A Philos conversou com artista carioca Gabriel Perelo, que esteve conosco na sessão Experimente da Casa Philos durante a Festa Literária Internacional de Paraty 2023. O papo-bate permeou as referências musicais do cantor, a relação com a cidade do Rio de Janeiro e as múltiplas linguagens da arte.
O meu processo parte do campo das sensações, não costumo ir muito pros sentidos quando o assunto é criação, meus impulsos me guiam.
Quais as principais referências musicais dos seus últimos singles e do primeiro disco lançado e como você se inspira a partir delas para criar a sua obra?
O meu processo parte do campo das sensações, não costumo ir muito pros sentidos quando o assunto é criação, meus impulsos me guiam. Acho que organizo a estética do trabalho por completo a partir das minhas referências sensoriais que incluem o audiovisual. Comecei a buscar essa forma de manifestar os afetos e potências transformadoras da minha arte no universo da boemia que é algo que permeia muito minha existência, inclusive minha formação em Artes Cênicas (2019) diz muito sobre isso quando escolho fazer do meu TCC um show chamado EPIDERME, de onde partiu todo o conceito do álbum. Os filmes de cabaret do Bob Fosse, a história do samba e da malandragem nos filmes brasileiros sobre o elã periférico, a sutileza-sarcasmo do blasé francês dentro da nouvelle vague, tudo isso foi tempero pro meu caldo! Mas voltando aos profissionais da música: acho que me conectei sempre aos que misturam ritmos, culturas e linguagens, pessoas do mundo: Rita Lee, Elis Regina, Sade, Björk, Mayra Andrade, Erykah Badu, Ney Matogrosso, e aos absolutos boêmios como Zeca Pagodinho e Angela Rô Rô.
Eu costumo ser dominado pelas minhas músicas diante de uma escuta interna, é sempre de dentro pra fora porque o outro também sou eu.
O que você gostaria de desvelar debaixo das camadas que sua música representa? Se estamos falando em uma epiderme musical, qual espaço ela quer ocupar nesse corpo artístico em expansão?

De uns tempos pra cá eu entendi que agi da maneira certa quando dei espaço para minha música ser quem ela quisesse ser, acho que já componho dando liberdade de forma para ela ser moldada por si só. Gosto disso de dizerem que o trabalho do artista é como um filho, talvez isso represente meu modo de educar os meus, porque acho que o que escrevo e as melodias que saem – de algum lugar misterioso -, estão fora do meu controle, o que controlo é quais ficam registradas. A epiderme é uma camada que está sendo trocada o tempo todo, e minhas canções são como tatuagens que vamos ressignificando com o tempo, a cada hora que a pele é trocada olhamos de forma diferente para o que cada uma representa. O que componho é verdadeiro, chega um momento que não importa tanto a estética atual mas a verdade que senti em fazê-las naquele momento.
O que você acha que sua arte faz por você e pelo outro? Você costuma se imaginar no lugar de quem ouve e como sua música é recebida?
Eu costumo ser dominado pelas minhas músicas diante de uma escuta interna, é sempre de dentro pra fora porque o outro também sou eu. Os gostos e desejos são muitos, a opinião estética muda o tempo todo. Olhar pro público é importante obviamente, até porque quero ser ouvido. Mas a afinidade com as pessoas que admiram seu trabalho é uma coisa que se conquista com o tempo. Construí EPIDERME dentro de um universo específico e isso envolve muitas questões, não é um single solto com a intenção de atingir uma demanda comercial, mas algo que coloco minha vivência pessoal, minha observação de mundo, minha experiência. Não vejo apenas uma autoficção mas algo que pode agregar outras existências, algo que eu acho importante de ser aflorado. Eu gostaria de receber esse tipo de arte, pra mim isso é um ato político e diz muito.
Passeando por estilos e linguagens diversas, seus últimos singles apresentaram diversas facetas de um compositor e intérprete disposto a experimentar. O que podemos seguir esperando?

Ser um artista independente nos faz aprender na marra a respeitar os processos. Comecei a compor a maioria das canções de EPIDERME em 2019, consegui lançar o álbum apenas no final de 2023. Hoje já compus todas as canções do próximo disco e no momento pesquiso referências para a produção, tenho o conceito formado desde o início do ano passado e isso me faz querer já cantar as músicas novas, mesmo quando as pessoas ainda não ouviram as do primeiro disco! [Risos].
Minhas referências continuam coerentes, mas a música eletrônica tomou um lugar especial na minha vivência clubber pós-pandemia, isso muda bastante o estilo mas não abala a verdade do que componho. Por isso acho crucial respeitar o que cada momento pede dentro da arte, entrei numa pesquisa intensa e de campo para enxergar minha identidade, muitos podem achar que é coisa de “vagabundo” ir para festas com frequência ou estar nos lugares boêmios, eu acredito em outra visão que resgata uma ancestralidade e uma mudança no arquétipo do “trabalhador”, a dos que muitas vezes conservam a imagem do trabalho burocrático como oficial e perdem a oportunidade serem felizes fazendo o que amam por que se preocupam com o julgamento de outrem.
Por fim, e como somos uma revista literária, quais os livros que não podemos nunca deixar de ler?
Eu adoro um existencialismo! [Risos]. Quando adolescente o livro que me prendeu de fato foi o meu preferido até hoje que se chama “Aprendendo a Viver” da Clarice Lispector [e qualquer outro né?], gosto muito dos do Valter Hugo Mãe, principalmente “A desumanização”, “Memórias da Plantação” da Grada Kilomba onde ela faz uma decupagem linda de várias questões de interseccionalidade e por último um livro que me pegou muito recentemente foi um best-seller que eu nem esperava tanta influência mas fui surpreendido: “Essencialismo: a disciplinada busca por menos”, de Greg McKeown.
