O que faz um romance político nunca é seu tema, mas sua sintaxe. Damián Tabarovsky

No recém-lançado Coros, Contrários, Massa, Flora Süssekind chama atenção para as formas corais nos mais diversos procedimentos artísticos empreendidos em nosso cenário cultural contemporâneo. A autora compreende que tal opção formal se conecta com o estilhaçamento do pacto social da Nova República, sobretudo, nos alarmantes números de mortes por violência registrados no país nesse período –cerca de 50 mil em média por ano. Desse permanente estado de luto coletivo, a subjetividade parece mesmo não dar conta senão valendo-se das intercorrências de outras linguagens.

Nos dezesseis fragmentos discursivos que compõem Vozes do Labirinto em Relatos Suburbanos ou Quinze Minutos para cada Conto em Decomposição, livro do carioca André Di Kabulla, verificam-se tais aspectos arrolados por Süssekind em suas investigações. São relatos breves cujo conteúdo é a massa de violência que não poupa ninguém nas margens e periferias das cidades brasileiras, notadamente, no Rio de Janeiro, em cujo bairro de Ramos o autor nasceu, cresceu e mora. Mas a notação geográfica, embora repique aqui e ali, não se apresenta como mapeamento. Importa antes a ideia mesma de periferia, áreas onde não há assistência ou presença do Estado salvo na ação dos agentes de segurança pública, pela violência e opressão à população.

O elemento coral em jogo aqui já se apresenta no texto à guisa de introdução o qual começa ecoando imagens de descobrimento, figuração de lendas e mitos. Não à toa, a primeira frase camoniana “Precipitam-se à espreita de lendas em mares nunca dantes navegados” é sucedida para registro quase pedagógico quando diz que as “estórias de fadas estão para o psicológico infantil como as lendas para as sociedades antigas”. Na sequência emerge a voz que se pode denominar como a do corifeu a apresentar o espetáculo que se verá, onde passado e futuro, com sua mitologia ou promessa, desaparecem, já que “Aqui, nada parecido, não mais que encontraremos presente o cotidiano.” Não há singularizações, identidades, épicas ou epopeias, porque afinal a “periocidade das ocorrências acabou com o exotismo.

Configuram outros elementos corais no texto de Kabulla, como a dispersão paratática em que situações e sujeitos estão no mesmo plano sem ter conexão entre si, entrelaçamento e a tensão contínua de forças contrárias.

No plano da linguagem observam-se a navegação parentética e registros formais que se deslocam entre dicções diversas como o discurso cartorial, historiográfico, a ausência de lirismo e da mimese. Os registros estão mesmo em decomposição, como prefigurado no título.

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Vale ressaltar outro dispositivo de não menor importância, as imagens de telas de Wallace Pato dispersas desde a capa. A potência plástica desse artista, ele também nascido na Zona Norte carioca, é contrastiva com a brutalidade dos relatos, conquanto os rostos dos negros de sua figuração são opacos e sem traços, como a energia repousada de Hilária Batista de Almeida sentada diante de travessas com acarajé, em movimento estudado como em Ginga, ocorrência lúdica em Piscinão de Ramos, e da têmpera persistente e contumaz como a que estampa a capa do livro, Deus fala pela Boca do Povo.

A recorrência do luto está presente já no primeiro conto, Ressureição de Cemitérios Antigos, que se amplifica historicamente para trás por meio de negação repetida ao longo de todo o terceiro parágrafo: “Não eram imigrantes refugiados, ou retirantes amaldiçoados pela seca. Não eram os acolhidos de Conselheiro, em Belo Monte. Os desabrigados da grande enchente de 66, não eram.” À insistência de não lastrear historicamente o grupo de homens e mulheres zumbis, encontra na denegação da última frase, “E ainda assim os eram”, a permanência secular de grande parte da população brasileira alijada do cinturão de direitos e bem-estar social dos poderes constituídos.

Os “seres de pedras” encerrados em grande e único manicômio tão anônimos e pecos do conto de abertura transfiguram-se e se desarticulam até no próprio corpo, de que é exemplo Dança dos Corpos, no qual a “paz do corpo morto” não interfere no princípio em nada para que no fim, num vaivém macabro, sua integridade já não mais se articula como objeto do qual não resta nada que se possa pilhar. Os sujeitos em trama não têm identidade, nome, são ocultos, apenas o território, que não é deles, resiste em sua impassividade.

