Uma das figuras centrais no Carnaval de Salvador, onde atua há mais de 45 anos, o artista Alberto Pitta tem recebido, no Brasil e no exterior, um crescente reconhecimento de sua produção, e participa da 36ª Bienal de São Paulo, a convite de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, que em 2023 já havia incluído obras suas na coletiva “O Quilombismo”, na Haus der Kulturen der Welt, em Berlim. Este ano, Alberto Pitta participou da exposição “Joie Collective – Apprendre a flamboyer”, no Palais de Tokyo, em Paris, entre outras. Na Nara Roesler São Paulo, Alberto Pitta irá mostrar 24 trabalhos inéditos e recentes, em pintura e serigrafia sobre tela, além de desenhos sobre papel que mostram seu processo criativo, e ainda um carrinho de madeira, alusivo aos usados por vendedores de cafezinho em Salvador. A curadoria é de Galciani Neves.

Obra de “Àkùko, Eiyéle e Ekodidé – Uma revoada de Alberto Pitta”

A Nara Roesler São Paulo tem o prazer de convidar para a abertura da exposição “Àkùko, Eiyéle e Ekodidé – Uma revoada de Alberto Pitta”, com 24 obras recentes e inéditas do artista nascido em Salvador, em 1961. Na abertura da exposição, em 2 de setembro de 2025, às 18h, será lançado o livro “Alberto Pitta” (Nara Roesler Books, 2025) e texto de Galciani Neves – curadora da mostra – além de uma entrevista dada pelo artista a Jareh Das, curadora quevive entre a África Ocidental e o Reino Unido. A introdução é de Vik Muniz, amigo do artista desde que ambos participaram da exposição “A Quietude da Terra: vida cotidiana, arte contemporânea e projeto axé”, com curadoria de France Morin, no Museu de Arte Moderna da Bahia, em 2000.

Na exposição, estarão pinturas e serigrafias sobre tela e um carrinho de cafezinho, em madeira – uma referência aos coloridos carrinhos usados por ambulantes para vender cafezinho em Salvador, e também ao trabalho mostrado na coletiva “A Quietude da Terra”, em 2000. Em uma vitrine, estarão desenhos sobre papel, de várias épocas, que mostram seu processo criativo.

Galciani Neves assinala que na produção de Alberto Pitta “muitas imagens começam em traços a lápis no papel”. “Dali, migram para a tela, quase sempre em grande formato. O processo ocorre aos poucos, cada camada adicionada, cada cor reconfigura o espaço pictórico, enriquece-o de informação visual. Pitta cria cenas com as texturas. Quando vistas de longe, as telas parecemtransformar os personagens e os fundos numtodo-paisagem. De perto, ressaltam suas muitase pequenas texturas e estampas. A sobreposiçãode texturas, o ‘avizinhamento’ de formas e a convivência de cores constituem uma totalidademuito complexa, sugestiva de distintas percepçõesda imagem”. 

HISTÓRIAS PRIMORDIAIS

A curadora observa que nos trabalhos de Alberto Pitta “as formulações espirituais são traduções visuais que apresentam as divindades, os orixás e seusensinamentos”. “Um compêndio de símbolos reinterpretados pelo artista prima pela beleza das formas. As histórias primordiais contadas nas telas identificam as figuras que no passado mítico participaram dos acontecimentos e que no agora ocorrem como chaves de decifração oracular da vida. Sua produção envolve um ver como artistaque rima com aprender sobre a vida”.

Alberto Pitta foi criado entre panos e tecidos, trabalhados por sua mãe, a ialorixá Anísia da Rocha Pitta e Silva, conhecida como Santinha de Oyá, do Ilê Axé Oyá, costureira e bordadeira do elaborado ponto richelieu, além de educadora. Desde cedo o artista compreendeu a importância das vestimentas como ferramentas de transmissão das cosmo visões africanas, uma forma de inserir o homem na natureza e colocá-lo em contato com seus ancestrais.

