I Concurso Petrobras CasaBloco de Artes Carnavalescas 2025
No alto do morro do Borel, o dia amanhecia como sempre: com o som dos primeiros passos nos becos e as movimentações dos trabalhadores, que pareciam acordar antes do sol. Mas, naquela semana, havia algo diferente no ar. A Unidos da Tijuca ensaiava seu samba-enredo, e os tambores da bateria ecoavam pelas vielas como um chamado. O samba falava de Logun Edé, um orixá que era rei e rapaz, caçador e príncipe. A história daquele rapaz começava a ressoar nas ruas como uma lenda que de repente, parecia estar acontecendo ali mesmo naquele espaço.
João um adolescente negro retinto de cabelo na régua e disfarce, tem 16 anos e descia a ladeira com pressa, como fazia todos os dias. Chinelo, mochila no ombro, ele corria para buscar pão antes de ir à escola. João cursava o Segundo ano do Ensino Médio. Na correria, tropeçou na bola de dois meninos mais novos, que jogam futebol na rua. “Qual foi, reizinho? Vai com calma aí!” – gritou um deles, rindo. Eles sempre chamavam João assim, “reizinho”, talvez por causa da maneira como ele andava, com o queixo erguido e o olhar firme, como se soubesse para onde estava indo, mesmo quando não sabia. Ou talvez fosse o respeito automático que os mais novos tinham por ele, o mais velho da turma que, de vez em quando, separava briga ou ajudava a consertar a pipa que não voava.
João riu de volta, mas aquele “reizinho” ficou na cabeça dele de um jeito diferente, como se carregasse algum significado que ele nunca tinha pensado antes. Rei? Eu? Onde já se viu?
Chegando à padaria, o rádio anunciava o samba enredo da Tijuca. A letra falava de Logun Edé como um orixá especial, que carregava a herança dourada de sua mãe, Oxum, e a força selvagem de seu pai, Erinlé, o Caçador de Elefantes . João não sabia muito sobre orixás, além de ser evangélico de criação nunca tinha ouvido falar de cultura afro brasileira na escola, o que é comum apesar da Lei 10.639/ 03 que versa sobre o seu ensino. Aquelas palavras grudaram nele. Dourado como Oxum. Forte como Erinlé. Príncipe. Caçador. Rei.
Enquanto subia de volta com o pão na mão, começou a olhar os detalhes ao redor. As mulheres quase todas negras na escadaria, trançando os cabelos das filhas com dedos ágeis e amor de rainha antes delas irem à escola. Os homens na obra, carregando sacos de cimento como se fossem escudos de guerreiros. Os meninos nos becos, driblando a bola com a destreza de verdadeiros caçadores, sempre em movimento, sempre em busca. João começou a enxergar o morro como ele realmente era.
Em cada lugar havia um reino escondido. Cada sorriso, cada oração, cada milagre com pouco dinheiro era uma prova de que a realeza não tinha abandonado aquele lugar. Oxum estava nas mães, que criavam seus filhos com doçura, beleza e uma força que não cabia em palavras. O Rei estava nos jovens, que corriam atrás de seus sonhos como quem caça uma vida melhor, mesmo quando tudo parecia contra. E Logun Edé? Ele estava nos meninos, nos adolescentes como João, que carregavam o peso da vida nas costas, mas ainda tinham no peito a leveza e na cabeça de Jovem negro uma coroa. Naquela noite, João resolveu ir à quadra da Unidos da Tijuca ouvir o samba. Queria ouvi-lo por inteiro. A bateria começava a tocar, e o chão tremia com o ritmo dos tambores. A letra falava de um guerreiro rei negro que brilhava como o sol, que pescava nos rios e caçava nas florestas.
Falava de um rei que carregava uma coroa de Rubi e de feitos inacreditaiveis. Tão poderosa que fazia tudo ao seu redor florescer.
João fechou os olhos e viu Logun Edé diante dele. Mas o que viu não foi só o orixá. Foi ele mesmo. Foi o reflexo de todos os jovens negros do morro que, como ele, tinham aprendido a sobreviver em um mundo que insistia em ignorar suas coroas. E se a gente não fosse só sobrevivente? – pensou João. E se, como Logun Edé, a gente fosse herdeiro de uma realeza que o mundo tentou apagar, mas que ainda brilha em nós? Enquanto descia a ladeira novamente, os garotos jogavam futebol como sempre. “Fala, reizinho!”, gritou um deles de novo. E, dessa vez, João respondeu de peito aberto: “Fala aí, reizinhos” e sorriu. Ele sabia. A coroa estava lá o tempo todo, mesmo que ninguém visse.
No morro, cada menino negro era um Logun Edé em potencial: herdeiro de um amor dourado e de uma força que nenhum obstáculo poderia vencer. A Unidos da Tijuca, com seu samba, fazia o que a escola tradicional quase nunca faz: mostrava que, para cada um daqueles jovens, havia um trono os esperando, fazendo as vezes, assim como as outras Escolas de samba de ensinar a cultura que é apagada.
João teve certeza de uma coisa, os meninos, jovens e homens negros reluzem como ouro, e essa é a prova viva que em cada rosto de pele retinta e pulsante há uma coroa de valor inestimável.
Locci Locci Logun Ede, viva o Carnaval.
KLEBER GONZAGA é um homem preto, psicólogo, nascido no bairro da Penha no Rio de Janeiro, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Professor Universitário, pesquisador em Psicologia Social com enfoque em políticas públicas e justiça social. Atualmente, orienta estágios e pesquisas voltadas para a Assistência Social e comunidades tradicionais, dedica-se à formação crítica e ao fortalecimento de práticas inclusivas e emancipadoras, é apaixonado por samba e carnaval.
A obra de arte que ilustra o conto é de ANDRÉ CUNHA, pernambucano de Recife, filho de pai carioca e mãe pernambucana, o quarto de sete filhos. É pai de duas filhas (Amanda e Samantha). Descendente de indígena (avó paterna), negros e brancos, procura permanentemente se encontrar. Sua arte carrega suas paixões e questiona verdades estabelecidas, a estética vigente, as meias verdades e os discursos prontos. Em 2000, aos 28 anos, mudou-se para São Paulo em seguida para Curitiba e estudou Direito (não concluindo o curso). Voltou para SP em 2005, onde morou durante 17 anos. Exercia a função de Consultor e Analista Tributário. Autodidata e apaixonado por Artes: as manifestações culturais de sua região, também é fascinado pelo cangaço e pela magia do carnaval e das escolas de samba – seus enredos e suas cores. Em 2010 foi um dos premiados da Exposição no Círculo Italiano de São Paulo, no Edifício Itália. Fundou o MIMAN – Minimuseu de Arte Naïf de Paraty. Foi participante de mostras de arte no Brasil e no Exterior, já tendo sido selecionado três vezes para a Bienal Naïfs do Brasil, em Piracicaba, SP, considerado a mais importante mostra de Arte Naif no Brasil.