As pipas se retaliavam. Quando em vez uma avalanche de pés descalços. Um dia pra molecada ficar sem banho, nem almoço. Era o festival.
À medida que o luz se curvava uns poucos as mantinham vivas no ar, via-se uma tocha distante no alto do morro. Uns acharam que era fogueira de São João. Chegou um sabido dizendo que ia subir. E logo um outro maior, invocado que não.
Mais cedo perto da feira, na esquina que tem três botequins colados, muito conhecida por isso, um malandro sentado num banco escolar de madeira foi pego. Os cascos das cervejas, que todas caíram na agitação, pagas. Na hora da xepa, muitos comentaram, poucos viram. Ação relâmpago, diriam. Na barraca de laranjas se espalhava que forças em cooperação o levaram. Numa perícia digna de filme.
No barraco que fora levado, apesar de falar até o que não sabia, o destino tava traçado. Antes, no entanto entregue pela polícia ao comando, tentou negociar. O resultado foi que chorou, esperneou, tentou calar. E berrou.
Havia algozes em funções definidas. Todo ato no cenário era bem decorado. Os instrumentos enfileirados à mesa. Afiavam. Dado que uns seguravam, amarravam, amordaçavam, outros pregavam, penduravam, desfiavam. Outros ainda se mantinham só para ouvir.
Longe de uma discrição de agentes especiais para caçar opositores políticos, esses carrascos não haviam pensado em se alistar, nem tinham ideologia. Muitos cresciam com os ídolos nas camisas de futebol, pedindo doce fiado às tias da rua. Sem qualquer promessa, ingressavam na firma. Obedientes ao chamado. Apanhados junto ao mecanismo. O vácuo preenchido. A partir daí ambições despertariam vorazes, que por fim, triturariam seus nervos. Depois de olheiro, avião, depois de vapor, soldado. Aí vinha comissão. Arma pesada na mão. Estava feito, era um homem.
Numa tarde dessas tirou um cochilo. Um conjunto de imagens confusas, compreendidas logo após. Havia um baile, um palco e havia mulheres ao lado, as peças eram sacadas, tiros dados em comemoração, algo como, os vermes tinham sido expulsos. Saía vangloriado.
Sem as unhas dos pés, os dedões quebrados, sem equilíbrio, foi sendo empurrado. Deixava para trás um débil fio de esperança. Desfazia-se ao passo que chegava, não sabia aonde. Era a via-crúcis. À frente, um calvário e nada mais.
Rodeado e exprimidos nos pneus. Quase despido com o corpo açoitado, rezou. Tentou rezar. Mas era tarde para a prece.
Depois de um tempo não havia figura ou semelhança. E, assim subiu ao céu o x9 em fuligens. O sol poente luzia penoso. O sopro que vinha da mata encontrava a rocha e descia como uivos de lobos saciados, qual sorrisos sórdidos. As pequenas partículas iam aderindo às superfícies, das pipas, ainda no ar, das ruas, das estruturas, ao caírem.
No entanto, o que sobrava ainda assim era trabalho, tinham quem o fizesse. Esse, logo após o serviço foi pra casa, levou o pão, tomou café. Lembrou que mãe reclamava tanto que chegava frio. Não pensaria mais naquilo, não se impressionava mais. Apenas agia. Instinto. Agia com o desprendimento de um estranho. E apesar, pelo incrível que pareça, sentia-se entre todos, útil.
Antes do final de semana teve o seu esperado baile.
Ansioso bebeu, carreirou, como se não houvesse dia seguinte. Vidrado. Sentiu-se, depois do primeiro grande porre, igual a bela sova que recebera do falecido tio. Adotado pelo varejo, tinha não mais que quatorze anos.


André Di Kabulla é cineasta e documentarista, fundador da produtora carioca Ventura Filmes, Contista, Poeta e Periférico da cidade do Rio.

Wallace Pato é um artista carioca e autodidata que iniciou seu trabalho há cerca de seis anos conectando as paisagens do Nordeste com as do imaginário carioca, em um exercício de crônica, pintando as paredes dessas ruas. Sua pintura vernacular conta histórias que ilustram referências da cultura brasileira. Essas narrações reúnem de festividades a crianças nas ruas, as cenas carnavalescas, as refeições e até os funerais. O trabalho do artista tem o respeito pela dissolução dos detalhes, compondo a construção da imagem com histórias familiares, nas palavras de Wallace: “Eu pinto sobre o subúrbio, sobre o Brasil. Tenho vários objetivos, mas acho que o maior deles é ser porta voz de quem nunca foi ouvido. Gente que é gigante tem muita força, carrega uma história enorme, muito nas costas e nunca tiveram a chance de falar, ou quando o fizeram, foram ofuscados”.


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Temos a alegria de anunciar a chegada do livro de contos “Vozes do Labirinto em Relatos Suburbanos, ou quinze minutos para cada conto em decomposição”, do escritor André Di Kabulla com pinturas de Wallace Pato. Na obra, somos conduzidos por uma nebulosa de cotidianos suburbanos […] Detrás desse verniz civilizatório, de que matéria se faz o próspero negócio dos senhores do imperialismo? Da tragédia das periferias globais. O que seria do menino condenado de guerra, preto de favela, não estivesse ele na ponta da baioneta do mundo? CLIQUE E COMPRE O SEU!