Vi-o pela primeira vez mais como uma sombra que se pronunciava mar adentro. De pé, no pontão de pesadas lajes colocadas para desafiar o mar quebrando-lhe a força entre as praias naquela língua de areia que já fora a residência dos dignatários enviados pelos reis do antigo Kongo para a recolha do nzimbu, a moeda oficial do reino. Estas mesmas areias sujeitaram durante sete anos, por ordem do grande Ngola, o capitão Paulo Dias de Novais, o branco vindo do mar em barcos jamais vistos.
De pé, ali o vislumbrava olhando a sinfonia deslumbrante orquestrada pelos raios do sol poente, quando por momentos os dois se fundiram em um e ambos submergiram nas pacíficas águas do quente Atlântico.
No dia seguinte, à mesma hora e local, tornei a vê-lo. Talvez se preparando para se alçar como estrela da noite ou ser engolido pelo reino de Mutakalombo, o dono dos mares e suas profundezas.
Apressadamente dirigi-me para onde ele estava que, pressentindo-me, virou a cabeça e viu-me. Voltou-se novamente para o poente e assim permaneceu enquanto eu subia as enormes pedras do pontão. Pareceu-me que rezava ou cantava uma ladainha.

Que viva mi papá,
Que viva mi mamá,
Que viva Ramón Castilla
Que nos dio la liberta’

Parei para não o ofender por me considerar intruso no seu espaço e momento íntimos. Sorriu e acenou para que subisse.
“Sou o Samuel Astro”, apresentei-me uma vez a seu lado.
“Júlio Florez”, respondeu e voltou-se novamente para o mar.

Que viva mi papá,
Que viva mi mamá,
Que viva Ramón Castilla
Que nos dio la liberta’

Aguardei, silencioso, tentando entender a canção, certamente palavras de gratidão a alguém, pelo que percebi, louvando seu pai e sua mãe.
De novo ergueu as mãos para a nesga do sol que ainda nos consolava e que em segundos desapareceria, tragado sem piedade pela noite, a nova dona do Mundo ali e então.

Que viva mi papá,
Que viva mi mamá,
Que viva Ramón Castilla
Que nos dio la liberta’

Assim que o astro rei mergulhou no abismo profundo, virou-se e convidou-me a descer.
“Falava em espanhol”, afirmei, curioso.
“Sim, sou peruano filho de África, trisneto de escravos vindos do Kongo.”
“Falava de um Ramón Castilla, quem é, ou foi?”
“Foi um grande homem do Peru, aquele que nos concedeu a liberdade, nos libertou da escravatura.” – disse, caminhando.
Talvez não desejasse falar comigo naquela hora que poderia considerar sagrada ou relevante para si.
Não estando familiarizado com a História do seu país e não sabia o que dizer, para além de, estranhamente, me sentir culpado como se tivesse sido quem exportara seu trisavô para a América Latina.
“Foi um Governador, um Presidente? Desculpe a minha ignorância.”
“Presidente.”, respondeu sem se voltar e continuando a andar.
Decidi abandoná-lo, evaporar-me sem que ele se apercebesse, e com a escuridão que descera sobre nós, nem mais o via. Ainda hoje não sei se efectivamente Júlio Florez alguma vez esteve naquele pontão a saudar o oceano que banhava o seu continente e a agradecer a um bom homem que se revelara humano, nesse continente aonde o bisavô enterrara seu umbigo africano.


Manuel Augusto Fragata de Morais nasceu em novembro de 1941 na cidade de Uíge, Angola. Seguiu carreira na política, literatura e diplomacia. Foi Vice-Ministro da Educação e Cultura de Angola, Deputado à Assembleia Nacional, Conselheiro e Secretário-Geral do Conselho Nacional de Comunicação Social de Angola e Diplomata-Embaixador aposentado do Ministério das Relações Exteriores. Escreveu os livros Como Iam as Velhas Saber (1983), A Seiva, Inkuana Minha Terra (1996) e reeditado em 2005 pela Editora das Letras; Jindunguices (1999), Momento de Ilusão (2000), Amor de Perdição, Antologia Panorâmica de Textos Dramáticos (2003), A Sonhar se fez verdade-juvenil (2003), A prece dos Mal-amados (2006), Sumáuma (2005), Memórias da Ilha (2006), O fantástico na prosa angolana (2011), Batuque Mukongo (2011), A visita (2014), Estórias para bem ouvir (2014), A dança da chuva (2015), Senhora das Águas (2019), Um canto ao meu Congo (2019). Atualmente é colunista de contos na Philos.

A pintura que acompanha o conto é da artista brasileira Manuela Navas.