Em frente à casa de Dona Isabel crescia uma profusão de roseiras desencontradas, as flores, umas murchas e outras vistosas, se distinguiam em cores vivas entre os caules espinhosos. Dona Isabel aparentava muita idade, não tanto pelas rugas e pela curvatura do corpo – em tudo transmitia uma superfície aplainada, uma formação rochosa antiga e discreta –, mas sim por conta de seus gestos lentos, o olhar demorado, a expressão de quem viu muitas vidas ceifadas. Recebeu Hermes, o avaliador da casa de leilões, usando um conjunto verde musgo; da suas orelhas carnudas pendiam dois brincos igualmente verdes, cópias perfeitas de esmeraldas. Ele, um homem altivo e elegante, o bigode preto cerrado sob o nariz a contrastar com a pele de um marrom dourado. Hermes poderia ter abdicado das muitas maneiras que aprendeu naquela profissão, a lidar com madames presunçosas e senhores falastrões, por reconhecer em Dona Isabel a fuça de uma tia-avó sua, sentada o dia inteiro sob a sombra de uma árvore fincada no solo árido de uma cidade do interior a espanar os mosquitos com o que houvesse na mão. Mas o porte de Dona Isabel o intrigou, tampouco foi recebido como um familiar – embora o doce de abóbora recendesse a cravo e calor da cozinha, não lhe foi oferecido mais do que café preto. Afinal, aquela senhora distinta, vivendo numa pequena casa sem luxos, guardava relíquias veladas e só agora decidia livrar-se delas: um fardo envolto na sacralidade de uma promessa calada. 

Nos fundos da casa, entraram num pequeno quarto com a lâmpada queimada. A luz nublada, refratada pelo vidro grosso de uma janela alta, imputava ao cenário um aspecto teatral. Ali, iria se desenrolar uma árdua descoberta, como se o pó, o escuro e os entulhos fossem os palmos de terra de uma ilha perdida a soterrar um tesouro pirata, roubado apenas porque assim deveria ser – ou porque toda riqueza é, de alguma forma, surrupiada. Os homens e seus tesouros são meras ferramentas da misteriosa roda do destino, pensava Hermes, enquanto a senhora puxava o baú e assoprava o pó branco, a espiralar no ar abafado. Dona Isabel girou uma chave dourada na fechadura, mas o baú não abriu; impaciente, ela desferiu dois tapas nas laterais, girou de novo a chave, à esquerda e à direita, a fim de acertar o ponto da tranca enferrujada. Hermes esfregava as mãos ansioso; com um ganido, o baú finalmente abriu. Um tecido escuro e grosso embalava os artefatos e, com uma parcimônia entediada, a senhora o afastou quase sem o tocar. Reluziram as relíquias, brancas e agressivas, dentro das sombras a qual permaneceram tanto tempo mergulhadas, o marfim a fulgurar albugíneo, pesado e opaco, como o sorriso derradeiro e desdenhoso de uma múmia egípcia. Sem se demorar muito ali, como se as peças carregassem uma maldição ou fossem capazes de contaminá-la com sua brancura afiada, a senhora levantou-se qual a guardiã de um calabouço onde foi preso um inocente e que, ao destrancá-lo, sai de cena rapidamente. Hermes já se ajoelhara diante do baú, munido de suas luvas, uma lupa e uma pinça. Dessa vez achou prudente também ligar a lanterna do celular. 

