poema um

na página que nos antecede
quando não possuíamos nossos
ossos
arrancávamos a pele da escuridão
jamais capturada pelo sollentamente fomos nos fazendo
cúmplices de palavras como falsete
condoídos enredos:
não somos donos de nadarasgarem esgares
a ousada missão
dos soldados mais magros
de um mutirãoeles arrastam as asas
sobre o papel
lama e sangue
Celine sabe a verdade de corvos e vermeshá uma gente
a espalhar migalhas
por esta rua
e nomeá-las de pétalassaído dos horrores noturnos
ele beijou-me no sonho
rezou junto de mim
parecia um homem bomo futuro da fábula
logo ali no princípio
era mera distração
sem conter os dedos ou o chão

poema dois

I

os comunistas abandonaram as ruas de Paris
os pariahs chafurdavam na esperança
lamacenta de dias pós-diluvianos
o sol cegou os corpos paralelos
as folhas do bosque ardem
temer a lua é a ordem do dia
todos os dias abocanhar horas
elementos macios do tempo
digeríveis na mansuetude lunática

II

Herta se entope de ameixas roxas
enroladas em meias de nylon
eis que o mar também, o mar
das memórias furiosas ondas
feitas de nylon, compridas
compridas até deixarem de cobrir
os pares de pernas das mulheres
banhadas pelo sal, lanhadas pelo mal
as águas impassíveis, de quem seriam
filhas?
elas crescem sem significar
os galos cantam e desencantam
o animal relógio desperto entre as
algas de olhos ávidos
quando irá o sol rugir.


Kátia Bandeira de Mello Gerlach, escritora e artista visual, com formação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade de Londres e a NYU School of Law, é natural do Rio de Janeiro e residente da cidade de Nova Iorque desde 1998. Escreve no Jornal Rascunho e é colunista e editora da Revista Philos. Publicou os livros de contos Jogos Ben(ditos) e Folias Mal(ditas) (2016), Forrageiras de Jade (2009) e Forasteiros (2013). Lançará este ano seu livro Churros de Saturno.