ribanceira

Precisava dizer antes que se tornasse inexorável a pressa da vida.
As coisas tem tido outro têxtil e já não escrevo mais entre linhos. O silêncio faz sua sombra de descanso e mofo sob minhas palavras, que já nem tanto me vem. Veja, sinto-me à beira da ribanceira, numa mesa, onde trabalho, como, rezo. Daqui, de onde fico estável entre minhas profissões pouco precisas, mas poeticamente assíduas, não queixo da vista, horizontal, vasta, montanhosa. Tampouco preciso que me notem ou me lembrem. Quero o que o peixe que vem dar sua graça em pesca me valha e ainda que o que cultivo possa dizer que amo quando ainda não é flor nem nada além da possibilidade improvável de se-la. De vez em um quando, levanto-me. A cadeira reserva um vazio, que já não estou no agora e nem mais me pertenço. É uma pressa que vem do dentro, um impulso desatento. Meus pés vão a beira, a beira de ribanceira e de lá vejo tudo que não posso ver. A casa que não sei, a viagem que não penso. Os filhos que não tenho, o emprego do amanhã. Um salário contado pela criatividade das coisas que nem cabem ao meu nome. Uma vertigem. Um medo da altura. Olhando meus pés, vejo como é quase queda, vejo o salário que mal ganho, as viagens que cogito em gasolina, a volta pra casa, o amor que amo. A mesa ali fica, poucos passos atrás do que chamo eu, mas os pés pregam e não se movem. Paraliso. Entre o que me ribança e entre o que alcanço. Parece-me não ser possível o salto, muito menos a queda de alguma forma. Não ser possível também descalçar a vista do que meus pés ali mostram. É um entretempo. Vertigem. Ali não sou filha. Sou nada. Sou nem eu. Alguma coisa escorre, que nem sei se tempo, suor, lágrima, gozo, infância. E daí eu sei que uma forma de saltar é escorrer, ainda que agarrada as paredes, escorrer no abismo. Derreter é vertiginoso, porque o peito desloca ao chão. Escorrer ou saltar, isso é todo dia. Daí vem alguém. Um rádio toca. É preciso comprar cebola e ser filha. É lindo amar o amor que amo. Os pés caem em si. Me caminham à mesa, onde trabalho, como, rezo. A vista me devora, a cadeira me preenche. Te olho e conto que estive na minha beira, precisava te dizer antes que se tornasse inexplorável o amanhã.

vestir caminho

Me desentender com você é sentir que perdi a carteira com as chaves de casa do carro ou qualquer outra coisa que signifique a agonia fina que é não achar o mais importante da banalidade. Ontem não tive muito pra dar. Eu bebi os últimos quatro anos de amizade por conta do frio. Já que as roupas de todos não cabiam mais, torci o excesso da nostalgia que me restava em doses e mais doses. As coisas cambiam, trocam de marcha, os tecidos mancham e ontem não encontrei em lugar algum as memórias que tinha deixado em meia dúzia de pessoas que já não guardam o conhecido.
O amor complexifica qualquer margem de explicação do porquê as coisas erram. As coisas erram. As coisas erram pela gente adentro e eu te amando conto como as coisas eram. Como as coisas erram. As coisas erraram no tempo e isso com certeza me deixou mais certa das coisas. Como te quero. Como te amo. Como ontem não tive muito pra dar, devido o teor alcoólico de um tempo que não me veste mais ou até mesmo a incapacidade de atear fogo nesse museu em meia dúzia de pessoas que é todo feito de pó, vazio, pó fora, por dentro. E perdão, que ontem não tive como dar mais do que minha incapacidade de atear, ontem não estive em lugar algum daqueles que sabia pra onde ir. Não sei, mas os caminhos de trás não existem mais. A tinta que sinalizava esvaiu, esvaziou. Ontem já é um caminho de tinta gasta. E hoje vaguei as sete versões da história de cada uma das coisas que não lhe dei. Pode parecer que não estive, mas estava. Estava buscando esse caminho aqui, o do erro, que não bonito nem romântico, mas o erro que era uma forma de dizer que erro, que te quero. Que foi o caminho que consegui encontrar nesse dia específico onde percebi que a cidade é feita de lembranças e o ser é percorrer uma calçada onde a tinta gasta com os próprios passos. Que foi esse caminho que dirigi bêbada das coisas que não sou mais, que não podem mais caber e ainda bem. Ainda bem. Achei. A carteira, as chaves de casa, do carro ou qualquer coisa que signifique o lado mais sagrado da banalidade de por um instante e mesmo que breve, feito de punhal enferrujado, por um instante, perder. Perder os caminhos. As pessoas. Uma cidade. Um ser que já não. É. Ainda bem. Achei você. De quem não fui, de um caminho que não fiz. Achei. Percorri essa distância do desespero de perder, mesmo que breve. Percorri as roupas curtas do que fui, o pó, o museu que enfim ateei fogo. Percorri os anos. Achei. Achei você. Percorri, peço perdão de um fundo que nem existia antes de te achar. Já não quero mais a simpatia medíocre de um passado em pessoas onde não sou. Achei. As chaves de casa, do carro, carteira. Quero amanhecer com você o doce de todas as horas, o despertar dos caminhos que nos serão e se depender de mim, nos serão juntos. Te dizer dos erros do que eram. Provar minhas roupas em você que não cabem mais. E cometer o erro que te percorre em memórias apertadas do que foi. Provar, desculpa, minhas roupas que não cabem mais. Só pra esquecer as chaves de casa, carteira, carro, cofre, cadeado, num bolso que nem lembrava o porque gostei tanto dessa calça e decidir mudar de endereço, documento, mala e mala e mala e cuia só pra morar mais perto de você. Amanhã. E amanhã e amanhã, ainda mais perto.


Numa forma poema prosado, conto-poema ou outro molde a intitular um eixo pouco específico, Lua Nê atriz, musicista, professora e escritora latinoamericana, pauta sua poética no quotidiano afetivo, como mulher, lésbica, amarela e no lugar da palavra do lúdico ao biográfico. Tem seu primeiro conto publicado em 2021 (Editora Unesp) e sua primeira obra “O arroz é o maior lugar da casa” em 2022 (Editora Multifoco).

Omar Rosario (São José do Rio Preto, São Paulo, 1985). Artista visual, ilustrador e artista multimídia. Graduado pela Universidade Belas Artes de São Paulo em 2007, começou sua carreira artística como designer de moda onde se apaixonou por ilustração e pintura. Artista autodidata, dedicou-se integralmente às artes visuais em 2016 e desde então vem realizando trabalhos com pintura – onde experimenta suportes e técnicas – e  também trabalhos com fotografia e vídeo. O artista já participou de salões de artes visuais, mostras de arte e pequenas exposições. Em 2019 fundou a Editora Invisível, uma editora independente de livros ilustrados que aborda assuntos da contemporaneidade. Em sua produção são frequentes as referências políticas e sociais da atualidade.