A literatura brasileira contemporânea tem se caracterizado por uma atenção quase obsessiva à memória e à identidade. Autoficção, genealogia familiar, traumas históricos e trajetórias pessoais ocupam lugar central na produção literária, tanto de escritores renomados quanto de emergentes. Tal centralidade, no entanto, suscita reflexões sobre até que ponto a recorrência desses eixos tem enriquecido a literatura ou quando a tem saturado tematicamente, limitando o empenho estético.

O que se pode ver, à primeira vista, é a consolidação de um campo literário que enxerga na memória um recurso de autenticidade e autoridade narrativa, enquanto a exploração intensa da etnicidade, das questões de gênero, regionais ou familiares, colocam a literatura numa arena de debate e afirmação identitária.

No entanto, não seria descabido dizer que essa orientação pode apresentar certos limites. A concentração em memória e identidade pode gerar um efeito de autocitação e ainda de repetição. Muitas obras têm se tornado exercícios de registro autobiográfico e de reconstrução histórica, em detrimento da invenção e da experimentação formal. Obviamente, não podemos generalizar e dizer que na totalidade desse tipo de produção isso acontece; ainda assim, não podemos descartar o risco de que a literatura contemporânea se transforme em um grande catálogo de lembranças e afirmações identitárias, relegando a um espaço exíguo outros modos de complexidade ficcional.

Além disso, o predomínio desses temas tende, muitas vezes, a reforçar certos discursos acadêmicos e editoriais, em que a legitimidade das obras depende da proximidade com experiências de vida “relevantes” ou “representativas” — (as aspas aqui não são uma ironia, que fique claro). A partir disso não seria inoportuno dizer que tal fenômeno pode encurralar vozes que, embora inovadoras e provocativas, não se encaixam na moldura da memória pessoal ou da identidade reconhecível. E não caberia perguntar se um equilíbrio entre a função memorialista e o potencial criativo da ficção não poderia evitar que o resgate do passado e o retrato identitário se transformem num fim em si mesmos?

Por outro lado, não custa também observar que a literatura de memória e identidade tem produzido um discurso político significativo e que o resgate de histórias familiares, traumas coletivos e vivências marginalizadas contribui para a construção da pluralidade capaz de dialogar com questões sociais contemporâneas. O problema, portanto, não é a presença desses temas, mas o seu excesso — tendência que pode transformar a literatura em exercício de pura autorreferência, correndo-se o risco de uma saturação temática que reduz a perspectiva de transcendermos o passado e a voz estritamente pessoal.

Escrever não seria também incorporarmos a voz do outro e nos tornarmos um outro, bem distinto de nós mesmos?


Paulo Sandrini é escritor, mestre e doutor em Letras pela UFPR. Participou de coletâneas literárias no Brasil e no exterior. Autor de dez livros, entre eles “O estranho hábito de dormir em pé” e “Santa Bula de Todos os Remédios”. Atualmente, é editor e diretor de arte da Kafka Edições e pesquisador na área dos Estudos Culturais.

A pintura que acompanha a crítica é intitulada Maestro, obra da pintora Djanira.

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