Se a natureza repousa, as estruturas erguidas com mão-de-obra humana entram, como os corpos, em semelhante processo de decomposição, o que se pode observar em A Propriedade, em que se dá as ocupações verificadas nas metrópoles brasileiras e cuja repetição de termos opera como espelhamento entre o humano o não humano: “As estruturas abandonadas no terreno eram, sob a lente da alma, as mesmas abandonadas estruturas descarnadas daquela gente. Tratadas como os ossos daqueles esqueletos.

Outro dado das formas corais, a incapacidade de se diferenciar, irrompe em Abolição, figurando em looping a história de Preta, na teia de sua servidão escrava nos afazeres da casa grande, vinda menina de algum sertão com o sonho de ver o mar. A atemporalidade dribla o leitor propositalmente ao retardar a sinalização histórica, fazendo-o pensar tratar-se de alguma cativa do período imperial, mas que irrompe no presente: “Na delegacia de Pilares, para fins de depuração, dezoito de janeiro de dois mil e vinte e um, depois de ser liberada de depoimento, saiu com a certeza que sua senhora pagara a fiança, sequer fora algemada”.

A constituição dessa forma mosaica em que o discurso nunca se articula como unívoco, encontra no último dos contos, Tragédia Suburbana, o único narrado na primeira pessoa, uma falsa exceção. O narrador ouve e conta as peripécias amorosas dum personagem sedutor. Aqui o diálogo com Lima Barreto aponta para a clivagem de status social entre os habitantes do subúrbio e as elites do centro. As conquistas do “Dom Juan” são circunscritas, mas ele sonha mais alto. “Suas fãs se somavam, freneticamente, no período desses dois últimos meses, em Bonsucesso, Penha, Andaraí, Olaria, Rua São Januário, toda a Região da Leopoldina até Gericinó, já Marechal Hermes, Madureira, Acari, eram seu domínio, não contavam. De modo que só almejando o próximo passo: a Zona Sul.” Nesse que é um dos menores fragmentos do livro, o transbordamento do lirismo, pois os jogos e modos de amar contrapõem-se à violência dos demais relatos, abre-se como brecha esperançosa de redenção anímica. Mas o desfecho é a própria negação do almejado. Como se a fresta fosse incapaz de possibilitar a ultrapassagem e a anulação da diferença.

No posfácio, Juliana Aragão reforça a experiência coral que amarra todos os textos ao dizer que “todas essas histórias estão acontecendo ao mesmo tempo, neste momento, enquanto lemos este livro. E é possível que isso permaneça fazendo barulho dentro de quem lê.


André Nigri, jornalista e autor do romance Paralisia (2018) e do livro de contos Com a corda no pescoço (2021), publicados pela editora Reformatório.


André Di Kabulla é cineasta e documentarista, fundador da produtora carioca Ventura Filmes, Contista, Poeta e Periférico da cidade do Rio.

Wallace Pato é um artista carioca e autodidata que iniciou seu trabalho há cerca de seis anos conectando as paisagens do Nordeste com as do imaginário carioca, em um exercício de crônica, pintando as paredes dessas ruas. Sua pintura vernacular conta histórias que ilustram referências da cultura brasileira. Essas narrações reúnem de festividades a crianças nas ruas, as cenas carnavalescas, as refeições e até os funerais. O trabalho do artista tem o respeito pela dissolução dos detalhes, compondo a construção da imagem com histórias familiares, nas palavras de Wallace: “Eu pinto sobre o subúrbio, sobre o Brasil. Tenho vários objetivos, mas acho que o maior deles é ser porta voz de quem nunca foi ouvido. Gente que é gigante tem muita força, carrega uma história enorme, muito nas costas e nunca tiveram a chance de falar, ou quando o fizeram, foram ofuscados”.


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Temos a alegria de anunciar a chegada do livro de contos “Vozes do Labirinto em Relatos Suburbanos, ou quinze minutos para cada conto em decomposição”, do escritor André Di Kabulla com pinturas de Wallace Pato. Na obra, somos conduzidos por uma nebulosa de cotidianos suburbanos […] Detrás desse verniz civilizatório, de que matéria se faz o próspero negócio dos senhores do imperialismo? Da tragédia das periferias globais. O que seria do menino condenado de guerra, preto de favela, não estivesse ele na ponta da baioneta do mundo? CLIQUE E COMPRE O SEU!