introdução —a defesa do ditirambo ático

Se a intenção do pensador for uma reconstrução do pensamento total, nos moldes do que vinha sendo feito pela visão de mundo moderna antes da chamada crise da pós-modernidade, é preciso, então, que ele procure restabelecer a viabilidade do paradigma científico em detrimento do mítico, que vem prevalecendo nos modelos pós-modernos de concepção do conhecimento. Para isso, portanto, proponho ser necessário que se supere uma purista ideia nietzscheana de valorização da mentalidade helênica e de desvalorização da alexandrina. Digo isso defendendo que as transformações históricas, mesmo seguindo o modelo nietzscheano de dualidade apolo/dionísio, não se dão por um movimento pendular tão perfeito, em que o estágio dionisíaco avança e irrompe, como que por dentro das forças apolíneas, destruindo completamente as suas formas, até que o estágio apolíneo as reconstrua. O movimento da história dá-se por uma constante interação entre as duas forças, muito mais sob um desenvolvimento dialético, de combinação das duas deidades, do que sob o que chamarei de modo “abstrato” de compreensão do desenvolvimento da história, que Nietzsche apresenta. Apolo e Dionísio, segundo o que pretendo argumentar, são tipos ideais que, na realidade, entrelaçam-se todo o tempo, podendo um sobressair-se mais ao outro em algumas épocas, ou em alguns aspectos. O próprio desenrolar-se do tempo está permeado dessas duas fúrias conflitivas, que na verdade estão tão entremeadas, do ponto de vista realista, que é impossível dissociá-las.

Para uma melhor compreensão do que acabo de apresentar, proponho que se atente ao termo que Nietzsche mesmo cunhou para designar a maneira pela qual um novo pensamento helênico poderia surgir, uma vez que a serenojovialidade grega já estivesse tomada do socratismo ateniense. Refiro-me ao conceito de “Sócrates Musicante”, que Nietzsche invoca como único meio viável de superação do paradigma socrático, que ele tanto condena, e de encaminhamento para um novo paradigma trágico. Ora, parece-me irônico e óbvio que, uma vez que se tenha chegado ao paradigma socrático, tendo-se deixado para trás o paradigma trágico, o único jeito que Nietzsche vislumbre de alcançar o tipo de conduta que ele valoriza, o trágico, contenha em sua forma, mesmo em sua proposta filosófica, a ideia de um “Sócrates”, ainda que musicante. O que penso é que, uma vez acionado o gatilho da criação do mundo, em que Dionísio e Apolo se tenham fundido, não mais será possível superar essa fusão. Uma vez já vivida a realidade trágica, e esta tendo sido superada pela mentalidade alexandrina, o desdobramento histórico do retorno, ainda que parcial, ao “tragicismo”, envolverá uma passagem por um “socratismo”: em outras palavras, uma vez que a cultura se tenha tornado o conteúdo a partir do qual a humanidade opera os seus impulsos de vida, a maneira pela qual as formas da criação e da destruição reapresentar-se-ão para uma nova era tragicizante envolverá elementos, resquícios do anterior momento apolíneo: a partir dos quais ele se transforma, se adapta, e se reconstrói.

A própria ideia de uma musicificação de Sócrates contém essa paradoxalidade que a história apresenta na combinação dessas forças. O que eu pretendo, portanto, é, por meio da manipulação de um outro conceito niezscheano, oposto e complementar ao de “Sócrates Musicante”, que é o do “Ditirambo Ático”, formular uma nova dualidade, que demonstre essa permeabilidade das forças de Apolo e Dionísio. A partir dela, imagino elaborar tanto a crítica à abstracionalidade da conceituação nietzscheana, quanto um novo panorama arquetípico que transmita noção mais precisa e dialética da história. Esse novo binômio explorará melhor a ideia de uma evolução da história que sempre retoma aspectos do período passado, sucessivamente.

