A partir da história da Guatemala pondero sobre o gradual esvaziamento do pensamento e a dissolução do espaço político, pois carrego o peso de ter vivido anos em pleno conflito armado com a violência e medo como companhias constantes. A guerra civil [1] entre 1960 a 1996 promoveu este voo e serviu como pano de fundo para ponderar a história, a arte e a política hoje, aquela que se faz no espaço entre as pessoas.

No intuito de atravessar questões éticas universais de injustiças e abusos gerados por relações de poder na sociedade, localizarei a formação daquele país, seguirei com o pensamento político ancorado em Hannah Arendt e Kant: a faculdade para distinguir o que é certo do que é errado conectada à capacidade de pensar.

E, se o pensar é uma chave de entrada para evitar o mal e agir, quero crer que a arte é uma possibilidade de transformar o desconforto e provocar uma agudeza que está em falta no mundo: a aproximação com a experiência do outro, que somos nós mesmos sob outras circunstâncias. Para essa reflexão, trago registros de ações da artista contemporânea guatemalteca Regina José Galindo.

da conquista à ditadura e guerra civil contemporâneas

Na pré-história, a Guatemala foi o berço da civilização pré-colombiana maia, onde se ergueram grandes cidades com fortes conexões políticas e econômicas. A partir de 1517, os espanhóis encetaram a exploração da América Central quando Hernán Cortés ambicionando terras, ouro e prata, iniciou a conquista com domínios jurídicos e militares vitalícios, poderes para construir cidades e evangelizar indígenas. Destruiu culturas e promoveu nas colônias a dizimação de populações inteiras, deixando estruturas pífias que sobreviveram num contexto contraditório, afetando seus níveis demográfico, econômico, social e ideológico.

Após três séculos de massacre, extrativismo e lutas por independência fracassadas, surge um sentimento “nacional” na região influenciado pelas missões científicas europeias, que ajudaram os locais a perceber a enorme riqueza da terra. A elite criolla [2], controladora de importantes setores da economia, dividiu-se em grupos contra ou a favor do sistema monopolista e fragmentou-se em alianças rivais com exércitos próprios. Sua organização do processo político e militar contou com o apoio da Inglaterra e do povo, que reivindicava melhores condições de trabalho, e que culminou com a proclamação da independência dos estados confederados em 1821. Mais tarde, o general autocrático Rafael Carrera, à frente de um exército popular, assumiu o poder, proclamou a Independência Nacional em 1847 e restabeleceu os privilégios da  Igreja.

Em  1871 Miguel García Granados derrubou o governo e iniciou um período liberal, seguido do positivista Justo Rufino Barrios que modernizou o país através da política anticlerical e de desenvolvimento econômico com investimento em grandes propriedades cafeicultoras, motivando uma política social de trabalho servil, muito nociva aos indígenas.

Seguiram-se governos autoritários e instabilidade política, nos quais os EUA  exerceram forte influência, principalmente nas presidências de  Manuel José Cabrera (18981920) e Jorge Ubico (19311944), um caudilho militar que fuzilou centenas de líderes sindicais, estudantis e opositores do regime, implantou uma prática repressiva contra os indígenas e institucionalizou a violência dos latifundiários contra camponeses sem-terra [4]. Aliou-se ao capital estrangeiro e foi conivente com que empresas norte-americanas instaladas no país tivessem o controle de importantes setores do desenvolvimento econômico: energia elétrica, transporte ferroviário e agronomia. A maior latifundiária United Fruit Company (UFC), usava mão de obra escrava dos campesinos, mantinha a produção voltada para o mercado externo e pouco contribuía para os cofres públicos por dispor de privilégios fiscais.

O movimento estudantil tomou corpo, e, oficiais insatisfeitos apoiados pelo povo conspiraram contra o poder, anunciando o triunfo da revolução guatemalteca. Promoveu-se a eleição presidencial direta do filósofo Juan José Arévalo Bermejo que promoveu reformas do código trabalhista, criou o Instituto Guatemalteco de Seguridad Social, implementou novas escolas e consolidou a democracia no país.

