A Philos conversou com Thomaz Pacheco, fundador da OMA Galeria e da Nano Art Market, sobre o papel social da arte, a educação do mercado e os rumos da cultura contemporânea.
Antes de se tornar um dos nomes mais atuantes do mercado de arte no Brasil, Thomaz Pacheco construiu sua trajetória em um ambiente aparentemente distante do circuito cultural: a indústria automobilística. Foram mais de dez anos atuando em desenvolvimento e gestão de projetos em uma multinacional alemã, experiência que o colocou em contato direto com uma cultura corporativa fortemente orientada a processos, eficiência e planejamento estratégico.
“Eu venho de uma experiência de mais de dez anos em desenvolvimento e gestão de projetos em um mercado muito competitivo e desenvolvido, que é o mercado automobilístico, trabalhando para uma empresa alemã, e os alemães são extremamente orientados a processos. Pela Volkswagen, trabalhei no Brasil, Alemanha e Estados Unidos, e viver um longo tempo no exterior me colocou em contato com diversas culturas diferentes. Partindo desse pressuposto inicial, elaborei uma grande pesquisa e um extenso plano de negócios para montar a OMA Galeria, e percebi um mercado, por um lado com um potencial imenso no Brasil, e por outro extremamente vulnerável, não regulado, e com muita, mas muita oportunidade para crescer e se desenvolver.”
Quando funda a OMA Galeria, no ABC Paulista, há treze anos, Thomaz traz consigo essa bagagem híbrida — entre rigor técnico e inquietação crítica — para enfrentar um mercado que ele logo identifica como potente, porém frágil, pouco regulado e carente de estruturas formativas sólidas.
“Diante desses fatores, ainda antes da pandemia, eu comecei um estudo para aumentar a inserção da minha galeria na internet. Ao final desse plano, percebi que ele poderia atender a todas as galerias e não só à minha, e assim nasceu a Nano Art Market, uma startup que tem diversas iniciativas para o mercado de arte.”
Ao contrário de discursos que anunciam rupturas definitivas, Thomaz Pacheco observa o impacto das tecnologias digitais no campo da arte a partir de uma perspectiva histórica. Desde a Antiguidade, passando pela Idade Média, a lógica de valorização, posse e circulação de obras se mantém surpreendentemente semelhante.
“Não vejo uma mudança estrutural no meio da arte por conta dessas novas tecnologias. Penso que, por um lado, serão sempre ferramentas para os artistas; como resultado, adicionaremos um ou outro suporte digital, mas não muito distante disso. Por outro, as tecnologias estão transformando as relações humanas e com o meio e, sob esse aspecto, influenciam fortemente o pensamento crítico, despertam reflexões tremendas acerca das novas relações e novos valores. Minha resposta se baseia na observação de que, desde a Idade Média — ou já na Antiguidade —, havia um sistema de valorização e posse de obras de arte. E, desde então, o mundo já passou por inúmeras transformações tão ou mais significativas quanto as de hoje, inclusive no âmbito digital, e o mercado da arte segue sendo muito semelhante. O que mudou fundamentalmente foi a sua orientação, a função social da arte; isso sim, creio que seguirá mudando ao longo do tempo.”
Quando fala sobre a arte contemporânea produzida no Brasil, Thomaz Pacheco insiste na ideia de diversidade como força estruturante. Sua curadoria de referências percorre diferentes regiões do país e diferentes linguagens, revelando um interesse particular por artistas que refletem criticamente sobre o ordinário, sobre a subjetividade e sobre as tensões sociais que atravessam a experiência brasileira. Essa escuta atenta ao presente — feita por artistas vivos, produzindo sobre o agora — é, para Thomaz, uma das maiores riquezas do sistema da arte no país e um campo ainda pouco explorado em toda a sua potência.
E lhe indagamos: Se existem versos e metaversos distintos no mundo digital, quando empenhamos esforços para olhares mais concretos, percebemos: são muitos os eus líricos e vozes que contam todos os dias as histórias e lutas de um povo brasileiro a partir da arte e da literatura que se faz no Sul dos Trópicos. Para você, quem são essas vozes da arte contemporânea que não devemos deixar de ouvir?