É por meio da manipulação desse novo binômio que pretendo dizer que, ainda que se possa defender que o paradigma científico tenha entrado em crise, pode-se defender, todavia, que a formulação dessa crise se deu em termos indiscutivelmente intelectuais. Ou não houve uma série de pensadores pós-modernos? Ora, A crise da pós-modernidade mostrou-se como um “Sócrates Musicante”. Talvez com o mesmo vigor de um inaugural Ditirambo Trágico, reerguidas por um rumbar de tambores, por impulsos guturais, devastadores, mesmo vitais, as forças apolíneas de reconstrução de um novo pensamento total, que recuperará aspectos da crítica pós-moderna, hão de ressurgir sob o arquétipo do Ditirambo Ático (não seria esta a noção de daemon, do mítico parto de Atenas? Esse impulso vital não já rompeu com a razão quando foi preciso, na forma de um arrebatamento trágico?): e, assim, uma nova formulação crítica do materialismo histórico há de elaborar-se. Seu esboço é que procuro expor a seguir.

propensão marginal a gozar

O conhecimento é fruto do ressentimento, como algo que funciona porque, no sujeito, é provocada dor e se a quer aliviada. O ressentimento, por sua vez, é a maneira natural de expressão da luta de classes, o que leva a crer que a própria luta de classes provoca, pelo ressentimento, sua feição vital-fisiológica, as motivações de sua superação: porque se é vida, organismo. A luta de classes provoca conhecimento, e o conhecimento é sempre produto do desejo de superação da dor, indefinidamente na História, sem que a dor, enquanto sensação relativa, jamais desapareça – assim como infinitas são as possibilidades econômicas da humanidade e a propensão marginal dos humanos a gozar.

do déficit vital

Será, no mínimo, ingênuo quem disser que a felicidade é uma condição cujos motivos são de listagem inexaurível; quem diz que a felicidade é inefável. Um sujeito feliz será aquele que pode experimentar, em sua vida, o máximo daquilo que sua constituição como pessoa gerou de desejos. O déficit vital é justamente o estado de frustração contingente desses desejos. Isso quer dizer que a felicidade é alcançável, quase do ponto de vista newtoniano: se desvendarmos os desejos humanos, a aquisição das experiências que completariam em uma razão suficiente a demanda volitiva de dado sujeito torna-se viável. “Deve ser por isso que alguns Estados ditos mais avançados já começam a pesquisar meios para o alcance da felicidade dos seus cidadãos”. É exatamente por isso: sendo o Estado o instrumento à mão dos sujeitos para reivindicarem seus direitos, a resolução da pobreza interpõe novos paradigmas de direitos a serem perseguidos, leia-se a felicidade geral, de todos e de cada um. E é também exatamente por possuírem tal déficit vital irredutível nas dinâmicas interpessoais à moda do laissez-faire que os sujeitos conclamam tal instituição, o Estado, para intermediar e rearticular a dinâmica de distribuição dos bens vitais.

economias instintivas

Existe no triunfo uma dimensão que é econômica, mas não de uma maneira trivial, respaldada em alguma vaga noção comum de materialismo. Não é todo triunfante que, de imediato, adquire a recompensa monetária, ou na forma de um produto, pelo que fez de bom. A dimensão simbólica, que não é obrigatoriamente um produto, segue, no entanto, uma lógica econômica também, ainda que específica, que não deixa de ser material. Os benefícios conseguidos pelo triunfo simbólico possuem a sua própria lógica materialista.

Além da cooperação com o triunfante em virtude do reconhecimento do feito, que acarreta em si benefícios como favores, o triunfo garante também um benefício à sobrevivência do tipo individual por uma via transgeracional. Protegidos os seus herdeiros pela sua história – e, consequentemente, da sua família – e pelos capitais simbólicos de toda ordem adquiridos pelo ganho, o gen individual alcança o benefício máximo, instintivo. A sensação de satisfação quando alcançado o triunfo nada mais é do que a prova cabal de que o benefício da aquisição do poderio simbólico segue uma dinâmica econômica que visa algo maior, de mais longo prazo, de um comportamento residual: a imortalidade do seu tipo.

Nenhum invejoso é invejoso apenas do dinheiro. Nenhuma vitória é somente pecuniária. Nenhum amor correspondido é resultado de um cálculo tão realista… Mas segue uma intenção inconsciente de preservação biológica, que implica em uma economia relacional – que necessita também de desenvolvimento econômico-produtivo, por suposto, mas em uma segunda instância. O desenvolvimento econômico-produtivo apenas permite a perpetuação no longo prazo das batalhas simbólicas – e por isso é tão importante, mesmo que não seja a economia produtiva propriamente dita o seu motor principal.

