Parei em frente ao prédio. No verão é sem ódio. Coisa de gente com dentes bem brancos. Janelas grandes. Dava para ver o teto da sala do apartamento do primeiro andar. Já buzinei para a pessoa descer. Domingo é muita entrega. Queijo – bacon – alface – maionese – carne – pão – tomate – cebola. Tudo artesal. Apertei o interfone. Porteiro EAD. Um quatro um. Evair. Pediu para esperar. Fiquei lá com a sacola na mão. Pode subir? Voz no interfone. Não consigo. Muita encomenda. Mais espera.

Não posso subir. Tô com pressa. Eu não posso descer. Respondeu. No verão é sem ódio. Seria bom ajudar os outros. A rua estava vazia. Não pode fazer a gentileza de subir? Gentileza gera gentileza, li na camiseta de alguém outro dia. O problema é que, se eu subir na casa de todo mundo, eu atraso a entrega de todo mundo, entendeu? Ficou mudo. Um quatro um. Seu Evair, vai descer ou posso ir embora? Você tem que subir, filho da puta. É sua obrigação entregar o lanche. E o lanche dos outros? Eu ganho por entrega, não por porta, Evair. Tava pronto  para ir embora. Não gosto de subir na casa dos outros. Fico esquisito. Não sei socializar. 

Evair apareceu. Baixo. Dentão branco. Disse para eu entregar a porra do lanche dele, que ele queria que gente como eu soubesse o lugar que gente como eu não sabia, que ele é gente de respeito, que eu estava desrespeitando a casa dele, gente dele, de educação como ele. No verão é sem ódio. Já segurei o capacete firme. Era só uma na cabeça. [Taurus. 7.65.] Mostrou o cano e disse para eu ficar quieto. Que agora eu seria educado e obediente para subir, limpar as minhas botas no capacho, deixar o lanche na mesa e ainda servir para ele. Faria o necessário para que eu aprendesse bons modos. O cano na minha cabeça. Rua vazia. Entrei. 

Lugar bonito. Poltrona brilhante como o piso. Fogão não sei o que lá, daqueles que não precisa de gás. Balcão de madeira boa. Gente de bem tem coisas de gente de bem. Palavrão bobo saía da boca do seu Evair. Sozinho. Apartamento gigante. Só um cachorro que parecia de pelúcia. Fui com a cara dele. Olhar triste. O mesmo que o meu. Quase falou comigo. Queria dizer pra eu matar logo ele, quebrar a porra daquele dente branco de tanto socar o lanche com a minha bota. Salvação. Agora não dá. Seu dono tá com a arma na minha carcaça. 

Vai pegar o prato! Educação se ensina assim. Tem mais é que servir gente como eu. Entendeu? Pobre do caralho. Escória! Pega o prato ali e coloca o lanche nele. Vai logo que já deve tá frio. No verão é preciso lembrar que chove. E muita chuva dá enchente. E, quando as ruas alagam, o carro de rico fica, mas o busão dos pobres tem chance de passar pelo cantinho. É nesta hora que eles são o que são. Tá do seu gosto, seu Evair? Ele mastigava com a boca aberta. Comia feio. Salivava algumas vezes. Arma na mão, mirando a minha cabeça. Não sabia engolir direito. O Pelúcia estava mais perto de mim do que dele. Achei graça. Lavei a louça. Evair sentado com os cotovelos no balcão. [Taurus. 7.65.] Descansou a arma e deslizou o dedo indicador no cano. Groselhando. Dentão branco com o verde da alface grudada no canino. Já fez imposto de renda na sua vida? Isso aqui na minha mão, você sabe o que é? E isso aqui no meu bolso, imagina? É poder. Poder de mandar você fazer a porra que pobre tem que fazer.

Pelúcia começou a latir para a chuva. Ia para a janela e trotava de volta. Cachorro rico com jeito de caramelo. Vou fazer uma live em selfie para a divulgação de nossa conversa. É preciso informar. Veja, entregador. Não tenho ódio. Não quero algo que possa colocar em risco a sua vida. Quero ensinar. Sinto que tenho um dever com o meu país. E, claro, você não tem a mesma clareza do que eu para poder entender. 

