Toda a história da nossa sociedade foi construída através de narrativas cujo propósito era nos ensinar sobre civilizações, culturas e antepassados, sejam essas narrativas faladas, textuais ou imagéticas. Para além do caráter educativo cronológico, as histórias passaram a suprir uma necessidade nossa de ouvir histórias, criar enredos e fantasias, imaginar um mundo além. É justamente esse novo mundo de possibilidades narrativas que desejamos trazer a luz.

A potência visual e o impacto que as imagens têm em nossas vidas e histórias permitem que inúmeros artistas possam introduzir questões contemporâneas ao tempo vivido. A seleção de artistas dessa exposição busca, então, ampliar o debate sobre a sociedade atual e introduzir novas perspectivas sobre a realidade artística. Citando Glória Ferreira [1]:

“A tomada da palavra pelo artista significa que seu ingresso no terreno da crítica, desautorizando conceitos e criando novos, em franco embate com os diferentes agentes do circuito.”

Por meio da articulação de artistas de diferentes meios (escultura, pintura, joalheria, bordados, fotografias e instalações) pretendemos trazer novas maneiras de se contar histórias e novos debates para o circuito. As narrativas pessoais de cada um dos 7 artistas que compõem essa exposição se atravessam em pontos onde a arte se fez presente como meio de expressão.

Como se adentrássemos em um espaço paralelo, Edu de Barros apresenta uma instalação que à primeira vista evoca lembranças de um universo religioso tradicional. Com a percepção das pinturas e traçados que nos envolvem, percebemos a irreverência do espaço – são pinturas apocalípticas, referências ao mundo digital e uma quantidade infinita de referências ao seu cotidiano como morador do Rio de Janeiro. Com um corpo de trabalho fazendo parte de uma liturgia sagrada, Edu descreve-se como sendo uma ponte entre o divino e a matéria ao representar o “apocalipse brasileiro” em um processo imersivo que durou mais de duas semanas. Acompanhado de Raoni Azevedo, seu companheiro de trabalho, Edu cria esse universo pictórico e sagrado onde a liturgia da capela é a insistência em sua construção e pintura mesmo com as infinitas provações da cotidianidade. Como o artista mesmo profere: “A arte e a pintura são rituais sagrados na minha prática. É a nossa entrega.” Para essa instalação, a entrega é fundamental, é preciso adentrar o universo sagrado produzido por Edu e deixar com que a profusão de imagens perpetue novos pensamentos sobre o papel das imagens na criação de tradições históricas.

Em um contexto digital em que imagens fazem parte de um cotidiano frenético de rolagem de tela, as fotografias de Marina Zabenzi nos obrigam a demorar nas imagens. Na nova série, apresentada nessa exposição, Zabenzi concentra-se em uma relação específica – corpos e carros, explorando a relação entre fragilidade, velocidade, formas e possibilidades. A artista propõe novos diálogos entre situações urbanas e corriqueiras com partes de corpos anônimos (ou não) e entrelaçamentos improváveis. O olhar da artista surpreende na correlação e associação de imagens, apresentadas nessa exposição em um formato diferente dos seus últimos projetos, em maior escala e ocupando o espaço ao permitir o convívio no “mundo real”, sugerindo uma imersão nas imagens de maneira mais íntima e prolongada. 

Manuela Navas fundamenta seu trabalho em pintar corpos negros, o feminino e o maternal. A existência como mulher, os indivíduos afro-diaspóricos e a reflexão nos entornos da maternidade são retratados com sutileza e carinho, ao mesmo tempo que muito críticos e melancólicos. Apresentando pela primeira vez a série “não sei de onde vim”, Manuela nos convida a permear histórias que se fazem junto ao mar. É um movimento comum que nossas narrativas pessoais sejam atravessadas pelas telas da artista. Trazendo vislumbres de histórias não contadas, Manuela propõem que o expectador continue com o sonho, permitindo que a imaginação dê conta da narrativa remanescente. Ao conversar com a artista sobre a série, ela conclui:

“Por fim, sei que algo nos é comum, nossa história, a história dos negros aqui no Brasil se deu junto ao mar, talvez não hoje, mas algum ponto no passado nos liga a dança das marés.”