O que acontece é que o indivíduo biológico responde a muitos estímulos instintivos. Procurar, portanto, primeiro nas motivações econômico-produtivas as disputas dos seres humanos por benefícios materiais sociobiológicos é insuficiente. Chegar-se-á a elas, mas partindo de um outro ponto de vista. É preciso analisar a motivação materialista da perspectiva subjetiva, tão evidente quanto imperceptível: os indivíduos da espécie humana seguem os seus instintos, o reprodutivo, o nutricional, assim como muitos outros, que são facetas de um mesmo instinto geral, que é o instinto vital, o impulso vital, a força do gene, que orienta a motivação econômica biológica das relações humanas de facto: nos vínculos criados pelos afetos, pelo amor, pelas amizades, pelas associações – e pelas peleias também.

Em outras palavras, instintivamente, os indivíduos balanceiam, de acordo com suas percepções simbólicas acerca da capitalização simbólica dos outros, aquilo que lhes será, segundo a sua percepção, subjetiva, da realidade objetiva das suas próprias vidas, benéfico. Os indivíduos buscam associar-se a valores que permitirão até a perpetuação do seu próprio tipo transgeracionalmente, por meio dos seus sentimentos: tudo isso é instintivo, inevitável e imperceptível; e justamente por ser isso é que é instintivo. As brigas, os conflitos, a inveja, o amor, o apego, a amizade são fruto disso, dessa economia biológica simbólica em disputa, que tem na economia produtiva a sua base, o seu substrato, o seu meio de execução, mas uma economia produtiva que “alimenta” de bens os indivíduos imersos em batalhas simbólicas instintivas, que seguem um materialismo biológico subjetivista – isto é, que seguem um materialismo histórico apurado, kantiano, fenomenológico – ou, o que vale dizer, o materialismo histórico crítico.

Ilustração de Catrin Welz-Stein.

por uma visão kantiana do fetichismo da mercadoria

Entendemos que a realidade produtiva funciona como base de toda sociedade. Devemos agora compreender como ocorre o fetichismo da mercadoria pela visão subjetiva do processo. Já se entende que os homens produzem e consomem, o que justifica a importância que se dá ao sistema produtivo. O dever agora é explicar o mecanismo pelo qual as mercadorias despertam desejo nos sujeitos, isto é, que motivações individuais os seres humanos, biológicos, encontram na mercadoria para que possam querer apropriar-se dela, a fim de enaltecerem-se – para que se compreenda melhor a noção de projeção do objeto para o materialismo crítico. Com esse propósito, é preciso pensar no poder simbólico emanado pela mercadoria, que se apodera dos seres humanos: um poder simbólico que os enaltece, que os estimula e dá combustível ao seu instinto vital. Por meio da mercadoria, os homens desfrutam, exibem-se e estruturam as suas vidas – e as das suas proles. O resultado biológico do fetichismo de mercadoria é que deve ser compreendido agora.

o objeto para o materialismo histórico crítico

Se se pretender realizar uma teoria do objeto nos termos do proposto materialismo histórico crítico, será indispensável que se passe pela acepção psicanalítica do termo objeto. É a dimensão vital-fisiológica que determina o viés pelo qual o sujeito lerá a condição do mundo. São, portanto, as suas estruturas reguladoras de vitalidade contemplada que definirão o comportamento do sujeito com relação às formas do mundo. O interesse vital de cada sujeito, por sua vez, deve ser entendido como a forma libidinal que emana do sujeito, que a entidade desejo assume. É esse funcionamento vital-fisiológico que desperta tanto a luta de classes, quanto o fetiche que a mercadoria exala – na inveja, na ganância. Se levarmos em conta a historicidade e a transistoricidade desse fenômeno, perceberemos que o objeto de desejo é transmitido e transfigurado pelo desdobrar-se dos conflitos geracionais inter e intra familiares. As entidades genético-biológicas, os indivíduos, disputam espaços de contemplação dos seus interesses vitais, o que repercute no esforço de conservação das suas entidades genéticas da maneira mais enaltecida possível. Por isso, inconscientemente, disputamos libidinalmente: porque a sexualidade é a forma pela qual os sujeitos enxergam o mundo em última instância, com ganas de buscarem realização e prazer na insígnia do status vital, ou auto-sócio-prestígio, algo que é herdado pelas conquistas e acúmulos das disputas geracionais do passado e limitado pela condição física do mundo.

