Penso que um grande problema não só da arte brasileira, mas do modo como o nosso tempo trata arte, é que foi completamente esquecido que arte acima de tudo e qualquer coisa é uma postura absolutamente política. Quando se discute arte, na verdade não estamos necessariamente discutindo a superfície de uma tela ou de um desenho, não estamos falando de imagem sobre um ponto de vista retiniano, ou de uma exposição sobre o ponto de vista de deleite visual – apesar disso ser o que temos hoje em dia. Mas a discussão de arte é uma discussão sobretudo sobre o destino do homem nesse planeta e sobre no quê de fato um ser humano está transformando a vida. A discussão de arte é na verdade uma discussão seríssima sobre a vida, sobre nossas possibilidades, nossa envergadura enquanto espécie, nossa busca dentro de nós mesmos e consequentemente sobre um trabalho, isto é, sobre como um trabalho exaure isso – eis aqui um modo de compreender o termo fatura, quando se discute “a fatura de um trabalho”.
Grandes artistas – gosto de pensar em figuras como Hilma Af Klint, Cézanne, Duchamp, Beuys, Agnes Martin, para mencionar alguns – evidenciam de forma muito matérica que arte de verdade é uma tarefa espiritual, é um veículo em que o ser humano está se redimindo na terra, arte é o veículo pelo qual o homem, dentro de toda sua sujeira, dentro de toda sua mesquinharia e tacanhice, pode também se elevar espiritualmente, arte é o que sobra desse caminho, dessa batalha, dessa trajetória, arte é a consequência de querer profundamente viver em carne viva, de enfrentar os fantasmas de sua psiquê, enfrentar ciclopes de seus antepassados, arte é talvez (diferente do que vemos por aí) o fazer mais solitário e ao mesmo tempo o fazer mais coletivo e para o outro que exista (para um outro futuro, para a construção de um país e de uma espécie melhor, arte é uma construção extremamente silenciosa de um outro ser humano, de um novo sujeito – e isso é tão sério pois não me refiro ao trabalho que está no museu, mas me refiro ao trabalho que foi feito exaustivamente através e a partir o que vemos no museu; antes mesmo de ver uma pintura do Van Gogh em um museu, eu já fui com certeza afetada pela sua pintura – uma tela do Van Gogh nos comove também pois o que emaranha-se na superfície daquela tela já foi emaranhado nas entranhas daqueles que vieram depois dele – por isso a responsabilidade profunda de nós brasileiros fazermos algo pelo nosso país, pelo outro, e penso que só é possível fazer algo de fato pelo outro se conseguirmos fazer algo por nós mesmos. Realmente tenho percebido que o único modo de profundamente ajudar o outro é o trabalho diário, solitário e silencioso de fazer algo por nós mesmo, de dizer não para aquilo que quer dizer sim o tempo todo, de suportar tomar decisões que vão contra nossa vontade superficial, de aceitar humildemente nossa insuficiência, de parar de querer tanto viver somente pela demanda do outro! Diria que qualquer atividade de fato espiritual é consequentemente uma atividade altamente, senão a mais alta atividade política.
Me espanta a superficialidade com que são travadas as discussões sobre arte.
Me pergunto profundamente: o que mesmo estamos discutindo? A serviço do que estamos produzindo? Qual é mesmo o interesse real do sujeito?
O artista  de verdade é um ser extremamente comprometido com seu tempo.
O artista é aquele que está indo para a guerra toda manhã.
Aquele que “opta” por se envolver com o assunto da arte, seja um artista, seja um curador, crítico, colecionador, seja um pesquisador, seja até mesmo um simples amador, o que seja!, precisa entender de uma vez por todas que está adentrando um território de vida ou morte!


Anna Israel é artista, colecionadora, professora e escreve sobre arte. Em 2011 se formou em artes plásticas pela FAAP, e em 2013 fez um curso de filme na NYU, em Nova Iorque. Desde 2009, é integrante e parceira do Atelier do Centro – centro de pesquisa e formação em arte expandida, fundado por Rubens Espírito Santo. Faz parte do corpo pedagógico do Atelier do Centro, onde ministra semanalmente aulas teóricas sobre questões eminentes do nosso tempo, como por exemplo o “Ciclo de aulas sobre Lacan a respeito da carência da mulher”, ou o “Ciclo de aulas sobre o papel social da arte a partir do antropólogo Alfred Gell”. Em 2015 publicou seu primeiro livro, “Sobre a Natureza Íntima da Arte”, que é uma investigação das aulas de RES enquanto uma nova mídia de arte. Em 2016, 2017 e 2018 ministrou cursos do méthodo RES em Barcelona (Espanha), junto com RES. Também participou de exposições de arte no Instituto Tomie Ohtake, CCSP, Museu Oscar Niemeyer, MARP, CCBB-RJ entre outros. Em 2020, participou da Flipoços, com o tema “A descoberta da mulher como saída para o futuro”, e no mesmo ano iniciou seu curso online Encontros de Filosofia e Arte para Mulheres e Encontros de Filosofia e Arte para jovens Mulheres, onde discutem filosofia a partir de questões práticas da vida interna e externa de cada uma. Em 2021 publicou seu livro bilíngue “Tantrismo Estético Ocidental”, que é uma série de textos crítico poéticos sobre a obra do artista Rubens Espírito Santo, que Anna vem escrevendo desde 2016. Também em 2021, Anna iniciou seu novo curso de história e teoria de arte, Appeal to a New Art.


A obra que acompanha o artigo é de autoria de Manuel Messias.