Lalo de Almeida [fogo] & Luciano Candisani [água]

Reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera, o bioma Pantanal – uma das maiores planícies inundáveis do planeta -, e que em 2020 viveu sua grande tragédia ambiental; é o tema de ÁGUA PANTANAL FOGO, exposição manifesto realizada pelo Instituto Tomie Ohtake em parceria com o Documenta Pantanal.

Com curadoria de Eder Chiodetto e patrocínio do Itaú e CSN, a mostra reúne fotografias de Lalo de Almeida e Luciano Candisani, dois dos mais proeminentes fotodocumentaristas brasileiros, além de apresentar mapas, livros, infográficos e uma sala de vídeos que auxiliam a compor um panorama potente do Pantanal e de suas urgências.

Lalo de Almeida. Veado morto sobre pasto queimado próximo à fazenda São Francisco do Perigara. Barão de Melgaço (MT), 2020

Lalo de Almeida focou suas lentes no fogo que assolou o Pantanal durante os incêndios de 2020, devastando aproximadamente 26% da área e resultando na morte de 17 milhões de animais. Suas imagens circularam globalmente, desempenhando um papel crucial ao alertar a sociedade, a comunidade científica, o governo brasileiro e organizações internacionais sobre a gravidade do ocorrido. Parte delas, sobretudo o registro de um bugio ajoelhado e carbonizado, conferiu a Lalo o prestigioso prêmio World Press Photo na categoria “Ambiente”.

Lalo de Almeida. Macaco bugio carbonizado por incêndio florestal devastador na fazenda Santa Tereza, região da serra do Amolar. Corumbá (MS), 2020

No começo de outubro de 2020, um grande foco de incêndio desceu as encostas da serra do Amolar e atingiu em cheio a fazenda Santa Tereza. Era uma área de vegetação alta, e as labaredas chegavam a dezenas de metros. Não pudemos nos aproximar muito, porque o incêndio consumia a vegetação numa velocidade incrível. O fogo em movimento fazia um barulho ensurdecedor, semelhante a uma turbina de avião. No dia seguinte, depois que o incêndio atravessou a fazenda, saí para fotografar, acompanhado do gerente, Rafael Galvão. A floresta tinha se tornado um paliteiro de árvores carbonizadas, com o chão coberto de cinzas bem claras. Parecia que tinha nevado. Um cenário surreal. O fogo passou com tal intensidade e violência que nem mesmo os animais mais rápidos e inteligentes conseguiram escapar. Aves calcinadas nos galhos das árvores não tiveram tempo de voar. Antas e sucuris não conseguiram chegar à lagoa que teria sido sua salvação. Mais à frente, em meio àquele cenário devastador, um macaco bugio carbonizado parecia uma figura humana se arrastando para fugir das chamas. Foi a última foto que fiz dessa cobertura dos incêndios do Pantanal em 2020.  —Lalo de Almeida

Eu e o repórter da Folha de S.Paulo Fabiano Maisonnave estávamos a caminho da fazenda São Francisco do Perigara, em Barão de Melgaço. O cenário às margens da estrada de terra era apocalíptico. Tudo estava cinza e preto. Animais atordoados, alguns feridos, atravessavam a estrada com frequência. No meio de um campo todo queimado, havia um ponto marrom. Quando nos aproximamos, vimos que era um veado morto. Do outro lado da estrada, um filhote assustado observava o corpo da mãe, sem reagir a nossa presença. Alguns metros mais à frente, embaixo de uma árvore, um bando de macacos-prego carbonizados. Eram dezenas, adultos e filhotes, mortos, lado a lado. Ainda estávamos no começo da cobertura dos incêndios no Pantanal, mas foi a partir desse dia que entendemos o tamanho da tragédia que estava acontecendo na região. —Lalo de Almeida

Luciano Candisani, especializado em fotografar ecossistemas ao redor do mundo, traz uma série de imagens da água, sejam elas submersas, terrestres ou aéreas. Suas fotografias, caracterizadas por uma rara combinação de excelência técnica e expressividade, foram produzidas em condições complexas durante as cheias pantaneiras, resultando em um acervo iconográfico de suma importância.