a teoria do primo pobre

Visualizar abstratamente o crescimento de um núcleo de parentesco é prerrogativa para compreender a formação dos desejos e das necessidades subjetivas. O alargamento de uma família, conforme se vai reproduzindo um tipo familiar, acaba por gerar o distanciamento de determinados indivíduos dos elementos que conferem vitalidade aos membros do grupo familiar. Nas franjas do núcleo estarão os netos e os sobrinhos, que deixarão de desfrutar, naturalmente, das comodidades da reciprocidade positiva de parentesco, no sentido consagrado por Marshall Sahlins. Isto é um fato tendencial. Destituídos do reconhecimento como membros mais efetivos do grupo primordial, aqueles primos que não se encaixarem nas dinâmicas de aproximação interpessoal genuína, aqueles primos cujas afinidades se distanciarão daquelas do núcleo original, viverão a experiência de primos pobres. Ora, a própria noção de falta de afinidade não é um reflexo dessa estrutura parental que suporta apenas uma operacionalidade limite de combinações relacionais? A afinidade, ou a falta dela, é a expressão fenomenológica de uma predisposição concreta. Na própria engrenagem da reprodução biológica, os elementos que conferem eficácia simbólica são escassos; e o insulamento dos relativamente marginalizados é quase uma regra.

O tácito desprezo pelo primo pobre gera-lhe confusão; e a expressão incoerente, na forma de inconformidade, de aparente engano e dificuldade elucidativa, dessa percepção de injustiça é sintoma de tal funcionamento metassocial de desenvolvimento biológico orquestrado pela natureza. O reforço desse insulamento do primo pobre, como consequência da exposição de sua crítica indignada e incompreensível –  e do correspondente reconhecimento da demanda recalcada, finalmente expressa, por parte de outros aparentados também descartados –faz desse primo pobre um cavaleiro quixotesco que inicia um movimento que renderá os movimentos necessários para um reordenamento social;  movimentos que gerarão os benefícios para a sua saúde auto-honorífica, que atenderão às suas demandas vitais – e a dos seus primos marginalizados: uma nova sociedade, que os contemple: então partem juntos para formarem um novo agrupamento. Quanto mais simples a sociedade, mais minimalista, menor é o custo de oportunidade de partir em diáspora e buscar amigos e aliados para formar sua própria nação. Quanto mais complexa, maior é esse custo; e a batalha passa a ser no interior da sociedade, o que implica em pressões, pela via moral, para a transformação da estrutura social-produtiva e distributiva.

sobre a natureza da sociologia e a circunstiância do sociólogo

Se perguntado sobre a natureza da sociologia, o sociólogo talvez não seja quem poderá melhor responder a eventual dúvida. Como figura vivente do processo político próprio que a sociologia evoca, o sociólogo, ao descrever a ontologia segundo a qual se apropria do mundo, provavelmente conferirá a seu discurso considerável teor de enviesamento: marcado por denúncia e anseio de transformação política. Seu ponto de vista, manchado pelo déficit vital, reveste de luta e sacrifício a renovação programática dos objetivos da entidade supra-individual a que desfere suas críticas –  a sua sociedade. Talvez seja preciso buscar a resposta sobre a natureza da sociologia em alguma instância transistórica e extrassocial, que possa oferecer uma visão mais teleológica e funcionalista do papel mezzo quixotesco desse prenunciador de novas eras morais e produtivas. É preciso que se analise o fenômeno do nascimento da sociologia como uma realidade metassocial, que se desenha a partir dos aspectos condicionais da natureza da vida e que se autoexpressa em um discurso motivado por impulsos aguilhados pelo horror desonroso dos sintomas da escassez vital relativa.

É própria do ciclo universal do movimento de reprodução da vida a criação do indivíduo rejeito, do excedente, que enseja a formação de novos núcleos, que operarão da mesma maneira a ejetar, naturalmente, o que sobra, sucessivamente no tempo. (E talvez seja próprio também da matéria – o desprendimento e o vórtex negativo, que centrifuga o “algo” e permite que o “nada” seja repreenchido, como consequência de alguma força metafísica que reclama a ocupação do vazio.). Aquele que será o sociólogo gritará para o vento conforme for alijado daquilo que constituía, para ele, os elementos da sua expectativa de saúde honorífica. Quando o núcleo de parentesco não oferece mais reciprocidades positivas, o sociólogo, esse primo pobre, vê-se desumanizado de tal maneira que procura induzir transformações na sociedade de que é membro.

