Cerca de 200 fotografias tiradas por Agnès Varda (1928-2019) entre as décadas de 1950 e 1960, em diálogo com sua obra cinematográfica, estão reunidas em exposição no IMS-SP. As imagens, muitas delas inéditas, registram viagens por China, Cuba, França, Portugal e Estados Unidos, revelando o olhar social e afetuoso da artista franco-belga sobre o cotidiano, a política e as pessoas que filmou e fotografou ao longo da vida.

Fotografia AGNÈS VARDA — Cinema: a exposição, em cartaz no IMS, com curadoria de João Fernandes, Rosalie Varda e Horrana Santoz, é um verdadeiro presente. Ali, Varda nos conduz por diversas viagens ao redor de lugares e também no diálogo entre fotografia e cinema. Sua força estética atravessou fronteiras geográficas, formais e afetivas com o mesmo olhar inquieto e livre, capturando no ordinário a epifania.

Retrato de uma mulher durante dança Carabalí Isuama, de origem francesa do Haiti, Santiago, Cuba, 1963. Impressão digital póstuma a partir de slide colorido 6×6 © Espólio Agnès Varda. Fundo Agnès Varda, em empréstimo de longa duração ao Institut pour la photographie

Antes de se tornar uma das grandes vozes do cinema, Varda formou-se como fotógrafa. Sua maneira de olhar surge na observação atenta das pessoas e das paisagens, sejam elas quais forem. Ela captura gestos, expressões faciais, frutas na feira, experiências numa rua qualquer e nos revela, agudamente, aspectos sensíveis de nós mesmos, como no filme A Ópera-Mouffe: uma viagem dentro da própria Paris, um diário entre o sonho e o real, filmado nas ruas do bairro onde vivia, um retrato poético das pessoas comuns, das pequenas existências que insistem em viver, encontros e deslocamentos, pensando o cinema e a vida em diálogo.

Cuba, 1963. Impressão digital póstuma a partir de Kodachrome 24×36 © Espólio Agnès Varda.

O gesto, a subjetividade e a criação são as questões centrais da exposição a partir do “olhar viajante” de Agnès Varda, que, com vários recursos singulares e a partir de linguagens diversas, constrói uma ética e uma poética visual. Com os seus espelhos estendidos na praia — que Agnès utiliza como recurso para pensar o estatuto da imagem e da temporalidade — temos alguém que fabrica imagens e, também, atua nessas imagens. Caminhar pela exposição é perceber a vivacidade de tudo que está em seu cinema, mesmo do que não está diretamente ali: seus espelhos e praias além-tempo, paisagens e retratos capturados de maneira espontânea pelos espelhos, uma topografia da memória com um sotaque particular, a captura fina do encontro com o mundo e com o tempo, a humanidade em devolver algo às pessoas e aos lugares. Cada imagem produzida parece revelar a paixão por algo inapreensível, que reinventa a vida e o próprio cinema a partir da presença de um real que cria uma impossibilidade de desvendar tudo. Aberta ao não sentido, deslizando amorosamente pela natureza frágil, lacunar e misteriosa da imagem, Varda fez, de maneira errática e inventiva, sua reescritura do mundo e do tempo.

Varda foi tema de meu mestrado e seguiu me acompanhando pela vida. Sua maneira de escrever o mundo é um farol que nos ensina sobre generosidade, honestidade intelectual e abertura perpétua ao desconhecido. Varda não recuava frente ao lugar em que a vida pulsa e nos pede tomada de posição, mas o fazia olhando para a dúvida, para o informe. Seu pensamento era ato, transfiguração de uma ética, e mesmo quando sentia raiva ou indignação, transmitia junto disso uma esperança sagaz e crítica que reparava ou remodelava tudo.

Autorretrato no estúdio com sua câmera fotográfica, Rue Daguerre, Paris, 1956.

Foi com o cinema de Varda que aprendi (filme por filme) a tocar a ferida e alcançar a cicatriz. Na exposição do IMS, com brilhante curadoria, podemos acompanhar a maneira como ela encarou a desmedida da vida e do mundo, dando-lhe a exata medida. Fascinante perceber em cada viagem um clarão eterno a nos dar pistas de como se pode tocar o íntimo e o político na mesma medida. Sua relação com a fotografia e o cinema, aberta ao instável e trêmulo da existência, encontra o grandioso em tudo: das pequenezas ao imenso enigma há o limiar que reinstaura o que importa na vida. No atrito que o seu pensamento convoca, é possível tocar a dor, a ambiguidade, o mistério do mundo e das coisas, mas, com muita generosidade, sua relação tão aguda e crítica com a imagem também nos oferta uma espécie de colo metafísico para onde podemos retornar.

A exposição revela aquilo que a vida e o cinema de Varda já nos entregam: às vezes, com o pouco se toca a emergência, um pouco que é muito e que pode nos levar a sair do curso comum onde tudo é previsível. Mais do que fissuras, interessam os encontros que fazem com a dimensão do impossível. Varda recusa a melancolia, mas aceita tudo que se perde para que uma escrita (um pensamento) possa se efetivar de forma honesta, testemunhando a necessidade de se responder ao que irrompe como impasse através da invenção.

Para Varda, mesmo a revolução é feita a partir de uma escrita que reconhece o vazio no centro da língua, o fulcro infernal que nos acossa e interroga. Tudo é, para ela, beleza e ferida a um só tempo, fazendo-nos então recordar o poema de Paul Celan:

“a dor dorme com as palavras…
dorme e vai buscar nomes…
dorme e, a dormir, morre e renasce.
Uma semente germina, sabias?
Germina, germina, uma semente da noite,
nas ondas, um povo começa a crescer…”


Bianca Coutinho Dias é ensaísta, psicanalista, pesquisadora, crítica de arte e curadora. Especialista em História da arte pela FAAP, mestre em estudos contemporâneos das artes pela Universidade Federal Fluminense, doutoranda em memória social na UNI- RIO. Escreve sobre artes plásticas, cinema, literatura, psicanálise e sobre tudo mais que pode movimentar e reinventar o mundo.

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Publicado por:Philos

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