“Ah, excelente pergunta! Penso que Rosana Paulino, Jorge Menna Barreto, Naine Terena, Dalton Paula, Cildo Meireles, o Coletivo Mahku… Nossa! São tantos nomes e tão diversos; é justamente essa a maior riqueza e oportunidade do sistema da arte no Brasil que eu mencionei na primeira questão. Alguns desses tive, inclusive, o privilégio de ter como professores. Mas acho que vou aproveitar esse espaço valioso para tratar de nomes menos comuns à maioria das pessoas, mas que têm um pensamento tão relevante quanto os anteriores para compartilhar com a gente. Começo essa lista, então, com Carla Duncan (PA) e Luiz Pasqualini (SP), que nos mostram uma riqueza tão diversa no cotidiano mais ordinário, a beleza nas coisas simples da vida; depois Andrey Rossi (SP) e Fabio Magalhães (BA), que exploram o limite frágil e algumas contradições da vida humana em pinturas que impressionam pela riqueza de detalhes; destaco também Marlene Stamm (PR), que, de forma obsessivo-compulsiva, reflete os diversos aspectos da memória e o valor que ela tem para a formação da nossa subjetividade; ainda Marcelo Monteiro (PR) e Eduardo Freitas (PR), que refletem a relevância da força de trabalho para a formação integral do ser e as dialéticas da exploração do trabalho na lógica capitalista e liberal; também Thiago Toes (PR), que de alguma forma reflete a beleza da fé, nas suas mais variadas vertentes, para justificar a grandeza e a beleza infinita da vida no que é frágil, humilde e sem aparência; e acho que, por último, nessa lista bem diminuta, Renan Marcondes (SP), que reflete o ofício do artista e algumas incoerências do sistema da arte por meio da performance. São todos artistas contemporâneos, jovens, vivos, produzindo atualmente e sobre a atualidade, com contribuições relevantes para a formação do pensamento crítico.”

À frente da OMA Galeria, Thomaz entende a curadoria como um gesto político e social. Sua atuação parte de uma pergunta constante: de que maneira uma galeria pode contribuir para a construção do pensamento crítico coletivo?
“Eu me pergunto permanentemente qual é o recorte curatorial da galeria que eu dirijo e como ela contribui para a construção do pensamento crítico acerca de diversos temas relevantes para a sociedade, e acredito que essa seja justamente a colaboração que eu posso trazer: reunir artistas que estejam refletindo temas contemporâneos, como identidade, raça, o cotidiano, o trabalho, a vida, a fé, a memória e, não menos importante, mas exatamente por sermos do circuito da arte, problematizar o próprio circuito. São temas que, ao serem trabalhados também na arte, nos ajudam a ter uma compreensão maior e melhor da vida. Nesse sentido, tenho duas atuações mais específicas: primeiro, ser esse meio de, ainda em vida, ecoar a voz desses artistas para enriquecer o debate; e segundo, institucionalizar esses trabalhos para que eles sejam a memória de um tempo vivido.”
Existe uma arte brasileira?
“Penso que sim, existe uma arte brasileira. Não consigo imaginar uma identidade que dê conta de refletir a rica diversidade cultural do país, que mistura influências indígenas, africanas e europeias e manifestações diversas, da arte popular à contemporânea. Mas ela passa, com certeza, pelo artesanato regional, retrata a história da sociedade brasileira, nasce do encontro de diversas culturas, mistura religiosidade com a mão de obra dos mestres populares, artistas proletários, operários, suburbanos e, por isso, é autêntica, diversa e rompe com estereótipos.”
Se a Nano Art Market nasce de um diagnóstico sobre as fragilidades do mercado de arte brasileiro, sua principal resposta está na formação. Para Thomaz, elevar o nível de consciência coletiva é a única forma de tornar o mercado mais transparente, menos vulnerável e verdadeiramente sustentável. A qualificação, nesse contexto, não é apenas estratégia mercadológica, mas um legado. E perguntamos quais as estratégias mercadológicas que a arte, os colecionadores e os artistas criaram para despontar hoje entre os nomes de relevância nacional.