Na entrevista dada a Jareh Das – cocuradora da mostra “Catch the Invisible” [Capturar o invisível], na Galerie Atiss, em Dacar, no ano passado, em que Pitta fez a escultura monumental “O barco do assentamento” – ele conta que a serigrafia“ permite a produção em grande escala, embora ainda artesanal”. “Tenho um acervo de mais de duzentas matrizes serigráficas, desenvolvidas ao longo de mais de 45 anos. Em minhas obras faço sobreposições de diversas estampas e cores, criando diferentes composições com resultados ímpares e quase infinitos. Quando Bonaventure [Soh Bejeng Ndikung, curador da 36ª Bienal de São Paulo] esteve aqui em meu ateliê, em 2024, e viu todas as matrizes enfileiradas, as chamou de ‘biblioteca’. Nunca havia pensado nas matrizes sob esse aspecto, mas é algo que faz muito sentido, pois por meio dessa técnica descobri uma formapoderosa de comunicação, que transcende a alfabetização tradicional. A estampa se tornou uma maneira de ‘escrever’ no tecido para quem não sabeler, e com isso proporcionar o ‘encontro de analfabetos’ no meio do Carnaval para contar nossa história, celebrar nosso legado e honrar nossa herança. Daqueles que vêm da academia e têm interesse manifesto pelos blocos afro e desfilam nessas organizações – pessoas que não são do candomblé ou que não estão ligadas a essa cultura precisam ler nas palavras para poder entender, tentar entender – com aqueles que nãotiveram a oportunidade de ir à escola, mas que, por outro lado, sabem ler os símbolos e signos ali depositados. Passei a ver os têxteis como uma segunda pele, um meio pelo qual poderíamos simbolicamente ‘tatuar’ nossa identidade nos corpos negros suados, transformando-os em expressões móveis e livres da cultura”. 

Galciani Neves aponta o “senso de coletividade” existente no ambiente em que vive Alberto Pitta como elemento fundamental no trabalho do artista. “Localizado no bairro do Pirajá, em Salvador, oateliê de Pitta habita o mesmo espaço do Instituto Oyá, fundado por Mãe Santinha de Oyá em 1990”, relata. “O Instituto nasceu com vocação educativa, oferecendo programação de arte-educação e aulas de reforço escolar para as crianças da vizinhança. Pitta já trabalhava com criaçõesvisuais estampadas em vestimentas para blocosde Carnaval desde o final dos anos 1970; nadécada de 1980, passou a produzir estampas para o Olodum. Em 1998, quando criou o Cortejo Afro,o Instituto ganhou mais força ao diversificar suas atividades: cursos de corte e costura, oficinas deestamparia, aulas de música e capoeira. O ateliê de Pitta brotou do âmago dessas atividades e cresceu porque tudo acontecia junto, coma vibração das pessoas que frequentavame conviviam com todo esse ecossistema”.

PITTA PENSA COM ARTE

“Por articular sua produção de maneira indissociável de toda essa multiplicidade de atividades, linguagens e instâncias vitais, porconviver com as pessoas que frequentam eusufruem da programação oferecida ou queparticipam de seus projetos, e agindo com rigore uma escuta muito sensível aos processos deexperimentação poética, Pitta pensa com arte, desde sua raiz, como uma espécie de pedagogiada alegria.” Galciani Neves

ÀKÙKO, EIYÉLE E EKODIDÉ 

A curadora destaca que na exposição três pássaros “aparecem com protagonismo nas telas de Pitta: Àkùko, Eiyéle e Ekodidé se espalham a partir de uma organização cromática do espaço da galeria Nara Roesler”.

“Eles habitam a primeira série de trabalhos, na qual predominam composições em preto, branco, vermelho e amarelo, como se dessem boas-vindas ao público; em seguida explodem em cores vibrantes e composições multicoloridas, para encantar; e, por fim, acontecem na calmaria de telas brancas – onde distintos matizes de branco compõem o trabalho”. Galciani Neves

Galciani Neves explica que

“na ampla cultura yorubá os pássaros se apresentam como seres divinos”. “São guardiões das comunidades, evocam energia positiva e guiam as pessoas em situações adversas. Esta reunião de obras revigora, assim, o sentido de revoada: voar em bando, como aves da mesma espécie; coreografar no céu uma coletividade; migrar junto; mover-serumo a um destino certo.” Galciani Neves

MENSAGEIRO DO TEMPO

Àkùko “é frequentemente associado a um galo – o mensageiro do tempo, que anuncia o dia, que explica a ancestralidade e afirma a continuidadeda vida. Eiyéle é a pomba branca, que traz a paz, aharmonia e a bem-aventurança. Por sua elegânciae plumagem, Eiyéle também simboliza honra e prosperidade. Ekodidé é a única pena vermelhade um pássaro ou o papagaio, um símbolo deproteção, vitalidade, realeza. Sua pena é umelemento natural e uma presença essencial nos rituais de iniciação, para afastar energias negativas e consagrar objetos”, conta Galciani Neves.

