a poesia contemporânea em línguas originárias do México, com curadoria de Martín Tonalmeyotl e traduções de Sabrina Graciano

A poesia escrita em línguas originárias do México nasce no século XX com assessoria de estudiosos como Carlos Montemayor e Miguel León-Portilla, para mencionar apenas alguns. Eles encorajaram os falantes de línguas originárias das Américas a criarem suas próprias obras. No entanto, o trabalho destes homens e mulheres não foi suficiente para dar voz a estas línguas que foram objeto de maus-tratos por parte dos colonizadores e das instituições governamentais durante séculos e séculos de exotização e que se arrastam até os dias de hoje. O trabalho dos primeiros escritores indígenas não foi só escrever e publicar obras em diferentes línguas, mas a maior tarefa foi abrir espaços para o reconhecimento, a difusão e a alfabetização que serviu para toda uma geração de poetas do século XXI e que está fortalecendo a diversidade linguística mexicana [e latinoamericana], contribuindo para um maior entendimento da literatura universal. Montemayor, em uma de suas notas sobre a literatura em línguas originárias mexicanas, menciona como é importante que os escritores possam opinar desde um eu pessoal com os recursos e as características estilísticas de uma língua e um pensamento próprios. Assinalando:

com estes escritores temos a possibilidade, pela primeira vez, de nos aproximar, através de seus próprios protagonistas, do rosto natural e íntimo, do profundo rosto de um México que ainda desconhecemos.

Foi até meados do século XX que os zapotecos do Istmo de Tehuantepec consolidaram-se como a primeira geração de escritores em língua originárias [e talvez seja deste mesmo período os primeiros artistas destes povos que começaram a escrever sua poesia aos moldes ocidentais]. Antes deles não se podia analisar nem o artista nem a obra porque simplesmente não existiam obras em línguas originárias escritas nas Américas ou, se existiam, eram passadas pela tradição oral. Atualmente existem materiais impressos e digitais suficientes nos quais se pode dar a conhecer estas literaturas e escritas. Este poemário especial publicado pela Revista Philos, assim como os textos do projeto Guaraní e Brasiliana [trabalhados por este editorial desde 2018], serão materiais indispensáveis porque neles estarão visível e ao acesso de todos, poemas inéditos escritos pelos maiores ícones da literatura americana em línguas originárias.

A ONU proclamou em 2019 o Ano Internacional de Línguas Indígenas, o que nos motivou a nos unir de maneira independente [como curadores e editores], para dar a conhecer a palavra e o pensamento de trinta e dois poetas mexicanos em dezesseis idiomas diferentes. Projeto este que está sendo lançado ano após ano pela nossa revista em parceria com o curador Martín Tonalmeyotl e os editores do Círculo de Poesía, do México. Os poetas aqui apresentados compartilham alguns poemas inéditos de suas obras e são eles seus próprios tradutores ao espanhol. Colabora conosco, nas traduções ao português, a pesquisadora Sabrina Graciano, que nos apoia neste projeto desde o Brasiliana. Na lista de idiomas participantes neste projeto aparecem mais de 16 línguas ameríndias em risco de apagamento: o náhuatl, totonaco, tsotsil, maya, mazahua, zoque, otomí, mixe, tlapaneco, zapoteco, mixteco, tseltal, ch’ol, chontla de Tabasco, chinanteco e mazateco.

Cada língua representa um povo e cada povo tem sua própria forma de manifestar a palavra desde a poesia, a filosofia, a medicina, entre outras áreas, onde a palavra é semente e fruto ao mesmo tempo. Por isso será comum no decorrer desta e de outras edições deste especial, o aparecimento de um dicionário especial de subjetividades e poéticas para as traduções. Existem ainda mais de 6700 línguas originárias no mundo, das quais o 40% correm o risco de desaparecer devido à falta de políticas linguísticas [e de falantes] que protejam estas línguas. No México [país com maior número de falantes em línguas originárias das Américas], a situação linguística é semelhante: De 69 idiomas falados em todo o território, 32 deles correm um alto risco de se perderem, alguns deles são o ahuacateco, ayapaneco, teko, oluteco, pápago, ixcateco, kiliwa, paipai, cucapá, kumiai, pima, matlatzinca e tlahuica —todos presentes em nosso especial literário.

Xochitlajtoli pássaros azuis cantem minha memória, a poesia contemporânea em línguas originárias das Américas nasce a partir das séries Xochitlajtoli e Brasiliana publicadas nas revistas Círculo de Poesía [México] e Philos [Brasil], em que se publicam escritores de diferentes línguas originárias das Américas Central e do Sul. Todos os participantes desta série são homens e mulheres voluntários, alguns de reconhecida trajetória, e outros muito jovens que estão propondo novas temáticas e quebrando os estigmas sobre a poesia indígena na contemporaneidade. O especial é o único no âmbito da poesia indígena das Américas, continente que reúne os melhores expoentes da cultura e da palavra [poética e estética] ameríndia e de forma trilíngue no mundo.

E por falar em línguas, a análise da palavra Xochitlajtoli está composta por duas raízes morfológicas da língua náhuatl [na tradução, língua clara ou asteca]: xochitl ‘flor’ e tlajtoli ‘palavra’. Miguel León-Portilla, um dos maiores estudiosos do náhuatl, traduziu a palavra poesia como in xochitl, in cuicatl, que significa: ‘a flor, o canto’ ou ‘flor e canto’. Foi uma expressão usada antes da ocupação espanhola que não só incluiu a poesia como gênero literário, mas também o pensamento nahua em toda sua extensão. Nas diferentes culturas que existem no México, 69 para sermos exatos, a poesia é definida de diferentes formas: palavra flor, palavra nuvem, palavra vida, palavra chuva ou bem como o descreve o poeta mè’phàà Hubert Matiúwàa, traduzido ao português pela Philos:

No idioma mè’phàà, a poesia é nomeada de muitas maneiras, as definições dependem do contexto da palavra e ‘de quem a faz sua’; por exemplo, ajngáa xka’tsá [palavra que alegra], ajngáa dxáwua [palavra que aconselha ou palavra das estrelas], anjgáa xawíí [palavra que acorda], anjgáa tsi’yaa [palavra bela], ajngáa yáá [palavra mel], ajngáa tsíama [palavra que veio do tempo]. Não existe o conceito que abarque tudo, cada palavra em sua diferença faz o todo e cada uma delas tem sua própria estrutura poética de acordo com seu uso e seu existir na língua de cada um.