“Qualificação! Dentre as várias iniciativas da Nano — os leilões, o marketplace, a feira, os NFTs —, todas essas iniciativas que já abrimos e outras que ainda abriremos são só ferramentas para veicular o trabalho dos artistas. Mas a Escola Nano de Arte e Mercado, essa é, sem dúvida, a maior, mais robusta, que tem maior alcance e que traz um resultado mais efetivo para o sistema. Para se ter uma ideia, no final de 2025 ultrapassamos o número de 6.600 matrículas na Nano. É muita gente se qualificando com as discussões mais relevantes do mercado de arte, um lugar que reúne artistas com curadores, colecionadores, galeristas, imprensa, academia, museus, críticos — tudo, absolutamente todos os agentes que fazem parte do circuito de arte —, e isso é transformador. Sobe a régua de consciência do mercado e todo mundo ganha com isso. Lembra lá da primeira pergunta, ‘de onde vinha a inspiração para a criação da Nano’, quando eu comentei de um mercado sem regulação, sem transparência, vulnerável? A Escola Nano é essa contribuição fundamental para o mercado de arte e um legado para ficar para a posteridade.”
A criação do Nano Art Hub sintetiza uma postura que atravessa toda a atuação de Thomaz Pacheco: a aposta no coletivo. Idealizado fora dos modelos tradicionais de feira de arte, o evento foi integralmente financiado pela Nano Art Market, sem custos para galerias ou expositores. O sucesso da iniciativa — medido em público, vendas e impacto — mostrou que é possível romper com formatos excludentes e propor outras lógicas de circulação e visibilidade. E nós, da Philos, tivemos a oportunidade de expandir as ações da Casa Philos e apresentar nossa primeira exposição em São Paulo, Esperem o que quiserem. Milhares de pessoas visitaram a mostra, que percorreu três ciclos ao longo de novembro de 2023 e fevereiro de 2024, movimentando o fazer artístico, o mercado e ampliando as vozes de centenas de artistas.
“Nós nunca tínhamos feito uma feira de arte antes, nem é o nosso core, mas foi uma importante experiência e um sucesso tremendo. O formato não existe no mundo inteiro. Foi 100% financiado pela Nano. Foram mais de 60 galerias, museus, editoras, espaços independentes, tudo financiado pela Nano. Ninguém pagou nada para estar no Art Hub. O nosso sucesso dependia do sucesso dos expositores, inclusive financeiro — só seríamos remunerados com um percentual das vendas de vocês. E foi um resultado extraordinário: foram centenas de obras vendidas, dezenas de milhares de visitantes, centenas de milhares de reais investidos e um alcance gigante, além de um evento impecável. Poucas feiras no mundo entregam a estrutura que entregamos no Art Hub, tudo sem custo para as galerias, porque queríamos romper com um modelo no qual não acreditamos, e mostramos que é possível fazer diferente.”
E fala sobre o futuro:
“Para o futuro, queremos testar outras teses: queremos criar uma ferramenta de transparência de preços e valores negociados no mercado de arte, criar uma regulação para art advisors, trabalhar na regulação do setor, atacar a lavagem de dinheiro no mundo da arte, ampliar o acesso e, com isso, aumentar o tamanho do nosso mercado. Fazer todo um trabalho de base, que seria um trabalho de associações do setor, mas que infelizmente também não temos associações fortes e, então, talvez esse impulso tenha mesmo que partir da iniciativa privada. É como aconteceu recentemente com o mercado financeiro, com o surgimento dos bancos digitais e as fintechs, que acabou por qualificar as pessoas, educar para o setor e aumentar consideravelmente o número de pessoas investindo melhor o seu dinheiro, mudando a vida das famílias para melhor. Essa é a ambição da Nano. Depois, no futuro, podemos repetir algumas ações que deram certo, como o Art Hub, mas por enquanto é hora de testar muita coisa; estamos apenas começando.”
Nascido e formado em São Bernardo do Campo, no coração do ABC Paulista, Thomaz Pacheco carrega na própria trajetória as marcas de uma região historicamente ligada ao trabalho industrial, à organização coletiva e à luta por direitos.
