Uma consideração muito importante que quero fazer ao que acredito ser tradução é que uma grande obra não traduz algo, uma grande obra não traduz uma língua, uma nação, um tempo por vir – inclusive, a obra tem plena consciência de que isso não seria de sua alçada, a obra tem a humildade em saber que ela não tem essa autoridade. Mas, o que uma grande obra faz então é criar um espaço possível para que uma língua possa se traduzir nela, a obra cria um ambiente favorável para que a língua possa se traduzir, se dizer através dela. A obra é um espaço que recebe a língua, a obra negocia com a língua, com os porteiros do porvir, e assim empresta seu corpo para que o próprio porvir se traduza nela. A obra existe para enfim se doar para que a coisa possa  ser impossível, a coisa futuro e passado, e por isso finalmente presente possa se materializar nela – é bruxaria mesmo. O presente só existe mesmo enquanto uma encarnação do futuro e do passado – o presente encarnado pode ser qualquer coisa. Se o presente está encarnado então ele pode ser qualquer coisa.


Anna Israel é artista, colecionadora, professora e escreve sobre arte. Em 2011 se formou em artes plásticas pela FAAP, e em 2013 fez um curso de filme na NYU, em Nova Iorque. Desde 2009, é integrante e parceira do Atelier do Centro – centro de pesquisa e formação em arte expandida, fundado por Rubens Espírito Santo. Faz parte do corpo pedagógico do Atelier do Centro, onde ministra semanalmente aulas teóricas sobre questões eminentes do nosso tempo, como por exemplo o “Ciclo de aulas sobre Lacan a respeito da carência da mulher”, ou o “Ciclo de aulas sobre o papel social da arte a partir do antropólogo Alfred Gell”. Em 2015 publicou seu primeiro livro, “Sobre a Natureza Íntima da Arte”, que é uma investigação das aulas de RES enquanto uma nova mídia de arte. Em 2016, 2017 e 2018 ministrou cursos do méthodo RES em Barcelona (Espanha), junto com RES. Também participou de exposições de arte no Instituto Tomie Ohtake, CCSP, Museu Oscar Niemeyer, MARP, CCBB-RJ entre outros. Em 2020, participou da Flipoços, com o tema “A descoberta da mulher como saída para o futuro”, e no mesmo ano iniciou seu curso online Encontros de Filosofia e Arte para Mulheres e Encontros de Filosofia e Arte para jovens Mulheres, onde discutem filosofia a partir de questões práticas da vida interna e externa de cada uma. Em 2021 publicou seu livro bilíngue “Tantrismo Estético Ocidental”, que é uma série de textos crítico poéticos sobre a obra do artista Rubens Espírito Santo, que Anna vem escrevendo desde 2016. Também em 2021, Anna iniciou seu novo curso de história e teoria de arte, Appeal to a New Art.