Seu apelo à moral conclama os outros desafortunados a comporem o grito da insolência e da demanda reestruturadora: novas formas de organização social – e produtiva; novos conceitos para lidar com o entendimento, circunstancialmente imoral, do que seria uma dignificação social. Se não pode fugir pela floresta, juntar os seus próximos e fundar uma nação, o que reproduziria o ciclo de parentesco primitivisticamente sustentável, o sociólogo, esse Quixote do futuro, argumentará – aparentemente em vão e com a histeria dos visionários – pelas modificações concretas da dinâmica das recompensas vitais, na sociedade em que está inserido, funcionando como agente da complexificação social: demandando justiçamento na distribuição de bens simbólicos e materiais.

É por causa da sociologia que a demanda dos desprovidos é atendida; é graças à sociologia que a história se movimenta para realizar transformações produtivas que alterem a capacidade de suporte metassocial para expansões demográficas, para expansões da renda, para expansões dos limites da experiência do gozo. É a sociologia essa força da natureza que surge das incapacidades das condições presentes de atendimento das demandas individuais e que obriga a transformação socialmente beneficiadora dos significantes dessa teia sociobiológica que paira sobre a vida orgânica, direcionando a sociedade progressivamente para um alargamento mais universalizante da noção dos direitos de cada indivíduo. É como se a constituição da vida tivesse um dispositivo latente, um fato tendencial, uma “praga do bem-comum”, que obriga a sociedade a ceder e a expandir-se. Mas talvez seja melhor chamar a sociologia, por um olhar transistórico, de anti-praga, pois ela retira as ervas daninhas e permite ao corpo vital reproduzir-se e ampliar-se, tornando-o um só e maior.

Ilustração de Catrin Welz-Stein.

por uma teoria otimista da ingenuidade das vanguardas

Um filósofo poderia dizer que o impedimento de conhecer aquilo que corresponde à verdade é inerente à condição humana de conhecimento. E que, por meio de uma escolha, todo sujeito sai da dúvida e parte para a ação, executando aquilo que imagina ser o seu ato consciente. A isso, o arqueólogo poderá adicionar certa contribuição estatística, fazendo notar uma dada padronização das atitudes dos homens, por sempre ver-se em face de alguns modelos de sociedade e de alguns modelos de desenvolvimento de sociedades. E o historiador, por sua vez, perceberá, no decorrer dos fatos, com um olhar em retrospectiva, quais foram os enganos cometidos para que a história não se desenrolasse mais desejavelmente do ponto de vista ético-moral. Já o sociólogo talvez cometa um “engano desenganado”: por observar a forma como o desenvolvimento real da história se apresenta no presente, o sociólogo dá-se conta mais fortemente dos problemas imediatos, daquelas injustiças percebidas pelo senso-comum – e por isso aplica seu conhecimento para a política.

Todo político altruísta, nas sociedades humanas, tem o seu lado sociólogo, isto é, busca no presente as raízes de toda injustiça. E toda vanguarda, por seu teor político, apresenta, na sua origem, uma manifestação de conteúdo sociológico. O que a expressão noblesse oblige designa, ou seja, a importância política que adquirem aqueles que se incumbem de tarefas sociais como as de proteção e de generosidade, tem sua origem na ação política altruísta. É simples, portanto, relacioná-la à percepção sociológica de um pensamento vanguardista. Por exemplo, em um bando de caçadores-coletores em vias de desmembrar-se, aquele que percebe o distanciamento crescente de indivíduos do bando em relação aos benefícios da caça auferidos por seus líderes incumbir-se-á do papel de liderar uma dissidência, ocasionando uma diáspora. Da mesma forma, os líderes das vanguardas revolucionárias incumbir-se-ão da tarefa de procurar revolver a sociedade para que as demandas dos marginalizados sejam atendidas em detrimento dos mais poderosos.

O discurso de bem-comum, sempre atualizado pelo olhar dos novos sociólogos políticos, servirá como uma nova eclosão dos conflitos sociais – ou dos conflitos de classes sociais. E, embora os historiadores e arqueólogos tentem mostrar as raízes de tal sentimento sociologizante e político, as percepções sociológicas são, na verdade, o reflexo necessário dos desdobramentos de longa duração do caminhar da história, e surgem espontaneamente. Na história da URSS, para que se veja melhor a coisa, aquelas elites que se conformaram após uma atualização da sociedade com a estatização da esfera produtiva foram criticadas por percepções sociológicas que tiveram como resultado a Perestroika, ainda que o seu desfecho tenha sido trágico: uma sociedade insatisfeita com uma estrutura produtiva que marginalizava alguns e beneficiava outros, mesmo que o dinheiro já não tivesse mais tanta importância. Se a instituição da URSS teria sido um avanço ao abolir a propriedade privada e ao tornar o interesse estatal superior aos interesses individuais em economia, a Perestroika seria a atualização desse avanço, promovendo mais acesso das classes subalternas daquele regime à participação política e econômica, além de denunciar o privilégio das elites burocráticas e buscar atender aos desejos dos trabalhadores na esfera produtiva.