“Bem, sou do ABC Paulista, especificamente de São Bernardo. Fui letrado no trabalho, dentro da indústria metalúrgica, por isso tenho um DNA coletivo, um DNA de luta. Minha orientação é sempre do nós para o eu, nunca do eu para o nós. Os colegas de profissão que me conhecem no meio da arte já experienciaram isso. Cito um exemplo que ilustra bem isso: na pandemia foi criado um grupo de WhatsApp somente de galeristas, atualmente com quase 70 galerias, ao qual, algum tempo depois, foi dado o nome de Partilha. Nesse grupo, eu dividi uma ideia que tinha testado e dado certo na OMA e que foi um sucesso tremendo de venda de obras de arte quando replicamos coletivamente, mesmo durante o período da pandemia. Foi, para muitas galerias, o maior pico de vendas já registrado. Lembro que ultrapassamos os sete dígitos em vendas, centenas de obras, centenas de artistas contemplados, um sucesso, um trabalho coletivo. Penso que isso resume um pouco a minha atuação, embora nem todos reconheçam ou não estejam acostumados com esse tipo de postura.”
A ARTE COMO RESPOSTA À INSUFICIÊNCIA DA VIDA
Para Thomaz Pacheco, a pergunta sobre o papel das artes e da literatura na sociedade não exige grandes rodeios. Ele recorre a um dos clichês mais repetidos — e, justamente por isso, mais verdadeiros — do pensamento artístico:
“Sem dúvida! Poderia divagar muito sobre esse aspecto aqui, mas penso que estaria pregando para convertidos… acho que aqui cabe aquele clichê gigantesco das artes: a arte existe porque a vida não basta.”
E, como não poderia deixar de ser, somos uma revista de literatura e arte e gostaríamos de saber quais os livros que não podemos deixar de ler.
“Aproveitando o rumo da nossa conversa, vou indicar um livro que também li recentemente, a partir da indicação de um querido amigo e professor, Miguel Chaia, que se chama Van Gogh, o suicidado da sociedade, de Antonin Artaud.”
Ao evocar Van Gogh como exemplo máximo de alguém esmagado por uma lógica produtivista e utilitária, Artaud revela como a sociedade capitalista tende a excluir, isolar e adoecer aqueles que produzem sem finalidade prática imediata. A escolha da obra não é casual:
“O livro trata da pressão social sobre a pessoa, principalmente sobre o diferente, o inovador. E o grande exemplo é Van Gogh, para demonstrar como a sociedade capitalista pressiona o artista, pois ele produz em liberdade, faz coisas que não têm utilidade e vive para exercer sua arte. E a sociedade controladora não admite essas ações que não seguem regras; daí que a sociedade exclui, desgasta, isola e até assassina o artista, o diferente.”
Outra leitura indicada percorre um caminho distinto, porém complementar. Fé e Existência – Por uma espiritualidade que toca a terra, do pastor André Farias, aborda questões espirituais a partir de uma perspectiva concreta, encarnada no cotidiano.
“Uma outra indicação, de um gênero bem diferente, é o livro Fé e Existência – Por uma espiritualidade que toca a terra, do pastor André Farias. Curioso que eu conheci o André em um casamento de uma amiga da minha esposa; assim como eu, ele também era o agregado e não conhecia ninguém naquela ocasião, e passamos o casamento todo batendo papo sobre fé e religiosidade, e depois outros casamentos também, e hoje viramos amigos. No livro, ele faz relações bastante terrenas e reais de temas fundamentais para a construção da nossa subjetividade e trata de forma bem palpável da eternidade, de Deus, Jesus Cristo e da fé — temas que sempre foram do meu interesse e com os quais sempre tive uma relação controversa, mas que se tornaram mais factíveis a partir dessa leitura.”
Thomaz Pacheco é administrador de empresas, graduado também em gestão de projetos e gestão cultural. Inaugurou, há treze anos, no ABC Paulista, a OMA Galeria, que se destaca por seu viés formador crítico e social. Foi curador da Pinacoteca de São Bernardo e professor convidado em universidades e programas de educação não formal nos últimos anos. É fundador da Nano Art Market, a maior e mais relevante Escola de Mercado de Arte no país, com mais de 6.600 alunos.