Os artefatos de marfim foram cuidadosamente retirados um a um: uma caneca, uma colher, um saleiro – todos ricamente entalhados –, uma pequena escultura  e, por fim, a trombeta. Foi a trombeta que mais lhe chamou a atenção: com quase um metro de comprimento, conservou-se praticamente intacta, enquanto os outros apresentavam lascas e colorações fúngicas. O marfim lavrado fora finamente esculpido – os sulcos anelares ostentavam talhes de espinhas, círculos concêntricos, meia-luas e cruzes celtas. Afunilava-se com leveza e graciosidade, onde o desenho de uma azagaia ferina apontava para um orifício ovalado: o bocal. Seu primeiro impulso foi levá-la à boca, ouvir o doce som de um mundo antigo, pilhado e desaparecido. Dona Isabel, ao perceber o fascínio do homem pelo instrumento, falou: Kipungi. Seus olhos se encontraram. Kipungi. O som da palavra soava como se soprado do instrumento. Hermes pensou em leiloá-la como um olifante, remontando à Idade Média europeia. Kipungi, por outro lado, remetia a uma antiga e mítica África de reinos suntuosos. De repente, pareceu-lhe despudorado que aquele objeto fosse parar na coleção pessoal de uma Senhora Gertrude, ao lado de um quadro renascentista e uma tapeçaria persa, quando se encontrava tão acomodado num baú feito especialmente para o marfim africano, trancafiado num quarto secreto de uma Dona Isabel da qual ninguém suspeitava – nem ela mesma, quanto ao valor de tais relíquias. Kipungi. Se Hermes soubesse algo de sua linhagem, poderia ele mesmo ser o herdeiro daquela Kipungi de marfim, mas logo seus olhos e sonhos se apagaram como um relâmpago solitário no céu carregado de neblina desaparece num átimo – a impressão se deu por conta da luz branca do marfim, mas, afinal, se tivesse posse de um daqueles objetos, teria o vendido para alguma Beatriz ou Magdalena ou Gertrude para criar sua filha, nascida de um descuido e, nem por isso, dispensável de cuidados custosos. Mas foi essa vulnerabilidade que o homem expôs no seu semblante – uma certa luz comovente nos olhos –, que Dona Isabel convidou-o a ouvir a história da trombeta. Sentaram-se nas cadeiras estampadas de delicadas rosas intrincadas, o contrato sob as mãos talhadas de veredas de rio seco de Dona Isabel. Tinha uma voz firme e pausada de quem sabe conduzir histórias com a maestria de uma atriz, embora a rouquidão indicasse que, nos últimos anos, não tinha encontrado uma plateia digna de sua excelência.

“A Kipungi veio há muito tempo atrás, no século dezessete, quando a duquesa Catarina de Portugal agitava lencinhos e chorava com a chegada do Aurora ao porto do Tejo, não porque viesse no navio um parente querido ou um marido, mas sim, suas preciosas encomendas de marfim. A duquesa Catarina era afilhada da Rainha D. Catarina da Áustria, que ganhou a alcunha de Rainha Colecionadora – ela, que ‘se não fosse por seu sexo, poderia ter desafiado todos os heróis da História’, interessava-se sobremaneira pelas artes produzidas no Oriente. Então, a duquesa de Portugal, abençoada com o mesmo nome da madrinha, achou por bem continuar seu legado, mas, no seu tempo, ouvia sobre as promessas e espantos que sopravam do Atlântico. Mirou no idílio macabro da qual tanto falavam os portugueses – suas intermináveis florestas tropicais de umidade e calor excruciantes, seus reis de pele escura adornados em cobre, ouro e marfim, rodeados por haréns de mulheres nuas da cintura para cima, com braceletes e colares empilhados no torso –, a África. O novo-velho mundo se descortinava sedutor aos apetites aristocratas, já saciados de porcelanas chinesas; e os portugueses da corte, leitores ferrenhos de histórias de cavalaria, deslumbravam-se com suas próprias imagens de conquistadores, bravios e ternos, refletidas nos espelhos de seus palácios e no Tejo translúcido. Além do mais, garantiu-lhe o artista que se beneficiava de seu mecenato, o marfim africano era de qualidade superior ao asiático. O artista, que a duquesa apostava com furor – embora seu nome tenha se perdido na história –, prometia-lhe a mais bela escultura de marfim da Vênus e do Cupido – a Vênus representada como a Virgem e o Cupido como Cristo bebê –, obra que eternizaria a doçura da sua juventude. Catarina já tinha deixado a mocidade há um bom tempo e seu filho era um rapagão, a pender moralmente mais ao Cupido do que ao Cristo, mas isso não a impedia de exibir, na entrada de sua casa, um retrato de enormes dimensões em que a jovem mãe posava ao lado do pequeno filho, segurando-o pelos dedos, os lábios rosados num sorriso ingênuo de um matrimônio que não deu tempo de azedar. Ao mostrar a pintura para os visitantes, sempre comentava, soturna e com um quê de ironia, que o marido não tinha visto a obra terminada. Mas Catarina soube aproveitar o que a viuvez antecipada proporcionava: a liberdade de se voltar à devoção religiosa e ao estudo das artes. ‘Serei o que nem a Rainha Colecionadora, envolvida em disputas políticas e militares, pôde inteiramente ser.’ A duquesa, então, tinha ido em pessoa até o porto, muito ansiosa pelo seu marfim, tendo inclusive afiançado uma parte da viagem àquelas águas escuras e perigosas. Logo atrás, abanando-a, vinha sua criada, escravizada aos doze anos e também vinda de África, na qual Catarina investia, com toda a devoção, na sua catequese. Se pudesse fazer com que a pequena alma daquela menina se voltasse verdadeiramente a Deus, pagaria sua dívida com os bárbaros – eles que, sem temor a Deus, caçavam os absurdos elefantes e talhavam suas incólumes presas há milhares de anos. Catarina confiava na criada como se ela fosse da sua estirpe, e também desconfiava o bastante para nunca deixá-la sozinha com seus pensamentos, e a colocou para vigiar o transporte do baú até a casa, junto do comerciante que trazia o marfim.