Em 1951, apoiado por operários e campesinos, o revolucionário Jacobo Arbenz Guzmán chegou à presidência sem o apoio financeiro do exterior, construiu a rodovia e o porto para o Atlântico, uma usina hidrelétrica e implementou a reforma agrária apenas afetou terras improdutivas e cujas desapropriações de terras foram devidamente indenizadas. Entretanto, a oligarquia latifundiária, a Igreja, grande parte da imprensa e as empresas estrangeiras não aceitaram as medidas. Iniciou-se uma campanha internacional de difamação do regime do governo, acusado de transformar o país em praia do comunismo internacional, e, os EUA valendo-se da CIA [5], de seu Departamento de Estado e embaixada na Guatemala, derrubaram o presidente [6]. Allan Dulles, então diretor da CIA e Henry Cabot Lodge, embaixador norte-americano no Conselho de Segurança da ONU [7] eram acionistas da UFC.

Em 1954, Castillo Armas tomou o poder, acabou com o direito de livre associação política, limitou as organizações sindicais, anulou o Código de Trabalho, destruiu a educação laica, queimou livros, torturou e matou em larga escala. Nesse então, o Partido Guatemalteco del TrabajoPGT, resistente à nova ditadura, obteve ao apoio dos campesinos, operários e estudantes, e, as repressões apoiadas pelos EUA passaram a ser cada vez mais violentas.

Em 1960, o então presidente Ydígoras Fuentes, cedeu o território guatemalteco para a CIA treinar as forças de exilados cubanos que iriam participar da invasão da Playa Girón em Cuba. Insatisfeitos com a corrupção, um grupo de oficiais do exército tentou tomar o poder com um golpe de Estado, o Movimiento Revolucionario 13 de Noviembre – MR13, mas o levante fracassou. Muitos oficiais exilaram-se e se juntaram ao PGT formando a primeira organização guerrilheira da Guatemala: as Fuerzas Armadas Rebeldes – FAR, inaugurando assim o período da guerra civil contemporânea.

A partir do fracasso da tentativa de golpe de Estado do movimento revolucionário MR-13 em 1960, começou um dos conflitos mais sangrentos do período da Guerra Fria [8] na América Latina: a guerra civil na Guatemala que durou décadas de enfrentamento armado. Até o fim do combate em dezembro de 1996 com a assinatura do Acuerdos de Paz Firme y Duradera, sucederam-se 12 presidentes, entre os quais Efraín Ríos Montt, acusado de genocídio. Houve mais de 600 massacres documentados, 200 mil assassinatos, 45 mil pessoas desaparecidas, 400 aldeias destruídas e 1 milhão de refugiados. Os anos entre 1978 e 1985 foram os mais violentos dessa guerra civil, com indígenas massacrados em suas comunidades e as Forças Armadas adotando a estratégia de terra arrasada, estuprando, torturando e deslocando grupos nas zonas rurais montanhosas [9].

Dos 42 mil casos de morte e desaparecimentos documentados, apurou-se que mais da metade foram resultantes de execuções arbitrárias, frequentemente com traços de crueldade. Com a publicação do relatório final, o termo “genocídio” foi utilizado para denominar a brutalidade cometida principalmente contra a população de origem maia.

Hoje, os líderes e organizações mundiais reconhecem o valor do trabalho de prevenção ao genocídio e às atrocidades, incluindo países que experimentaram brutalidades no passado. Entretanto, ainda há muita coisa a ser debatida, e até que este campo consolide seus avanços e se expanda, é necessário fortalecer a nossa capacidade de autorreflexão e crítica.

da irreflexão ao pensamento

No livro A Vida do Espírito [10], Hannah Arendt cogita as atividades do pensamento que germinaram no julgamento de Eichmann em Jerusalém – um agente alemão comum que transportou judeus para serem executados na câmara de gás no Holocausto. Segundo a autora, a sua superficialidade era tal, que era impossível retratar o mal de seus atos em suas raízes, já que nele não havia motivações más, nem convicções ideológicas, mas sim, uma total irreflexão, o que despertou seu interesse e a levou a questionar se a prática do mal não estaria conectada ao vazio do pensamento.