Passei muitas horas remando sozinho em busca de ângulos capazes de revelar os extraordinários jardins de macrófitas aquáticas formados durante o período da cheia, nesse curso de água intermitente formado pelas águas de inundação. Minha curiosidade por esses ambientes moldados pela água, surgida aos quinze anos, na minha primeira viagem ao Pantanal, me levaria, mais tarde, a voltar numerosas vezes à região, com o objetivo único de explorar suas águas misteriosas. Nos últimos dez anos, passei centenas de horas submerso nos domínios de jacarés, sucuris, piranhas e ariranhas, sempre a poucos centímetros dessas criaturas. Também voei a bordo de monomotores, buscando entender, do alto, os contornos e padrões gerais das paisagens aquáticas, invisíveis ao nível do solo. As fotografias deste trabalho nasceram desse esforço de interpretação. De longe ou de perto, elas jamais prescindem do fio condutor líquido: a água está presente em todas as imagens, assim como em tudo que tem vida. Luciano Candisani

Luciano Candisani. A 1,5 metro da câmera, jacaré abre a boca à espera dos cardumes que descem ao sabor da correnteza quando a água escorre dos campos inundados para os rios na vazante. Fazenda Barra Mansa, Pantanal da Nhecolândia (MS), abril 2010

Segundo o curador, Eder Chiodetto, ambos os fotógrafos são:

Cronistas visuais que frequentemente buscam parcerias com cientistas e pesquisadores. Para obter o resultado exposto nessa mostra, criam logísticas complexas e se expõem a vários tipos de perigo. É em trabalhos como esses, que aliam idealismo, paixão e militância, que a fotografia alcança seu ápice, tornando-se uma janela aberta a revelar as idiossincrasias e o sublime do mundo. 

O Pantanal ameaçado

Os desafios para a preservação do bioma compartilhado por Brasil, Bolívia e Paraguai são imensos. Os incêndios históricos de 2020, que devastaram uma extensão de quase 50.000 km², chamaram a atenção de todo o mundo, mas são apenas um dos fatores que degradam a região. Ecossistema que funciona como elo entre diferentes biomas, o Pantanal é regido por um complexo ciclo de águas e banhado por uma série de rios, muitos desses com suas nascentes localizadas fora do bioma, no Cerrado sul-mato-grossense e no sul da Amazônia mato-grossense. A destruição dessas nascentes com o desmatamento relacionado às práticas da monocultura e da pecuária, além da mineração ilegal, contribuem para o assoreamento dos rios pantaneiros, outro problema grave que assola a região.

Luciano Candisani. Vazante do Mangabal. Pantanal da Nhecolândia (MS), março 2011

Segundo Sandro Menezes Silva, Professor da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e pesquisador auxiliar da exposição, as ameaças ao Pantanal incluem a pressão pelo desmatamento, os grandes projetos de infraestrutura regional, como a hidrovia no rio Paraguai, a mineração, a pesca predatória, a caça ilegal, a introdução de espécies exóticas invasoras e a poluição da água:

A emergência climática, com um aumento importante de temperaturas médias previsto para os próximos anos, agrava os fatores que produzem perda hídrica e incêndios avassaladores. Com efeitos interdependentes, elas afetam de formas diversas cada região da planície. Reserva de água e vida, regulador do regime hídrico de amplas regiões, fonte de biodiversidade, o Pantanal dá sinais de alerta.