Benjamin Van Dijk, atarracado, muito vermelho e quase ruivo, entrou na sala de estar com um suspiro enervado e olhos inquietos, enquanto gritava com os carregadores que balançavam sob o pesado baú, retangular e escuro como um caixão. Filho de uma portuguesa com um holandês, ele não possuía espírito desbravador – pelo contrário, tinha caído nessa ocupação por uma desgraça, a miséria no encalço de seus pés, e um amigo lhe contou da missão bem-paga da duquesa, que garantiria, até, assistir alguma ópera sentado. Mas se Deus prestasse alguma atenção às suas criações, veria que Benjamin nasceu para ser um nobre e excelente cavaleiro, desde que ele e o cavalo não se afastassem muito dos bailes, dos palácios, dos fogos de artifício, das pombas alvejadas por tiros. O oposto de empreender uma viagem a um lugar distante, mutilado por águas barrentas, onde o terror espia entre as folhas de árvores gigantes e crocodilos assassinos se fingem de pedra. Toda noite, para espantar os males da terra ardente e os pesadelos marítimos, sonhava com o impossível: muralhas de pedra, camas sedosas, puro linho, lareiras ardentes, homens fumando cachimbos a declamar os versos dos gregos antigos. Aos montes, os rapazes desafortunados se candidatavam para embarcar nesses navios, tentados pela perdição do enriquecimento rápido, como se o oceano não passasse de uma plantação de trigo ondulante. O que aquietava o coração nervoso de Benjamin era ficar longe das senhoras – elas sempre o procuravam para realizar trabalhos hercúleos e pagavam ninharias, enquanto seus corpos apertados em espartilhos arquejavam ao vê-lo suar –, e embora os marinheiros não declamassem poesia clássica, cantavam, sob o luar vermelho, canções tão belas e tristes que não deviam nada à Homero.