Ela complementa:

“Apresentar esses seres no campo da arte é acreditar que sua revoada pode ser um sopro de transformação para reanimar os ares, reorganizaros pensamentos, renovar as esperanças, refazer as conexões. O gesto artístico e insurgente de Pitta – como nos diz a poeta, pesquisadora e dramaturga brasileira Leda Maria Martins – é um dos que mais transformam, pois afeta mas imagens estéticas inscritas como únicas e verdadeiras. Por isso, trata-se de um gesto que, por refazer as narrativas e apresentar novos caminhos para enxergar o mundo, nos mobiliza a viver com esperança (“o fermento da revolução”, o que faz emergir o novo, segundo o filósofo e professor sul-coreano Byung-Chul Han) e nos encoraja a reivindicar ambientes onde possamos celebrar, nos alegrar e regozijar.” Galciani Neves

MUSEU E A RUA

Vik Muniz, na introdução do livro, afirma que “nos panos dos abadás, uniformes dos blocos afro e blocos de índios sua linguagem se moldou, impregnada de referências ancestrais e desafiada pela multitude de propostas temáticas resultante da autonomia criativa dos carnavalescos. Pitta é protagonista e produto desse encantamento pleno de tradição, mas não vazio de liberdade”. “Sua pintura se alimenta diretamente da pesquisa e do trabalho com seus tecidos e eventos. Muito da nossa amizade de quase três décadas decorre desse importante discurso entre o museu e a rua. E, nessa equação, Pitta aparece sempre como a pecinha que faltava no quebra-cabeças do popular e do erudito”, salienta o artista. Vik Muniz destaca ainda que “o ateliê do artista fica instalado num galpão que ocupa o mesmo terreno da casa de Mãe Santinha e seu terreiro”. “O barracão de cerimônias do Ilê Axé Oyá foi desenhado por Lina Bo Bardi (1914-1992) – e projetado e adaptado por Marcelo Suzuki — na época em que a arquiteta viveu na Bahia para fazer projetos no centro histórico da cidade”.

CARRINHOS DE CAFEZINHO

Na Nara Roesler São Paulo, Alberto Pitta vai mostrar um carrinho de cafezinho, feito em madeira, na forma de um caminhão de brinquedo, em alusão aos “carrinhos de cafezinho”, muito comuns em Salvador, usados pelos vendedores ambulantes para vender café, normalmente já adoçado com açúcar, colocado em garrafas térmicas e servido em copos de plástico.Para a exposição “A Quietude da Terra: vida cotidiana, arte contemporânea e projeto axé”, em 2000, no Museu de Arte Moderna da Bahia,com curadoria de France Morin, Alberto Pitta desenvolveu um projeto inspirado no seu envolvimento duradouro com esses carrinhos de cafezinho, desde os treze anos de idade, quando criou seu primeiro carrinho de cafezinho. 

Embora tivesse decorado seu carrinho com desenhos geométricos nas cores azul e branca, nunca osconsiderou um objeto de valor estético ou cultural. Anos depois, trabalhando como assessor da Coordenação de Cultura, Estética e Arte do Projeto Axé, Pitta começou seu projeto em novembro de 1999, colaborando com vinte e uma crianças e adolescentes do Opaxé, Modaxé e Stampaxé. As crianças, divididas em grupos de três, entrevistaram vendedores ambulantes, desenharam e construíram carrinhos de café, sob sua coordenação, acompanhado pelo cineasta Joel de Almeida. O resultado integrou a exposição no MAM Bahia, no ano seguinte.

Ekodidè, obra de Alberto Pitta em exposição na galeria Nara Roesler.