Ele se crescendo. Rindo com as reações. Milhares de views em segundos. Entediou rápido. Abaixou o celular. Arma na mesa. E começou a ficar confortável com a minha obediência civil. Vai vendo, Evair. Mas a campainha tocou, e ele correu para abrir a porta da sala. Não deu para pensar em nada. Fiquei estático. A mulher entrou. Dessas que vão em retiro espiritual caro. Dessas que comem pão de fermentação natural. Dentão branco também. Malhada. Mais de sessenta, acho. Falante. Fiquei incrivelmente aguçada para conhecer o seu experimento, Evair. Ele caído. Queria comer ela. Mas não conseguia. Acho. Só você mesmo para armar algo corajoso, sério e esclarecedor nos tempos de hoje. O arrombado ficou vermelho. Tímido. Educação. Literatura. Igreja evangélica. Casamento. Cotas raciais. Gente pobre. Casamento de pessoas do mesmo sexo, dos outros. Aborto dos outros. Educação dos outros. Roupas dos outros. Transexuais dos outros. A cor dos outros. O Nordeste dos outros. A vacina dos outros. O país dos outros. Falaram para caralho. Dos outros.

Para eles, só eles mesmo. Tá bom. Deixa pra lá. Papo subindo igual aranha. Eu servindo. [Um dos vinhos mais famosos do mundo.] Vai, serve a gente e vê se aprende algo. Preto burro. Pobre. Preguiçoso. E eu guardando as ideias. No verão é sem ódio. Cadê o abridor? Não encontro, senhor. Meti essa. Pelúcia abanou o rabo. Parou de chover. A noite indo. [Château Lafite Rothschild, 2006.] Abri. Servi. Brindes e risadagem. Tão feliz, né? Evair com a taça numa mão e a arma na outra. Sou bom de conta. Fiquei subserviente. Bonzinho. Eu e o Pelúcia, que se ligou rápido. Quarenta e oito minutos, mais ou menos, né? Ela resolveu pegar na arma. Tocou curiosa. Evair felizão. Calor demais.

Aqueles segundos que gosto. Não toda vez. Abridor no pescoço. Várias e várias perfuradas na goela de Evair. Ela foi a segunda. A cara dos dois foi boa. Sangue espirrando na minha cara, no chão, ele ainda rastejou até a porta. Dei botinada demais. Dentão branco quebrando. Ainda no chão. Várias. E ela? Pouco. Duas perfuradas. Acho. Desmaiou rápido e Pelúcia foi lá lamber o sangue dela. Peguei Evair ainda vivo. Ele tentava estancar o sangue do pescoço com as mãos. Vai descer não, seu Evair? Não ouvi! Repeti a pergunta com ele no alto feito saco de cimento na cabeça. Vai descer não, seu Evair? O vinho tava bom, seu Evair? E o lanchinho, gostoso? Arrombado do caralho. Certeza que ele ouviu antes de eu tacar ele lá embaixo pela janela. Primeiro andar é de boa. Ficou se mexendo. Verme morre assim. Rebatendo. Catei a arma, o Pelúcia, liguei a moto e vazei. Ambulância chegando [PLACA FJG0H19].

Trocava marcha já na Rebouças. Achei graça. Pelúcia – Caramelo abanava o rabo por dentro da minha jaqueta. Chovia de novo. O verão é bom.


Capa de Rabada, livro de Alessandro Araujo.
Capa de Rabada, livro de Alessandro Araujo.

Alessandro Araujo é paulistano, filho de pernambucanos, autor de Rabada (Patuá, 2024) e Longe de todas aquelas nuvens (Folhas de Relva, 2020).
Já colaborou para diversos jornais, revistas e coletâneas: Rascunho, RelevO, Diário de S.Paulo, Philos, Bula, CULT, Selvageria, Realidades Estilhaçadas (Mondru, 2023). Pela Universidade Presbiteriana Mackenzie é graduado em Marketing, graduando em Letras e especialista em Língua portuguesa e literatura.

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Um comentário sobre ldquo;“Abre caminho”, estreia da coluna “Muganga”, de Alessandro Araujo

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