Apoiada em Kant, ela tem no ato do pensar uma expressão da necessidade do espírito humano de ir para além da possibilidade do limite do conhecimento [11], onde através de experiências ordinárias, busca de razão e significado, o homem é instigado a perguntar.

O ponto de partida é o senso comum, um sexto sentido no qual o homem reúne as sensações heterogêneas que vêm dos diferentes órgãos sensoriais, necessário à coesão dos demais e que torna possível o compartilhamento do mundo. Pensar é confiar na imediaticidade da experiência sensível da aparência, da realidade ou do espaço político, garantida pela presença do outro.

A faculdade do pensamento é um exercício da razão prática, necessidade natural da vida humana presente em todos, assim como, a inabilidade de pensar é uma possibilidade igualmente presente. A consciência moral supostamente presente em nós, é quem diz o que fazer e do que se arrepender, assim como o imperativo categórico de Kant em que se age segundo a máxima de querer que ele se torne uma lei universal.

O vazio de pensamento encontra-se salpicado na obra de Arendt nos pontos de sua reflexão sobre o mal como um negativo, um não ser. O pensar é uma prerrogativa de qualquer um, e, como não existe a possibilidade de um não pensar absoluto, o não pensar seria uma experiência artificial forjada pelas contingências, daí o questionamento das contingências em que se pode atribuir o vazio do pensamento. Os regimes totalitários seriam aniquiladores da esfera política, a massa é atomizada e amorfa, o homem é isolado e termina com ausência de relações sociais normais, sem interesses pessoais ou poder. O senso comum que está relacionado com a realidade do mundo, com a capacidade de o indivíduo dominar, julgar e modificar, é destruído.

A propaganda do totalitarismo também explora o desejo de alienação das massas desorientadas, visto que, se no mundo tudo é possível, nada faz sentido. Elimina a capacidade de discernimento entre falso e verdadeiro, realidade e ficção, abole o sentir e o perceber em comum que dá acesso objetivo ao real e ao pensar por si próprio. A ausência de pensamento blinda o indivíduo do perigo da investigação e induz à submissão, e, além disso, o fluxo contínuo, impossibilita o parar para pensar. Daí advém a deterioração humana, o conformismo de autômatos sem memória, identidade ou responsabilidade, dissolvem-se os parâmetros de certo e errado, justo e injusto. Produz-se a indiferença ao mal, o falso vazio de pensamento que é preenchido com sua ideologia.

O pensamento é condição básica para a reflexão do significado das coisas, mas, por não criar valores, é insuficiente para fazer distinguir o que é bom do que é mau. Somente aliado ao juízo ele pode ter autonomia e oposição ao conformismo, por isso, nas emergências políticas, os que pensam comumente se destacam. A recusa em aderir já é em si, um tipo de ação que possibilita o germe de um pensamento político, que traz à tona opiniões e destrói convicções.

Para Hannah, é pelo julgamento, a mais política das capacidades espirituais humanas, que resgatamos o senso comum, pois considera o ponto de vista do outro e trafega por um espaço potencialmente público prático ou ético. É na espontaneidade e liberdade de ação que o querer num contexto político faz a revolução.

O que tratamos aqui não é limitado à experiência contemporânea do mal banal de Arendt, visto que já é apontado no cerne do mal radical de Kant, cuja referência é a destruição da dignidade humana através da transformação do homem em supérfluo. Em ambos, o mal se dá quando o homem deixa de ser um fim em si mesmo, quando sua existência passa a ter um valor utilitário relativo às necessidades definidas pelas contingências históricas e políticas. Nessa relativização de valor, a vida deixa de ser essencial para ser banal. Quando se destrói a humanidade do homem, a ação humana se degenera, perde espontaneidade e a capacidade de recomeçar é interditada na sua própria fonte: a liberdade.

Kant e Arendt têm a liberdade e igualdade como pontos comuns para pensar o mal no homem, porém enquanto para o primeiro o ser humano é igual com respeito ao acesso à lei moral, para Arendt, o ser humano deve compensar suas desigualdades inatas através da isonomia artificial da cidadania política, segundo ela, uma perspectiva da dignidade humana.

Hannah pondera que no totalitarismo o homem moderno pode ser pastoreado e se tornar um burocrata vazio de pensamento, onde a atomização e desenraizamento assaltam sua dignidade, mas, permanece a questão: como propiciar uma ação coletiva que enfrente essa perspectiva e recupere o sentido de eficácia e autorrespeito?

Para a autora, o mal é um problema do vazio do pensamento, falta não proveniente de nenhum princípio positivo, diferente do bem que tem profundeza e pode ser radical. Já em Kant, o mal pode nascer de uma ação de confronto com o bem, colocando-se como positivo enquanto se opõe àquilo que lhe faz face. Ainda assim, o princípio positivo do qual o mal é portador não recebe estatuto originário, não define uma qualidade de caráter do homem, pois, se assim fosse, o mal seria elevado à categoria de verdadeiro princípio e seria diabólico. Ambos recusam o estatuto ontológico do mal como princípio original da natureza sensível do homem, mas sim como uma contingência inscrita em sua liberdade.

Considerar que o mal é só negatividade parece frágil, porque se o homem é ser da incompletude, o mal como falta estaria justificado em sua essência, seria um destino diante da nossa noção trágica e teríamos que aceitar o que Hannah tanto repudiou no fundo de cada um de nós. A restrição do mal justificaria a violência inscrita na natureza do homem e teríamos dificuldades em localizar a questão da responsabilidade. Preferimos a abordagem do mal como uma positividade, um ato de liberdade humana e instrumento para se pensar o problema na ética e na política no mundo.

da arte ao pensamento e ação

Pensar é um ato dialético na medida em que ele não pensa alguma coisa, mas sobre alguma coisa, e que, tem por objetivo uma comunicação consigo mesmo. É um diálogo antecipado com o outro, cujo critério não é a verdade, mas a consistência interna e o cuidado para que os parceiros estejam em bons termos para gerar ações no mundo. São as metáforas e analogias que criam uma ponte entre o invisível e o mundo das aparências, tornando as pessoas capazes de transitar em assuntos não sensíveis, onde o pensamento abstrato pode se manifestar.

Vários artistas queremos realçar a dimensão do vazio do nosso tempo com a dissolução do espaço político, diminuição do senso comum e o esvaziamento do pensamento. Desejamos que algumas de nossas manifestações sejam sopros para indagar sobre o mal em contraposição à liberdade, e se o pensar e o julgar são antídotos contra o mal, a indagação ética e política certamente nos acompanhará até o nosso último suspiro, mesmo que conscientes de que essas questões têm contornos inesgotáveis.

Desejamos promover inconclusões através de trocas imateriais como mecanismo de partilha de experiências individuais de afeto, porque ainda que pressintamos que a arte é uma incessante e fracassada tentativa de colocar certas coisas no lugar das coisas incertas, move-nos o que instiga o pensamento, pois e é ele, a nosso ver, que pode promover em nós, novos nexos e novas ações.

Em 2019, Regina Galindo salta dos espaços culturais apartados que protegem os passivos visitantes e se engaja em uma campanha de comunicação dirigida à população dos EUA, indo às ruas para afixar cartazes com os mesmos códigos visuais de crianças desaparecidas naquele país. Missing Forever [12] são colocados em diferentes áreas de cidades importantes, graças ao apoio de dezenas de voluntários. Ali, ela mostra as crianças e expõe os negócios lucrativos por trás da cruel decisão de separação de famílias na linha divisória entre o México e os EUA. Os meninos e as meninas morreram em abrigos de imigrantes – propriedades do governo –, subsidiados com impostos de cidadãos que pagaram setecentos e cinquenta dólares por cada criança presa.

