Um artista necessita criar uma linguagem capaz de expressar as suas desmesuras interiores e debruçar-se sobre si com o alheamento do real, para construir narrativas que despertem o interesse por suas vivências ou por seu figurativismo.

O pintor Henri Michaux nos disse uma vez que “não é no espelho que devemos observar-nos”, para ele devíamos “nos contemplar no papel ou na tela”. Ao conhecer a obra de Miguel Afa, somos convidados à contemplação de nossas inquietudes e (des)humanidades.

De acordo com a física, o peso expressa uma força com que um corpo é atraído para a terra pela ação da gravidade. Palavra derivada do latim pensum, também é aplicada para definir relevância, responsabilidades, fardos… Em Sagrado Favelado, sentimos o peso de uma narrativa densa que se dissolve nas pinceladas ágeis e diligentes do artista. Peso este que vem do impacto e da dor do corpo caído no chão, do peso da morte e das vidas ceifadas pelas chacinas do Estado.

Como disse Paul Celan, “o lugar a partir do qual o poeta se orienta e projeta a realidade é a própria linguagem”, e nesse universo de múltiplas linguagens, seus hibridismos e funcionalidades, Miguel Afa (re)constrói – talvez sem perceber -, um movimento forte, por si só eclesiástico, na construção de poéticas e nas narrativas de suas obras. Cabe aqui mencionar que essa narrativa apresentada pelo artista é suportada também pela música. Em Sagrado Favelado, temos o encontro da pintura de Afa com a música do artista Onni. Aqui, os dois criam suas personagens universais, que refletem-se em nós e no próprio eu lírico, mas não sem que haja uma decodificação por parte de quem vê cada elemento sagrado ou profanado de Afa.

Me parece que existe um movimento da cor em sua obra que também merece ser destacado. Uma escala cromática que reflete a “pele do invisível”, um gestar introspectivo do pigmento que se sobressai aos olhares mais atentos. E já sabemos o motivo: O encerramento formal da escravidão em 1888 não impediu que suas consequências se estendessem para marcar a pele dos que são negros até os dias atuais de formas muito violentas e agressivas.

Sagrado Favelado é uma mostra sobre corpos e suas relações, objetos e palavras apressadas que escapam do consciente do artista. Dessa forma, Miguel Afa vai nos apresentando uma arte poética do corpo-em-ação-e-reação, nos entregando uma infinidade de discursos pertinentes sobre o passar da vida, a dor, os sentimentalismos puros e liberdades de nexos. Devemos ficar atentos aos próximos experimentos de Miguel Afa. A maior emoção que existe em sua obra é a da descoberta.

Miguel Afa e Onni, pelas lentes de Lucas Cuiabano.

Serviço: Sagrado Favelado, mostra individual de Miguel Afa
Sábado, 23 de julho às 16h na Casa Bicho
Rua Caio de Melo Franco 375, Jardim Botânico (RJ)