A seguir você lê com exclusividade o texto curatorial de Galciani Neves sobre a exposição:

Àkùkọ, Eiyéle e Ekodidé
Uma revoada, de Alberto Pitta
por Galciani Neves

É por causa da matéria que faz a vida acontecer que a gente “poderá”, “queimará” e “brilhará”. Apesar de tudo, “a força é bruta” e “o afeto é fogo”, canta Gilberto Gil. Fechando a trilogia “Ré”, composta por três álbuns: Refazenda, de 1975; Refavela, de 1975 e Realce, 1979, Gil queria celebrar com a música homônima a efervescência das multidões e a ebulição das subjetividades quando em momentos de encontro e ressaltar toda a beleza que pode viver o ser humano quando os direitos à dignidade e ao “salário mínimo de cintilância”, são garantidos. E o prefixo “Ré”, segundo ele, cumpriria a tarefa poética e política da restauração do que nos informa como gente, da reconstituição das essências da vida, do recuo e da revisita às origens para que possamos nos ver com mais nitidez no presente. 

A revoada de trabalhos de Alberto Pitta se inspira e, ao mesmo tempo, se origina de um lugar, que se caracteriza, como narrou Gil em “Realce”, pelo senso de coletividade, onde as pessoas convivem e se reiteram em suas diversidades, onde fortalecem conexões entre si e entre as coisas boas da vida. Importante pontuar: no contexto contemporâneo, muito se pode conhecer do trabalho de um artista a partir de uma visada em seu ateliê – o modo como organiza seus materiais, como a arquitetura se constitui para acolher as necessidades de suas linguagens, como o artista dispõe seus arquivos e referências, como se dá o fluxo de agentes participativos em seus projetos, como elege dispositivos para organizar seus processos, como o espaço de trabalho interage com a cidade e seu entorno mais imediato, com que manifestações sociais, políticas e culturais se relaciona. 

O trabalho de Pitta é criado em um lugar onde as pessoas alimentam a vibração constituidora de uma vida em comunidade, onde a manutenção do cotidiano se conduz iluminada por dignidade e liberdade. Viver assim faz com que a arte que se produz ganhe outros contornos: a matéria plástica se reveste da vivacidade dos encontros e é porosa à energia do lugar. O ateliê de Pitta é um lugar de trabalho imerso em um ambiente de resistência e alegria onde arte, educação, espiritualidade, música e cultura se encontram como instrumentos e vivências em comunidade, em uma movência de troca e mistura: uma atividade carrega outra, se comove com as especificidades de outra, e, assim, todas se mesclam. Uma possível analogia seria a descrição de bell hooks (19522021) acerca de uma “sala de aula democrática”: um espaço para conferir “apoio à vida e expansão da mente”, com práticas que privilegiam a espiritualidade, o amor na educação e o enfrentamento ao racismo e cujas intenções são de tornar os indivíduos mais atentos para fazerem escolhas de forma crítica e consciente. 

Localizado no bairro do Pirajá, em Salvador, o ateliê de Pitta habita o mesmo espaço do Instituto Oyá, fundado por Mãe Santinha de Oyá em 1990. Ali, existia já há alguns anos o Terreiro Ilé Axé Oyá. O instituto nasceu com vocação educativa, oferecendo programação de arte-educação e aulas de reforço escolar para as crianças da vizinhança. Pitta já trabalhava com crianções visuais estampando vestimentas para blocos de carnaval desde o final dos anos 1970e, na década de 1980, passou a produzir as estampas para o Olodum. Em 1998, quando criou o Cortejo Afro, o Instituto ganhava mais força, diversificando suas atividades: cursos de corte e costura, oficinas de estamparia, aulas de música e capoeira. O ateliê de Pitta brotou do âmago dessas atividades e cresceu porque tudo acontecia junto, com a vibração das pessoas que frequentavam e conviviam com todo esse ecossistema. Atualmente, o ateliê de Pitta conta com um acervo de fantasias de carnaval criadas pelo artista para o Cortejo Afro e outros blocos, com uma biblioteca e uma coleção de trabalhos de outros artistas que habitam a Sala Regina Casé, com uma coleção de tecidos estampados por ele e também provenientes de muitos países africanos. Pitta elabora projetos, desenha, pinta e faz serigrafia em meio a tudo isso. São trabalhos feitos a muitas mãos, com aprendizes e artistas muito alinhados em um fazer coletivo. As crianças são encarregadas pela trilha sonora: gritos animados, cantos, barulhos de pés dançando e correndo e de brincadeiras atravessam o lugar de trabalho do artista. Ao redor de tudo isso, as três Casas de Santo (Oyá, Obaluaê, Oxalá) encantam o lugar. Impossível não se alegrar estando lá! 