O curioso de se observar é que essas atualizações progressistas e éticas de reformulação do corpus moral e produtivo das sociedades sejam motivadas por indivíduos cuja abordagem sobre a realidade é de tom sociologizante. Mais curioso ainda é observar que suas ações, na verdade, representam apenas a consequência de um grande movimento histórico que se observa na longa duração: eles são as espumas, as ingênuas espumas das ondas, que são consequência de um grande movimento de marés, que se dá tão profundamente que o homem ainda não teria conseguido afundar-se tanto para descobrir. Peões, ou melhor, cavalos da história total, os sociólogos possuem uma força ingênua, que move a sua esfera consciente, mas cujo subconsciente é povoado por toda sorte de determinantes estruturais, anteriores, exteriores, econômicas, biológicas, químicas, físicas e metafísicas.

Agora, portanto, já posso dizer: a consequência histórica indesejável do dever nobre desses sociólogos, até que surjam outros para atualizarem dada história da luta de classes, provavelmente será, no entanto, a recorrência – enganados – numa injustiça histórica atrás da outra, com longos intervalos de anos, transformando os antigos defensores do bem-comum em privilegiados de “nobreza de espada”, até que o bem comum assuma finalmente a sua forma perfeita e total na vida social, concretizando-se o discurso que enuncia, algum dia. Todo sociólogo crê que já a encontrou, e lutará pela sua compleição, com a ingenuidade de um louvável bom homem, político; mas um filósofo talvez o diga, como uma consciência conservadora e fútil, que a sua escolha de verdade não executará o fim a que se propõe, da justiça total; e o historiador e o arqueólogo talvez digam que a raíz do problema é mais profunda. Não devemos dar ouvido aos filósofos, pois os humanos já conhecem a genética, o espaço e pesquisam bastante bem o fundo do mar para desistirem assim do seu poder transformador. Por isso, ouçamos melhor os historiadores e os arqueólogos, sem que eles nos deixem escapar a agudeza da observação sociológica – quasi intuitiva.

história econômica da imortalidade

O impulso vital parece-me ser o grande motivador das existências dos homens, uma vez que aqueles que protegem as vidas de cada indivíduo são alçados a posições de liderança. Mas também é o impulso vital que faz esses mesmos líderes quererem alçar tal posição de superioridade. A razão disso é porque provavelmente o impulso reprodutivo, “a força do gen”, fala mais alto, tendo como consequência que o mais forte ceda a vida aos outros, em troca do seu prestígio de homem bom, insígnia que garantirá aos seus herdeiros o prolongamento de sua linhagem. Dito de outra maneira, os organismos vivos, de uma maneira geral, esforçam-se para estabelecerem-se na terra o máximo de tempo possível, refletindo a dita força biológica no desejo pela vida e pela reprodução – que são anteriores, no sentido durkheimiano. Assim, os humanos mais fracos são levados a aceitarem a dominação, e os mais fortes a cederem parte de sua força.

O que acontece é que a pulsão incontrolável pela existência – e pela imortalidade, que se desdobra na criação de legados – é regra geral, que perpassa os escravos e os senhores, os plebeus e os nobres, os proletários e os burgueses. Como é importante para o senhor ceder aos seus súditos sempre mais vida, para que ele se enobreça e perpetue seu legado, também é irremediável que, conforme cresçam a plebe e os subalternos, também se estenda a eles o desejo pela imortalidade, pela continuidade de seu legado. Conforme a plebe aumenta, aumenta, então, o contingente de demandantes por perpetuação de linhagem, ampliando-se, assim, o quanto de si os líderes terão de dar ao povo. O desenvolvimento desse processo de expansão da demanda por prolongamento da linhagem, no entanto, só se torna possível se a produção material for capaz de dar conta de abastecer mais pessoas. No limite, essa dinâmica política é propícia a chegar a um nível tal, em dados momentos históricos, que a necessidade de revoluções social-produtivas se imporia, para atender-se o impulso vital que busca expansão. Maior é o legado de alguém quanto maior for a capacidade material e objetiva da sociedade que suplanta o prolongamento do seu gen.