Luciano Candisani. Ponto de ressurgência de água no subsolo calcário do rio Olho-d’água, um dos muitos que nascem nos planaltos e abastecem o Pantanal. RPPN Fazenda Cabeceira do Prata, Jardim (MS), fevereiro 2011
os fotógrafos

Lalo de Almeida estudou fotografia no Istituto Europeo di Design em Milão, na Itália. Fotodocumentarista, colabora há trinta anos com o jornal Folha de S.Paulo, produzindo reportagens visuais e narrativas multimídia sobre temas como meio ambiente e desigualdades sociais. Entre outras, suas imagens integram as séries de reportagens “A batalha de Belo Monte” (2013), “Um mundo de muros” (2017), “Crise do clima” (2018) e “Desigualdade global” (2019), todas ganhadoras de prêmios internacionais. Em 2021, sua série de fotografias “Pantanal em chamas”, publicada pelo mesmo jornal ao longo de 2020, ganhou o World Press Photo, principal premiação do fotojornalismo internacional, na categoria Meio Ambiente. No ano seguinte, 2021, foi eleito o fotógrafo ibero-americano do ano pelo Pictures of the Year (POY) Latam, concurso dedicado à fotografia documental na América Latina. Paralelamente, vem desenvolvendo, desde o início de sua carreira, trabalhos independentes de documentação fotográfica, como o projeto Distopia amazônica, que retrata a destruição da floresta em ações de desmatamento, incêndios, mineração e a invasão de terras indígenas. O trabalho recebeu o Eugene Smith Grant in Humanistic Photography e foi o vencedor global, na categoria Projetos de Longo Prazo, do World Press Photo 2022.

Luciano Candisani. Pantaneiro de pé sobre canoa, visto de dentro d’água. Assim como a paisagem, a cultura e modo de vida no Pantanal foram forjados pela água. Vazante do Mangabal, Pantanal da Nhecolândia (MS), março 2011

Luciano Candisani aprendeu a fotografar debaixo d’água sozinho, na adolescência, no litoral norte de São Paulo, motivado por sua ligação com o mar. Mais tarde, estudante e estagiário no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, produziu suas primeiras reportagens fotográficas, ao integrar expedições científicas à Antártica e à Patagônia. Colaborador da revista National Geographic desde 2000, seus ensaios visuais sobre ecossistemas e culturas tradicionais ao redor do mundo, que circulam em veículos especializados e compõem exposições no Brasil e no exterior, são movidos pelo desejo de mostrar os grandes espaços naturais remanescentes e alertar para a urgência de salvaguardar territórios e culturas em risco. No Pantanal, fez trabalhos de repercussão internacional, como a reportagem “Into the Mouth of the Caiman”, ganhadora do Wildlife Photographer of the Year, um dos prêmios mais importantes da fotografia de natureza, concedido pelo Museu de História Natural de Londres. Expôs as imagens do ensaio Haenyeo, mulheres do mar, sobre mergulhadoras anciãs da ilha de Jeju, na Coreia do Sul, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, em 2019. Uma seleção das imagens que produziu ao longo de dez anos em regiões diversas do Pantanal compõe seu livro Pantanal terra d’água (Vento Leste, 2014).

o Documenta Pantanal

O Documenta Pantanal, realizadora da exposição em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, é uma iniciativa que conecta profissionais de áreas diversas em torno da urgência de tornar as fragilidades e as riquezas do Pantanal Mato-grossense mais conhecido do público. Para as diretoras do projeto Mônica Guimarães e Teresa Bracher:

Ao longo de seus cinco anos de existência, o Documenta Pantanal vem se empenhando em apontar os efeitos das mudanças climáticas e da ação humana sobre o bioma em filmes, livros e campanhas, entre outras ações, sendo Água Pantanal Fogo a primeira exposição realizada pela iniciativa.


Exposição: ÁGUA PANTANAL FOGO, com curadoria de Eder Chiodetto, patrocínio do Itaú e CSN, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até 12 de maio de 2024, na Av. Faria Lima 201, entrada pela Rua Coropé, 88, Pinheiros, SP. Metrô mais próximo: Estação Faria Lima/Linha 4 (amarela). De terça a domingo, das 11h às 19h. Entrada franca.

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