A duquesa ainda não estava assim tão impressionada – teriam que diminuir o tamanho da Vênus e o Cupido, calculava, aflita, encarando os dentes, úmidos de sangue, chuva tropical e maresia –, quando Benjamin retirou a Kipungi do baú. O arco fez um rastro de luz no ar. Benjamin pôs a boca no orifício e assoprou, provocando um chamado tenebroso: o ar tremeu, vibraram as janelas, tintilaram os cristais. O som alcançou as estrelas apagadas do dia, que pularam de suas órbitas, surpresas. Catarina levou as mãos ao coração no mesmo instante, afogueada e espantada. Na criada, no entanto, o efeito foi desolador. A pequena perdeu a consciência de si e julgou que estava em perigo, correndo pela sala aos berros, e foi parar debaixo da mesa, encarando as pernas de madeira com selvageria. D. Catarina teve a certeza que dentro da trombeta se escondia um pequeno demônio negro e afiado que perfurou o coração ingênuo da sua jovem criada. Ralhou com o comerciante, mas sabia reconhecer um objeto imponente, afinal, o demônio não se demoraria ali ao ser banhado na água benta. O artista sussurrou, assombrado, que as mãos que haviam entalhado aquela trombeta, embora bárbaras, não se furtaram ao encontro com o divino, tamanha a precisão e beleza de seus detalhes – ‘nosso grande Deus está em todos os lugares, minha senhoria!’ –, e depois calou-se, pensativo. Benjamin, que achou ter posto tudo a perder após o piripaque da criada, olhou com gratidão para o artista, e este devolveu-lhe um olhar de cumplicidade bastante fervorosa. O meio-holandês corou do pescoço até a raiz dos cabelos quase ruivos, limpou a garganta e continuou a falar.‘Acreditem se quiserem, mas a história dessa peça lhe acrescenta um valor ainda mais especial: foi um presente da irmã do Rei do Congo, apaixonada por Pieter Van Den Broeck – sim, ele mesmo, o famoso comerciante que atenta contra os domínios portugueses nas terras do rio Zaire!’. O artista, entusiasmado, encheu o cálice dos presentes com mais vinho do Porto e perguntou se era verdade que Pieter tinha roubado um navio português carregado de marfim, ouro e cobre. Benjamin, contente pela atenção e um pouco bêbado, já se esquecia do sol tórrido e das sombras malignas que aquela terra imputou ao seu espírito. Contou que ele mesmo viu um marinheiro português ser arrebatado por uma presa de elefante e morrer – ‘e foi assim que consegui essa cousa’ completou, sorrindo vermelho. Os presentes da sala se petrificaram num honroso espanto, mas logo o silêncio foi atravessado pelo bater dos sinos lá de fora. A criada, ainda lívida pelo tormento, recebeu o Padre Miguel, conselheiro de D. Catarina, que fora chamado às pressas. A duquesa contou-lhe do acontecido, com os olhos marejados, o xale quase a escorregar do decote tamanha a excitação do seu coração de touro: o soar da trombeta, a loucura da criada e o homem morto pelo marfim. Precavido, o Padre tratou logo de envolver a Kipungi no manto branco, benzendo-a com a água benta duma garrafa que trazia a tiracolo. Mas, espargindo água benta sob orações imperativas, viu como seu manto parecia amarelado e gasto, quase sujo, próximo à alvura do marfim e ordenou à criada que o alvejasse – garantiria, assim, a purificação de qualquer sopro do demônio restante nos ouvidos da menina.

Atrapalhada pelo pânico enfrentado, a criada mergulhou o manto numa tina para tingimento e, com as mãos na boca para conter um soluço de pavor ou, talvez, uma gargalhada histérica, viu o tecido branco se enegrecer por completo. A tina, deixada ao léu no pátio, era uma experimentação do artista: misturava o corante vermelho do Pau-Brasil, importado da colônia, com doses do sofisticado Púrpuro Tírio, extraído das glândulas de moluscos do Mediterrâneo, a fim de alcançar um escuro violeta. O manto do padre tingiu-se  em rajadas escuras e claras, e restou à criada uniformiza-lo. Munida somente com a vaga lembrança do ofício de tecelagem de sua mãe e avó, como se a técnica também se transmitisse pelo sangue, ela tingiu o manto por inteiro em uma velocidade espantosa – ou, quem sabe, estaria mesmo possuída por um espírito ancestral. Enquanto isso, pastéis de nata e chá do Cantão eram servidos para os convidados e Benjamin, de alto e alegre, depois de se empanturrar, passou a ranzinza, rancoroso com o luxo fácil da corte portuguesa. D. Catarina, percebendo a falta de interesse no seu marfim, pediu a Benjamin que contasse a história da irmã do Rei do Congo e do holandês e deixassem para Deus o acerto de contas, o sangue derramado e os demônios estrangeiros.

