Parecia impossível concluir a compra da passagem aérea para o tal festival de Parintins. Talvez fosse culpa da má vontade de ir, que por ser muita, fazia o site de vendas entrar em colapso. Fora escalado de última hora para cobrir a festa dos bois bumbás da ilha de Tupinalgumacoisa. Teve o azar de ainda estar no jornal quando o correspondente, que vai todos os anos, ligou para avisar que pegara a mais nova cepa de covid e mal conseguia sair da cama. Sobrou para ele, o quebra-galho do jornal. Todo mês era escalado às pressas para lugares que jamais escolheria ir. Mas voar até a Amazônia não passaria pela cabeça de Arthur nem se ele tivesse tomado uma garrafa de gin. Entretanto, não estava em posição de discutir. O patrão mandou e quem tem juízo e contas acumuladas para pagar, obedece. A situação estava feia lá pelo Rio de Janeiro e ele, um jornalista de uma empresa que se arrastava para não entrar no vermelho, não podia se dar ao luxo de negar uma reportagem. Na quinta tentativa, conseguiu concluir a compra. O voo para Manaus sairia às 9h da manhã seguinte e de lá pegaria outro voo para a cidade de Parintins. Saiu do jornal tarde noite, deitou do jeito que estava e programou o celular para as 6h.
Quando o despertador tocou, Arthur deu um salto da cama. Fazia tempo que não usava o celular para despertar. Como não tinha hora para entrar no jornal, acostumara-se a acordar quando a vizinha de cima começava a andar com seu salto agulha antes das 8h. Já sabia que era hora de levantar, tomar uma ducha e ir até a lanchonete da esquina, onde pedia a mesma coisa, todos os dias: um pão na chapa, uma vitamina de mamão e um cafezinho para o cérebro começar a funcionar. Dessa vez, acordou atônito, passou uns cinco minutos para rememorar o porquê de ter acordado tão cedo. Bateu com a mão na testa para ver se pegava no tranco e lembrou que seu voo sairia em menos de três horas. Procurou sua mala de mão, separou umas roupas frescas, pois já tinha sido alertado do calor infernal que assolava a ilha. Lembrou também de olhar se sua carteira de vacinação estava em dia, e ainda bem, estava. Tinha pavor de pegar malária. Um amigo passou oito meses para se recuperar da doença e ainda por cima teve que ficar sem beber uma gota sequer de álcool. Sem beber! Como ele suportaria ficar meses sem seu gin? Com essas coisas não se brinca. Para isso, Arthur sabia ser precavido.
O voo saiu no horário e o repórter queria aproveitar as quatro horas de viagem para ler um pouco sobre o festival que cobriria. O Moita tinha sido camarada. Mesmo doente, enviara um arquivo com tudo sobre a cidade, a festa, os lugares aonde ir etc. Fez até uma observação em letras garrafais sobre a quantidade de mulheres lindas que circulavam durante o festival. Arthur duvidou que num fim de mundo daquele existissem mulheres mais bonitas que as cariocas. Ajeitou-se na poltrona, pediu um copo d’água do comissário e se entregou à leitura. A história da cidade era interessante e as fotos da festa o deixaram bem impressionado. Tinha baixado um vídeo do festival do ano anterior e se impressionou ainda mais. Porém, o cansaço e o barulho do motor do avião pesaram seus olhos e quando deu por si, a aeromoça estava batendo levemente em seu ombro para que ele retornasse a poltrona para a posição de aterrissagem.

