No mês em que, no Brasil, é relembrada a abolição da escravatura, os artistas André Vargas e Pedro Carneiro, com participação do DJ Mam, ocupam o Memorial Municipal Getúlio Vargas, na Glória, Rio de Janeiro, com a exposição “Água Banta”, que segue em cartaz até 19 junho. Na mostra os artistas propõem uma reflexão que parte do passado colonial e as relações diaspóricas com a água, elemento fundamental à vida, e com múltiplas funções – banhar, lavar, limpar, beber, cozer, purificar, mandingar, benzer. Onde a presença da água é discutida como um elemento cultural de resgate, consciência e purificação.

A mostra reúne fotografias, pinturas, instalação, objetos, vídeos e tem a curadoria assinada por Shannon Botelho. A exposição propõe um tempo de reflexão continuado, promovendo simbolicamente a limpeza das mentes e corações, dos conceitos e das construções simbólicas. A curadoria reuniu quatro trabalhos de cada artista.

Nos quatro trabalhos de Pedro Carneiro, o destaque é a videoinstalação, que ocupa com sal grosso um lugar central na exposição, em que a água é tratada como restauradora da vida, e não apenas como fonte de energia. Um “corpo-entre” o passado e o futuro. Estará também em exibição a pintura de Pedro Carneiro, realizada sob direção do multiartista DJ Mam, em parceria com os artistas Tarciov, Batmam Zavareze e o tcheco Jan Kálab, feita para a capa do single “Oloxá, a Cura”, remix para a música de Luedji Luna e Ministereo Público Soundsystem. Os quatro trabalhos de André Vargas constroem no espaço do Memorial Getúlio Vargas um horizonte possível quando se está abaixo do nível do mar.

Pedro Carneiro, Caminhar no mundo (2022)

Integrando os meios expressivos contemporâneos, a exposição tem uma trilha sonora, com a playlist exclusivaÁgua Banta”, produzida por DJ Mam, disponível também no Spotify. Abaixo você lê um texto da curadoria e acompanha fotos da mostra:

água banta, por Shannon Botelho

Essencial para a manutenção da vida, em seus muitos aspectos e dimensões, a água é também elemento estruturante daquilo que nos define enquanto sociedade. No caso específico da cidade do Rio de Janeiro, a presença das águas marca profundamente a relação estabelecida com o lugar de morar. Deste recorte geográfico-social, emergem outras camadas constituídas a partir da estruturação histórica e cultural da própria cidade: quanto mais perto do mar, melhores as condições de se viver, quanto mais longe dele e mais perto dos rios – daqueles que não foram escondidos –mais deficitárias são as estruturas.

A fim de repensar essas amálgamas, Água Banta traz uma confrontação, através da presença de dois artistas que refletem sobre o passado colonial e processo diaspórico, para o centro do salão expositivo do Memorial Municipal Getúlio Vargas. A água, enquanto elemento natural destina-se a muitas funções: banhar, lavar, limpar, beber, cozer, purificar, mandingar, benzer. Por esta razão, ela se apresenta aqui como um elemento transversalizante da vida. Pois, se o corpo humano é composto anatomicamente por água, constituímos fisicamente a história liquefeita, a dor da travessia, o sal e o suor do passado.

De certo modo, poderíamos dizer que a água que nos benze e alimenta nos trouxe até aqui, constituindo e significando as nossas existências tão plurais. É curioso pensar, que a exposição acontece fisicamente abaixo de um grande espelho d’água, desativado, dentre outros motivos, a pedido dos moradores do bairro para que a população em situação de rua não faça uso dele para sua higiene pessoal. Um corte muito preciso é estabelecido de imediato: a relação da cidade com o direito à água e sua utilização.

No mês em que, no Brasil, é relembrada a abolição da escravatura, André Vargas e Pedro Carneiro propõem uma reflexão que parte do passado colonial e as relações diaspóricas com estas águas. Calunga Grande, o mar compõe seus muitos mistérios e paradoxos. Pode ser entendido como um lugar de dor e aprisionamento, mas também como um espaço de libertação, constituindo-se como um “corpo-entre”. Divisa entre o ponto de partida e de chegada, concomitantemente, espaço fluido e estado de suspensão.

A partir deste mar atlântico, Pedro Carneiro reúne os signos de sua pesquisa e os apresenta em fotos, pintura e em uma instalação, onde somos desafiados a olhar para o futuro que se agiganta, tendo em conta o peso do passado. No trajeto da instalação encontra-se uma carranca, elemento de proteção, que nos serve de bússola para minar novos horizontes ao atravessar um mar de sal, enquanto ele opera em nós uma limpeza.

Assim como o mar, a água doce,trazida por André Vargas, também põe em questão a ablução operada energética e fisicamente pelo elemento. Em dois trabalhos que discutem o passado colonial e trazem à baila mais uma vez nossa relação com as águas. Contudo, aqui as palavras operam um corte mais incisivo sobre o passado e fazem alusão ao elemento natural. Sem trazê-lo fisicamente, mas convocando a sua presença, as obras margeiam a memória e nos conduzem ao epicentro de uma questão latente no tempo presente: o grande futuro não tem passado (?).

Shannon Botelho

A fim de integrar os meios expressivos contemporâneos, a playlist produzida exclusivamente para a exposição convoca a presença das águas. “Oxolá, a Cura”, concebida pelo multiartista DJ MAM em parceria com Luedji Luna, oferece para os visitantes uma possibilidade de se sentirem imersos nas águas. Como um apelo por paz, unindo Rio e Salvador – cidades fortemente marcadas pelos processos diaspóricos – a música proclama um ato simbólico pela paz. As demais faixas que compõem a lista reafirmam este desejo, aprofundam as sensações e percepções no contato com as obras de Pedro Carneiro e André Vargas.

O mar que banha e a água que lava vazam em um lugar comum, no “começo do caminhar para a beira de outro lugar”, como escreveu Gilberto Gil. Este outro lugar é o que desejamos aqui ensejar. Assim como a matriz Bantu desaguou no Rio de Janeiro, predominando fortemente sobre nossa identidade cultural, esperamos propiciar um tempo de reflexão continuado sobre todas as questões levantadas, promovendo simbolicamente a limpeza das mentes e corações, dos conceitos e das construções simbólicas. Água benta deságua banta.