A história inteira não sei contar,” retomou Dona Isabel depois de um gole d’água, fugindo dos olhos atordoados de Hermes, como se vissem um sonho a se desenrolar em plena vigília. “Não deve ser diferente de todas as histórias de amor, com exceção de que se trata de uma princesa do Reino do Manicongo apaixonada por um comerciante holandês. Mas não, como se espera, algo do gênero de Romeu e Julieta, pois provavelmente o Rei esperava e incentivava que uma de suas irmãs casasse com o holandês, facilitando o comércio à luz de seus próprios rituais; e este, por sua vez, deve ter rido do dote de marfim oferecido pela selvagem. Mas deixemos de lado um pouco as idiossincrasias e nos permitamos sonhar, pintando a princesa com a pele negra, brilhante e tenra, os lábios carnudos, os olhos amendoados, os seios fartos e nus, a preparar uma poção de amor com ervas aromáticas e servi-la na caneca de marfim que o holandês segurava com o mindinho estendido. E, enfeitiçado como Tristão, ao sorver a bebida, o aventureiro se entregou àquela paixão, numa fatídica noite, uma noite quente e enluarada, numa choupana sob uma gameleira branca onde piava, grave e incessantemente, uma coruja de olhos acesos. E a princesa pede, reverente, aos antepassados, que pusessem em seu ventre uma cria capaz de pacificar as guerras, e o holandês demanda, numa oração sibilida, que aquele amor lhe abrisse os caminhos obscuros das matas e dos rios e mostrasse onde se escondiam as minas salpicadas de ouro – assim como, quando traçou com seus dedos trilhas nos cumes da mulher, tenha encontrado, lá dentro, um rubi pulsante. Imagine os amantes abraçados, untados em suor e óleo de palma adocicado com marula e sândalo, falando cada qual em sua língua de amor e entrega, deitados sobre o couro do elefante – o mesmo que fora arrebatado por uma experiente azagaia, e da maior presa do animal, um reverenciado artesão tenha esculpido esta mesma Kipungi, a fim de despertar divindades e desembaraçar as ilusões provocadas por feitiços malignos. E, antes do sol surgir por detrás do esplêndido oceano que separara os amantes, a princesa toca de certo modo a Kipungi, assaltada por um pressentimento escuso, uma intuição afiada como uma lâmina a rasgar a fina pele de seu pescoço e, assim, desperta entidades e eguns protetores com a missão de levar desta terra todas as almas que amavam com segundas intenções – as que concediam para, mais tarde, trair e saquear. E morria o holandês, mais pálido que nunca, nos braços da princesa do Reino do Congo que, ainda assim, não deixou de chorar pelo vislumbre de um sonho, não fossem os segredos pútridos a carcomê-lo por dentro, feito vermes se alimentando de carne sagrada. Mas, pensemos, se a Kipungi está aqui nesta terra, vinda de Portugal, isso quer dizer que a história correu em múltiplas direções, mas, principalmente, ao contrário dessa que acabo de inventar.”

“E a criada?”, perguntou Hermes, pousando a xícara no pires com um pio melódico. Dona Isabel arranhou o primeiro riso, desconcertada. “Contei de tantos, inventei uma história de amor impossível e o senhor se interessa pelo mais trivial? Não se pode saber o que acontece às criadas de qualquer tempo, já sobre Catarina há páginas e páginas enfunadas nas enciclopédias. Sua curiosidade não foi atiçada pela escalada social, infame e trágica, de Benjamin? Ou, então, pelo Padre Miguel, que sonhava desde menino presenciar um milagre?” Por algum tempo, ela não proferiu um som sequer, sorvendo a goles miúdos o café. Para despistar a insistência silenciosa do visitante, pediu licença e foi cuidar do doce de abóbora. Aproveitando a deixa, Hermes se esgueirou novamente no quartinho e alcançou o tecido preto que velara o precioso marfim por tantos anos, esticando-o contra a luz da janela. O tempo abrira durante a conversa e um raio de sol se alongava para dentro do quarto, solícito aos seus desejos. O preto carcomia o que um dia fora roxo – na faixa que o raio de sol iluminou, sobressaiu o púrpura. Deixou-se levar por devaneios, debruçado sobre o tecido milagroso, até perceber que Dona Isabel o observava da porta silenciosamente, como se presenciasse uma cena obscena. “Leve isto também”. Feita de sombra crepuscular, Hermes não conseguia compreender o que se passava no seu semblante. Então, depois de uma gargalhada sonora, ela retomou o relato.