(no verso – Etiqueta da Retrospectiva de Di Cavalcanti MAM-SP, 1971)
Como faltavam duas horas para o próximo voo, Arthur não teve pressa para sair da aeronave. Tomou um susto quando foi recebido por um enorme bafo de calor. Chegou a pensar que algum motor ainda estava ligado atrás dele; mas ao sair da sanfona e entrar no saguão do aeroporto, entendeu que eram apenas o calor e o clima equatorial que davam as boas-vindas. Olhou para sua blusa e viu que já estava encharcada de suor. Passou a mão na testa e percebeu o quanto Manaus era úmida. Foi ao banheiro lavar o rosto e ao se olhar no espelho, viu que brilhava. Chamou uns três palavrões desconjurando o Moita, tomou um ar e se encaminhou para o embarque para a ilha de Tupinambarana, nome que ele repetiu seis vezes para não fazer feio diante dos outros repórteres.
A sala de embarque estava toda enfeitada com as cores do festival. Havia dançarinos se apresentando e inúmeros gringos em volta tirando foto. Ô, povo com cara de leso esses branquelos, olha… O voo estava lotado e a aeronave não era muito grande. Ainda bem que seriam apenas quarenta e cinco minutos até o destino. Aos poucos, Arthur foi se contagiando pela alegria das pessoas que esperavam ansiosas o aviso de que o embarque seria iniciado. O calor somado ao clima de festa, fez com que o carioca fosse até um bar e pedisse uma cerveja antes de voar para Parintins. Quando olhou o rótulo do refrigerante, que sempre fora vermelho, estava azul, a cor de um dos bois. Jaime então começou a entender a imensidão que lhe aguardava em uma ilha, que pelas fotos, parecia ínfima em meio às águas do rio Amazonas.
Assim que o avião decolou, Arthur pode ver as maravilhas e a beleza de um lugar que ele sempre desdenhara. Impossível não se sentir atraído e ao mesmo tempo amedrontado por aquelas águas negras que pareciam um espelho gigante, à medida que a aeronave se distanciava do solo. A floresta, que cobria a maior parte da paisagem, era extremamente fechada, um assombro de mata que ocupava ainda boa parte do território. De repente, pensou no quanto aquele lugar tinha a lhe oferecer. Sonhou com as dezenas de reportagens que poderia escrever para o jornal. Arrependeu-se de sua ignorância em nunca ter dado chance ao norte do país. Refletia no quanto ainda havia para ser propalado sobre todo aquele cenário. Corrigiria essa soberba a partir do festival. Faria a matéria com esmero, digna de capa do jornal da segunda-feira.
Os devaneios foram tantos que nem sentiu o tempo passar. O voo foi tranquilo, sob um sol que insistia em brilhar cada vez mais forte, como se fosse possível. Aterrissaram e Arthur, que só estava com a mala de mão, encaminhou-se para a saída, onde um rapaz simpático segurava um cartaz com seu nome.
⎯ Seja muito bem-vindo à ilha, dotô!
⎯ Pode me chamar de Arthur. Qual o seu nome?
⎯ Alfredo.
⎯ Então, Alfredo, me leva pro hotel e me conta mais dessa cidade que parece tão feliz!
⎯É a sua primeira vez aqui?
⎯ É, sim.
⎯ Ah, agora o senhor vai querer vir todo ano! Eu garanto que o senhor nunca viu uma festa igual a nossa!
A música que tocava durante o trajeto chamou sua atenção, tinha um ritmo gostoso e uma letra pra lá de original.
⎯ Quem tá cantando, hein, amigo?
⎯ O senhor nunca ouviu falar do Teixeira de Manaus?
⎯ Ah, ele foi um dos maiores artistas do amazonas nos anos oitenta e noventa. Mas eu escuto até hoje!
⎯ Vou anotar aqui para procurar saber mais sobre ele, obrigado!

Em poucas horas, a primeira noite do festival começaria. Enquanto dirigia, Alfredo informou que o primeiro boi a se apresentar seria o Caprichoso, das cores azul e branco. Explicou que cada boi tinha três horas para se apresentar e que em cada um dos três dias, uma história diferente era contada e todo o cenário, os carros alegóricos e as fantasias eram trocados e que enquanto um boi se apresentava, a torcida do boi contrário (era assim que eles se remetiam ao rival) tinha que ficar em silêncio, senão perdia ponto.
O repórter escutava a explicação maravilhado com a paixão com que o taxista pronunciava cada palavra. Reparou na camisa vermelha de Alfredo, o que significava que ele torcia para o boi garantido. À medida que o carro entrava na cidade, Arthur percebeu que as casas eram azuis de um lado e, do outro, vermelhas; e o que separava os oponentes era uma igreja. Estava cada vez mais impressionado com tudo o que via. As ruas estavam lotadas de gente transitando ou dançando na frente de um bar. Não podia acreditar, mas aquilo era muito melhor que o carnaval.
Quando chegou ao hotel, enfrentou fila para ser atendido e trombou com alguns colegas de profissão que também se hospedariam ali. Quinze minutos de espera e o atendente, então, entregou-lhe a chave do quarto. Arthur consultou o relógio e se apressou para tomar um banho e se vestir. O mesmo taxista voltaria em uma hora para levá-lo ao bumbódromo.
Ao entrar no local da apresentação, viu que os últimos raios de sol desapareciam, deixando o céu em tons de rosa e azul escurecido. Nem o calor de quase quarenta graus atrapalhou o deslumbre diante de seus olhos. Arthur não sabia se admirava aquele céu ou a arena dividida nas duas cores rivais, cujos refletores fizeram da noite, dia. A lotação era máxima no espaço destinado à imprensa. Ao redor, uma multidão aguardava o início da festa. No horário marcado, a queima de fogos anunciou o festival e milhares de pessoas gritavam. Quando a marujada (termo que aprendeu ser exclusivo do boi caprichoso) entrou, o povo foi ao delírio. O bumbódromo tremeu e Arthur foi tomado por uma emoção nunca experimentada. Era lindo; de arrepiar! Começou a filmar para não deixar escapar qualquer detalhe. As horas iam passando e ele nem se dava conta, completamente hipnotizado pelo que assistia. E ao anunciarem a chegada da cunhã poranga, a mulher mais bonita da tribo, Arthur se convenceu de que o paraíso era ali, dizendo a si mesmo:
“sinto muito, Moita! Ano que vem, a matéria sobre o festival de Parintins é minha de novo.”

Myriam Scotti nasceu em 1981, em Manaus (AM). É escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?”, foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo. Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos”. Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria conto. No ano passado, ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip.