. A Blombô ao trazer obras em NFT em parceria com a galeria argentina Aura. O tema da exposição aborda o avanço da tecnologia e a digitalização da vida, ao passo que também parte para temas metafísicos como premonições, seres híbridos e presenças divinas e demoníacas. Escolhemos a obra El vertice del Amor do artista Frenetik Void.
  8. Carbono e a obra de Juan Fontanive. Mesmo a feira não apresentando uma infinidade de suportes diferentes, ainda sim a coleção Atlas Moth surpreende com diversos seres voadores em uma plataforma vintage e lúdica. Em um suporte clássico das animações do começo do século XXI a estrutura de animação em frames nos coloca em uma posição que aprisiona o olhar.

Acreditamos que uma arte encoraja o intercâmbio entre pessoas e processos e favorece o diálogo sobre nossas ideias comuns, permitindo o reconhecimento de nossas perspectivas na contemporaneidade nos espaços em que ocupamos. Temos orgulho em fomentar um diálogo entre pessoas pois acreditamos Apesar disso, diante dos processos de cada artista e da não interação de técnicas, deve-se destacar a fragmentação e parcialidade de suas mostras, uma incompletude já esperada -pelos formatos de mostras de galerias coletivas anteriores, e que nos dão a positiva sensação da necessidade da continuidade desses (e dos nossos) trabalhos e forças no espaço social e de arte.