A arte não tem uma função, mas tem uma forma de operar. Ao recorrer ao absoluto realismo, Galindo não deseja trazer novidades nem leituras simbólicas contemporâneas, mas mobilizar a sociedade pela dramática apresentação da realidade.

Fruto de uma política impiedosa de governo e de cidadãos que a apoiam e financiam, os cartazes não devolvem a violência social, econômica e política sofrida por guatemaltecos, mas maculam paisagem dos jardins e quintais daquela mesma sociedade. Não é se valer de símbolos, mas de uma narrativa crua de rostos, que querem trazer à reflexão a dor muda que nunca muda.

Ocupar o espaço e o tempo altera a relação entre os sujeitos e os cartazes-denúncia, altera o entre do público e do privado, do que compete ou não a uma comunidade política. A sutileza não cabe mais, e talvez panfletar identidades seja a única construção artística possível.

Missing Forever,  Regina José Galindo, Papel, diversas cidades dos EUA, 2019.

Quando o tempo realista e abso(luto) urge, a arte atemporal que atravessa as épocas se fragiliza e perde sentido. A apresentação das contradições entre a percepção e a manifestação fiel da realidade não nega a arte, pelo contrário, como afirma Jacques Rancière “a política e a arte, tanto quanto os saberes, constroem “ficções”, isto é, rearranjos materiais dos signos e das imagens, das relações entre o que se vê e o que se diz, entre o que se faz e o que se pode fazer”. Uma ficção não consiste em contar histórias imaginárias. É a construção de uma nova relação entre a aparência e a realidade, o visível e o seu significado, o singular e o comum.

Galindo busca criar um elo entre o dentro e o fora ao ligar a linguagem artística ao espaço social, já que através da partilha propõe a relação política do mundo com uma utopia possível, com atravessamentos que podem encontrar a porta de saída. Sua arte não é política pelas mensagens que transmite nem pelo modo como apresenta as estruturas, mas pela maneira como ela configura o espaço em um determinado momento. Ao confrontar sujeitos com panfletos, a arte não se separa da vida pública do coletivo nem da vida individual concreta, mas redefine a experiência, altera as relações sensíveis e propõe novos regimes de significação. 

Procuramos diferentes subjetividades que passam por experiências que somos incapazes de processar de forma direta. Passamos a anotar os sulcos no rosto e alma das pessoas lenta e gradualmente, a correr atrás de narrativas dentro e fora de nós, buscando viver um pouco a vida dos outros, que não deixa de ser a nossa vida também. Sem regras, talvez algumas dessas histórias reveladoras sobrevivam para dar forma a sintomas do que pode vir a ser um compartilhamento do peso carregado por outras pessoas, outros tempos e outras histórias. A arte pode promover através de suas opacidades um fluxo contínuo onde havia um ponto. 

Para além do juízo moral binário de bem e mal, importa-nos buscar uma valoração da vida em que prevalece a afirmação da potência criativa em detrimento a um psiquismo que não dá vazão às forças vitais. É nesta vida que podemos redimir a existência. Ser quem somos no lugar em que estamos e não dissolvermos a existência em sua forma mais potente. Ser responsáveis pelo agir e pelo próprio declínio ou enriquecimento vital.

O pensar conduz para o mundo das ideias, gera significados sem respostas seguras e torna as pessoas cientes de realidades diferentes. Como o vento, possui movimento circular, sem começo nem fim, induz a uma paralisia momentânea nas aparências, pode dissolver certezas, desestabilizar critérios estabelecidos, valores e medidas.

Tomar as rédeas da responsabilidade de sentir com o cérebro e pensar com o coração é para além da produção de arte. É uma postura de vida. É a possibilidade de um novo começo.


