Em sua individual, O concreto que evapora, Manuela Navas não busca univocidade, o que se anseia é transpor os muros. É na alma do ser humano que está sua essência. Nela mora a beleza do divino, fonte das manifestações do amor, da compaixão, da humildade, da gratidão, do altruísmo, da felicidade, valores universais, nos quais buscamos inspiração para sua tarefa maior, a transcendência na existência. Das pinceladas de Navas emana o inesgotável manancial de possibilidades originais que se apresentam em constantes processos de criação e sensibilidade, elementos fundamentais do seu trabalho artístico. Nas mesmas nuances, não esquecendo a difusa atividade minimalista e a quebra do senso lógico, Navas pinta, aparentemente, em dois eixos artisticamente semânticos: o da criação e o da observação; por outras palavras, o do sujeito e o do autor, que (se) opera à sua volta, o do eu e o do uso.

Diante de suas obras, tenho a mesma sensação de estar lendo o poema de Drummond: “Prosseguimos, reinauguramos. Abrimos os olhos gulosos a um sol diferente que nos acorda para os descobrimentos”. Navas alvoroça as brisas da mente e desdobra os pensamentos em palavras, gestos de pincel e, sem pretensão, caminhando na ponta dos pés para mostrar suas pinturas. São traços que falam de amor, de felicidade, das forças do acaso e da sorte, em letras-pinceladas que mostram as suas cores nas notas riscadas além dos discursos. Não há uma canção primeira, nas obras de Manuela Navas, ou uma poesia mais impactante, são espécies de ensaios da vida diária, esquentadas no calor que evapora, que permeia o concreto duro e se costura em uma narrativa primordial. São memórias esparsas aqui e acolá, que nos trazem luz, viram orações e revelam suas verdades.

Obra de Manuela Navas, para sua individual O Concreto que Evapora.

Manuela Navas faz um recorte notável do nosso patrimônio maior: a vida de pessoas comuns, as paisagens e manifestações culturais, documentando os nossos saberes comuns com sofisticada perspicácia, graças ao imenso trabalho de desbravamento e cuidadosas interrogações de sua pesquisa artística. Aqui, nos deparamos com perspectivas e anseios que repensam o cotidiano, as lutas de classes, a desigualdade, a luta feminista e tantas outras bandeiras que implicam a necessidade de reflexão através das artes, do reconhecimento e da memória.

As obras de O concreto que evapora trazem consigo a certeza da voz, intermináveis argumentos e inspiradores devaneios, aproximam-se uns dos outros entre traços e cores amarrados por um único fio universal. São narrativas que se combinam, respondem a diferentes perguntas e encontram-se em uma mesma leitura do olhar.

As pinturas de Navas são correntezas de um rio que deságua na imensidão do mar. Essas mesmas águas, misturam-se, conversam e transformam a consciência das palavras em traços cheios de sentimentalismo. Parafraseando a poeta portuguesa Ana Hatherly: As palavras são as línguas dos olhos. Tudo cabe dentro das palavras. E em Manuela Navas, tudo cabe dentro dos olhos. Percebe-se o esforço da artista em alcançar uma vitalidade para além das formas, faces e gestos humanos. Transitando entre essas linguagens, as ideias de cor e corpo aqui apresentadas ganham relevância e inspiram muitas discussões. O poeta necessita de palavras em seu poema, mas a poesia dispensa palavras e poetas. Não é assim com Manuela Navas, em sua obra, a poesia não lhe dispensa. Em Navas, não devemos nos preocupar com as próximas palavras, devemos degustar a literatura de seu traço objetual, firme e sentimental, pouco a pouco, dando espaço em nossas almas para conjugar de diversas maneiras o verbo sentir ou, nas palavras de Zeh Gustavo: O futuro todo ainda pode desacontecer.


Serviço: O concreto que evapora, de Manuela Navas
Sexta-feira, 22 de julho às 18h
Local: Bacorejo – Rua do Rosário, 38, Centro (RJ)