Marcos Cardiano é artista joalheiro e, para essa exposição, subverte a ideia de joia ao trazer novas narrativas em peças carregadas de críticas e questionamentos. Segundo o artista:

“O espaço vazio entre duas coisas forma um vão. O meu vão fala sobre a passabilidade de um corpo mestiço dentro de uma sociedade racista. Esse não-lugar é também, de onde eu tiro a força necessária para o enfrentamento das lutas diárias no meu contexto social.”

Provocativas, as peças desenvolvidas durante a pandemia, indicam um movimento reativo às provações de uma realidade conturbada brasileira com inscrições e símbolos de uma luta cotidiana antirracista.

Carla Santana, “Concepção”, 2021.

Os trabalhos de Carla Santana, em princípio abstratos, refletem sobre os corpos como “dispositivos de expressividade” e propõem um novo olhar sobre a variabilidade possível dentro de uma produção artística multidisciplinar. Enxergando as imagens como dispositivos textuais, as obras da artista criam uma linha narrativa cujo principal fio conector é o uso da cor e a técnica. Explorando mídias diversas, Carla nos apresenta trabalhos que “buscam externalizar e investigar as relações sutis entre o corpo-subjetivo e o corpo-social”, entendendo ambos como uma via de mão dupla, passíveis de serem apropriados e redescobertos por nós mesmos.

Lucas Assumpção é artista, artesão, stylist e pesquisador. Suas obras evocam um ambiente comum e familiar, com entrelaçamentos entre diferentes narrativas e vivências. Misturando técnicas como inserções gráficas, bordados e outros símbolos dos territórios domésticos de favelas e subúrbios do Brasil, Lucas cria conexões imediatas entre os observadores de suas obras. Esse terreno afetivo ao mesmo tempo que gera uma imediata sensação de reconhecimento e familiaridade, trazem em si críticas ao nosso contexto social. De que maneira essas tradições e territórios explicitam uma identidade brasileira e de que forma esses adornos e proteções nos representam? Frente a suas obras, Lucas encaminha os expectadores a uma troca frutífera sobre as tradições familiares e os símbolos estabelecidos.

Caio Luiz, “Mão na jaca”, 2022. Fotografia de Lucas de Paula, da Casa Bicho.

Artista da baixada fluminense, Caio Luiz é artista do cotidiano. Inserido nas artes desde 2010 através do grafitti, retrata em suas telas relances de uma vivência no subúrbio. Em um processo que envolve a percepção do dia a dia e a fotografia, as obras de Caio Luiz trazem uma sutileza cromática e um cotidiano conhecido por todos aqueles que já se vivenciaram o subúrbio. Através de desenhos, sketchs e estudos de cor, Caio aprimora a sua técnica em telas que variam de uma temática interiorana a uma realidade do subúrbio carioca. Suas obras levam o observador à contemplação e encorajam reflexões de cunho social, apresentando a realidade de um artista jovem que tem a arte como princípio de expressão e que garante a importância da pintura como agente transformador.

Além das comunicações e semelhanças paralelas que podemos traçar entre cada um deles, um denominador comum é a paixão pela arte e o desejo de expressão. São distintos repertórios que, ao serem exibidos juntos, nos permitem traçar histórias que se entrelaçam e complementam e que nos ajudam a entender um pouco mais sobre o que é habitar, sonhar, amar e lutar. 


A Casa Bicho é uma casa de arte que nasceu em 2019 localizada no Jardim Botânico, com mais de 850m² e arquitetura dos anos 50. Após dez anos abandonada, torna-se espaço de expressão a!tística. Com vista para o Cristo Redentor e a Lagoa Rodrigo de Freitas, a casa traz uma experiência única de contato com a natureza e arte. A Casa Bicho é um ponto cultural da cidade que recebe exposições, eventos musicais, ateliês, residências artísticas e mesas de conversa. O foco da casa é a democratização de espaços para propagar e criar arte, abrindo espaços para artistas da cidade toda criarem e somarem forças, potencializando o cenário independente da cidade. A sede da Casa Philos no Rio de Janeiro está localizada no primeiro andar da Casa Bicho. 


[1] FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecília (Org). Escritos De Artistas Anos 60, 70. Rio de Janeiro: JORGE ZAHAR, 2006.