“Quando a criada, desesperada com a surra que a esperava, trouxe de volta o manto para o Padre, naquele fatídico século dezessete, ele arregalou os olhos e, com assombro, exclamou: Santo Deus! Um milagre diante dos meus olhos! Assaz, requereu ao bispado que fosse reconhecido como homem santo; mas Catarina de Portugal, quis também reivindicar o milagre como se realizado por suas mãos. A criada, ora, era sua, a casa onde tudo aconteceu, também sua, a trombeta de marfim, toda sua. E atrapalhou os planos do Padre, ele os dela, e o milagre não foi reconhecido. Deus dissolveu os demônios da trombeta trazida da terra condenada em meu próprio manto e o tingiu de Púrpura Tírio, a cor da túnica que os soldados romanos vestiram Jesus. E como profetizou Ezequiel, as águas do mar cobrirão Tiro, a cidade que tudo tinha e que foi destruída no meio do mar – ecoava a voz rouca do velho Padre, na Capela da Ordem Terceira do Carmo do Rio de Janeiro, para onde foi enviado após o rebuliço no bispado –, enquanto o mar gelado rugia lá fora. A duquesa, que visitava o Rio em busca de uma reconciliação com o Padre, levou a criada para a sua capela, e ali ela foi batizada com o nome da Rainha Santa, conhecida pelo milagre das rosas. Emocionada ao vê-la de branco, a coroa de rosas pendendo nos cabelos crespos, Catarina prometeu-lhe, tão logo partisse ao paraíso, aqueles objetos de marfim. E a criada, dizem, levou a promessa a sério e arrastou consigo o baú, por mais pesado que fosse, junto de sua alforria tardia.”

As relíquias jaziam seguras, novamente enclausuradas no porta-malas do carro de Hermes, inclusive o tecido púrpura. Quando ele saiu para o ar fresco do fim da tarde, atingiu-lhe em cheio a maresia e o cheiro silvestre das roseiras. Por um momento, os dois ficaram a observar o mar acobreado a se estender lá embaixo, como se fosse uma rocha impenetrável a se fundir com o céu. Dona Isabel pôs-se a cortar as rosas brancas e Hermes perguntou o que fazia. Depois de toda a euforia, Dona Isabel se poupava, macambúzia, sem nada responder. Ele não queria ainda deixar aquela senhora sem ter a certeza que era, mesmo, quem parecia ser e quais mistérios ainda soterrava em seu coração. Tentou falar-lhe uma vez mais, mas tudo esmorecia estranhamente e as palavras morriam antes de virar som: a noite engolia as luzes do dia, uma era inteira chegava ao fim. Algo de demência ou loucura assombrava o rosto sulcado e noturno da velha, como se a noite devolvesse o peso da idade que o sol apaziguara. “O que a senhora fará com todo esse dinheiro?”, perguntou, por fim, ciente de que seria sua última pergunta. “Vou para o mar” respondeu Dona Isabel enquanto erguia as rosas entre os olhos, e deixou cair os braços, a balbuciar uma frase incompreensível – …água… foi só o que entendeu –, como se sua língua tivesse se tornado, abruptamente, grossa. Mouca assim, a velha tinha a voz de um animal moribundo. O olho direito tomado pela catarata piscou lentamente. Até então, Hermes não tinha percebido aquele olho branco que a luz amarela do poste ressaltava de modo horripilante. O que teria acontecido se tocasse aquela Kipungi?, perguntou-se, mas sua perna direita formigava de cãibra, emperrada. Continuou fincado próximo ao portão, tomado por um afogamento repentino. Mirava, uma última vez, e até desaparecer por completo, a sombra da velha a descer a rua com dificuldade, sacolejando seus ossos como se não passasse de um esqueleto; um esqueleto opaco e brilhante como o marfim.


Mariana Vieira Gregorio publicou o livro de contos Noturna, pela Editora Patuá em 2021 – um antigo sonho lançado qual biribinha no ano II da pandemia. Também recebeu menção honrosa na categoria texto do Programa Nascente – o texto Excretos está disponível online. Formada em audiovisual pela ECA-USP, trabalha com pós-produção de som,  já roteirizou curtas e longas e deu oficinas de curta-metragem. Paulista, nasceu em Campinas e vive em São Paulo com dois gatos. Contos publicados em revistas e outros textos podem ser encontrados em www.marianavg.com.

Omar Rosario (São José do Rio Preto, São Paulo, 1985). Artista visual, ilustrador e artista multimídia. Graduado pela Universidade Belas Artes de São Paulo em 2007, começou sua carreira artística como designer de moda onde se apaixonou por ilustração e pintura. Artista autodidata, dedicou-se integralmente às artes visuais em 2016 e desde então vem realizando trabalhos com pintura – onde experimenta suportes e técnicas – e  também trabalhos com fotografia e vídeo. O artista já participou de salões de artes visuais, mostras de arte e pequenas exposições. Em 2019 fundou a Editora Invisível, uma editora independente de livros ilustrados que aborda assuntos da contemporaneidade. Em sua produção são frequentes as referências políticas e sociais da atualidade.