Seguindo essa linha de raciocínio, permito-me dizer que ganho que o século da modernidade garantiu à filosofia e ao pensamento, como desenvolvimento dos esforços socio-produtivos da base da sociedade, foram a ciência e o niilismo metafísico. Tome-se o Romantismo: movimento que se seguiu à queda do Antigo Regime, exacerbação máxima do indivíduo e da vida íntima, tem como forte característica o abandono da noção de transcendentalidade, e até de transgeracionalidade. Não é por acaso que historicamente ele se localize como a espuma das Revoluções Industriais, surfando no crescimento vegetativo europeu. A partir do Romantismo, o impulso instintivo humano de perpetuação do seu tipo, que cada indivíduo comporta, foi intelectualizado; e então se percebeu o quão irracional poderia ser a busca pelo legado ou pela vida após a morte, estirpadas a nobreza e a religião.

E como instinto não se pode controlar, o desejo do gen encontrou na ciência uma muleta – e procurou na exponencialidade de geração de conhecimento a solução para o sua pulsão: os humanos, pela ciência, pela medicina, ampliam sua capacidade de conservar-se e de enaltecer a vida (o que seria a busca por aumento da expectativa de vida, por melhora da qualidade de vida, se não a confirmação dessa dinâmica social?). Inconscientemente, o impulso vital continua procurando a vida eterna: agora a individual, corporal, uma vez atingido determinado patamar de desenvolvimento das forças produtivas.

Talvez não seja demais dizer que a busca pela imortalidade nas três dimensões configura-se como o sinal atual do telos que o impulso vital impõe à vida, que se expressava mais simplesmente, no passado, na disputa material e econômica das famílias e dos povos ao longo dos séculos pela perpetuação do seu legado. O fenômeno do Romantismo corrobora esta ideia pela seguinte razão: uma vez eliminadas, ao menos em abstrato, as ideias de nobreza e legado – assim como eliminados os entraves produtivos à acumulação e à abundância econômica que a Revolução Industrial promoveu – os humanos dão-se conta das suas individualidades, das suas mortes, e da tragédia que elas representam em vida, já que não se admite mais que um legado ou que uma vida após a morte possam perpetuar a existência humana, agora desencantada; existência que habita, na prática, um organismo vivo individual, um corpo, e não mais uma entidade transcendental ou transgeracional.

Na esteira desse pensamento, nasce, então, o Realismo, como atitude demandista e universalizadora de desejos e necessidades humanas. A noção da corporiedade da alma, e de sua finitude, jamais abandonou o pensamento ocidental, por causa do ateísmo e do anticlericalismo, desde as Revoluções Liberais e Industriais – talvez infelizmente, no sentido de que a morte agora é mais retumbante –, mas ela fez um filho e um neto da maior importância: do Realismo, o filho, forma de arte que anuncia a sociedade que já assume a corporidade da alma com a dureza da consciência plena de um fato, nasceu o Futurismo, o seu neto, que deu à luz a Revolução Bolchevique, que foi inspirada pelo cientificismo absoluto. E no bojo dos intelectuais que a apoiaram, podemos encontrar excêntricos futuristas russos, da Idade de Prata e inspirados por ela, pais do Programa Espacial Soviético, amantes do imortalismo materialista moderno, como Nikolai Fedorov, alimentadores das esperanças – econômicas, materiais e existenciais – da humanidade.


Radicado no Rio de Janeiro, Antônio Castellar (1990), de pseudônimo Sereno Jovial, é ensaísta. Formado em Ciências Sociais pela Fundação Getúlio Vargas, tem interesse em pré-história, sociologia, antropologia, filosofia antiga e contemporânea, especialmente a filosofia russa da chamada Idade de Prata, das primeiras décadas do século XX. Antônio também tem interesse nas artes plásticas e nas suas críticas, circulando entre artistas e curadores e fazendo desse ambiente em que circula também um campo de pesquisa. Suas principais inspirações são o filósofo Boris Groys e suas referências, como Nikolai Fedorov e Leon Chestov, o sociólogo Pierre Bourdieu, o antropólogo Marshall Sahlins, além de Marx, Nietzsche e Kant.