Julie Brasil nasceu na Guatemala, em 1965. Atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro. É Doutora em Imagem e Cultura, Mestre em Artes Visuais pela linha de Linguagens Visuais, Bacharel em Pintura, todos pela UFRJ. Participou em exposições individuais e coletivas na Bienal da Caixa, Instituto Cervantes, Festival de Vídeos de Kassel, Espaço Vórtice, Curto-Circuito, Centro de Arte Hélio Oiticica, IBEU, SESC, Furnas, MUBE SP entre outros. Anteriormente atuou 21 anos na área de marketing em multinacionais como Gerente na Coca-Cola, Coordenadora para a América Latina na Gillette e Diretora na Mattel e Kodak.

Ilustração de capa de Omar Rosario (São José do Rio Preto, São Paulo, 1985). Artista visual, ilustrador e artista multimídia. Graduado pela Universidade Belas Artes de São Paulo em 2007, começou sua carreira artística como designer de moda onde se apaixonou por ilustração e pintura. Artista autodidata, dedicou-se integralmente às artes visuais em 2016 e desde então vem realizando trabalhos com pintura – onde experimenta suportes e técnicas – e  também trabalhos com fotografia e vídeo. O artista já participou de salões de artes visuais, mostras de arte e pequenas exposições. Em 2019 fundou a Editora Invisível, uma editora independente de livros ilustrados que aborda assuntos da contemporaneidade. Em sua produção são frequentes as referências políticas e sociais da atualidade.


[1] Segundo James D. Fearon, professor de Política e Ciência na Universidade de Stanford, “a guerra civil é um conflito violento entre grupos organizados dentro do mesmo estado-nação ou república que visam o controle do poder central em uma região, com objetivos separatistas ou de mudar as políticas do governo.
[2] Americanos descendentes de espanhóis.
[3] 
O termo ladino deriva da palavra latino e é usado na América Central para referir-se à população latinizada. No período colonial indicava a população de fala hispânica que não era elite nem indígena.
[4] 
In João Ricardo Wanderley Dornelles apud A violência institucionalizada em HÜBNER, Elton. O país do medo.
[5] 
Agência de Inteligência Central dos EUA.
[6] 
No Chile em 1973, os EUA e os latifundiários e comunidade de negócios local, promoveram um golpe de Estado similar que acabou com o governo eleito marxista de Salvador Allende em 1970, inaugurando o regime militar de Pinochet que durou até 1989.
[7] 
Organização das Nações Unidas.
[8] A Guerra Fria foi o enfrentamento político econômico, social e militar entre os blocos ocidental capitalista liderado pelos EUA, e o oriental comunista, liderado pela União Soviética, no período pós II Guerra Mundial e que se estendeu até a dissolução das repúblicas socialistas soviéticas.
[9] 
JONAS, Suzanne. Guatemala: Acts of Genocide and Scorched-Earth Counterinsurgency War In: TOTTEN, Samuel e PARSONS, William S. Centuries of Genocide, Essays and Eyewitnees Accounts.
[10] 
O texto é composto por palestras e conferências proferidas entre 1973 e 1974, apresenta o Querer interrompido em função de seu falecimento em 1975, não constituindo um trabalho acabado, mas não por isso menos importante para tatear o que seria o livro final A Vida do Espírito.
[11] 
Ela se apoia em Kant que diferencia o pensar do conhecer, a razão (premência de pensar e entender) do intelecto (almeja o conhecimento certo e verificável).
[12] 
Desaparecido para sempre.

 


Referência Bibliográficas
ARENDT, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
_____. Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
ÜBNER, Elton. O país do medo. A Guatemala de injustiça, violência e impunidade. Maringá, 2003.
JONAS, Suzanne. Guatemala: Acts of Genocide and Scorched-Earth Counterinsurgency War. In: TOTTEN, Samuel e PARSONS, William S. (Ed.). Centuries of Genocide, Essays and Eyewitnees Accounts. New York: Routledge, 2009.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.
SOUKI, Nádia. Hannah Arendt e a Banalidade do Mal. Belo Horizonte: Editorar UFMG, 1998.
Civil war definition transcends politics – Standford University
Informe Guatemala: Memoria del Silencio – Comisión para el Esclarecimento Histórico (CEH)