Por articular sua produção de maneira indissociável de toda essa multiplicidade de atividades, linguagens e instâncias vitais, convivendo com as pessoas que frequentam e usufruem da programação oferecida ou que participam de seus projetos e agindo com rigor e uma escuta muito sensível aos processos de experimentação poética, Pitta pensa com arte, desde lá da sua raiz, como uma espécie de pedagogia da alegria. O artista faz arte porque a festa pulsa em suas veias (ou seria o contrário?). Esta consciência deve vir de longe. Como argumenta a ativista, professora, filósofa e antropóloga brasileira Lélia Gonzalez (1935-1994), as manifestações culturais e as festas populares, como o Carnaval, são esferas onde as comunidades negras recriam suas práticas culturais, que por muito tempo foram proibidas e oprimidas em outros espaços sociais, e, assim, imantam lugares de resistência, memória e alegria, forjam identidades e vivenciam as celebrações como um exercício que exalta o corpo em coletividade. 

Pensar com arte como um verbete singular de Alberto Pitta seria, então, produzir a partir de relações eticamente fortes com as muitas questões e agentes que o atravessam como artista e como ser humano; misturar as autonomias das matérias-primas e seguir com elas em movimento, absorvendo e respeitando os seus contextos de origem; criar narrativas que re-fabulam aquelas e aqueles que representam a ancestralidade e que ensinam sobre a continuidade da vida. Reiterando: sua prática de pensamento e produção distingue-se como uma prática de criar com arte. E isso se deixa transparecer em seu ateliê e em uma presença bastante vigorosa em seus trabalhos. Dito isto, Pitta cria porque é do axé, porque o ateliê está sempre cheio de gente, porque as crianças estão sempre lembrando que a vida está seguindo. Pitta cria com fabulações divinas, com o Instituo Oyá pulsando, com o Carnaval, com as musicalidades, com as manifestações afro-diaspóricas. Seu trabalho surge entranhando-se em todas essas instâncias e simultaneamente engajando-se na produção desses acontecimentos.

Pois bem, se o ateliê é um locus de muitos acontecimentos, podemos pensar que o trabalho de Pitta também é um território onde muitas visualidades são dispostas à convivência. O artista cria instalações e telas com serigrafia, pintura e desenho no contexto da arte contemporânea, participando de importantes mostras dentro e fora do Brasil. Instalações com tecidos e objetos simbólicos, composições cromáticas, texturas, sobreposições de desenhos constituem-se numa miríade muito plural. Cores invadem o tecido, povoando as composições de diferentes maneiras. E as formulações espirituais são traduções visuais que apresentam as divindades, os orixás e seus ensinamentos. Um compêndio de símbolos reinterpretados pelo artista prima a beleza das formas. Histórias primordiais contadas nas telas identificam as figuras que no passado mítico participaram dos acontecimentos e que no agora ocorrem como chaves de decifração oracular da vida. Sua produção envolve um ver como artista rimando com aprender sobre a vida.

Muitas imagens começam em traços a lápis no papel. Dali, migram para a tela, em sua maioria em grande formato. O processo ocorre aos poucos, cada camada vai sendo acrescentada, cada cor vai reconfigurando o espaço pictórico, acrescendo-o de informação visual. Pitta cria cenas com as texturas. Estas não são apenas fundo, mas imagens que contextualizam e recebem os assuntos abordados, os personagens. As telas, quando vistas de longe, parecem transformar os personagens e fundos em um todo paisagem. Quando vistas de perto, deixam ressaltar suas muitas e pequenas texturas. A sobreposição de texturas, o “avizinhamento” de formas e a convivência de cores constituem um todo muito complexo que pode sugerir distintas percepções da imagem. É possível perceber a delicadeza como tudo que está ali foi pensando: um búzio, um pequeno círculo preenchido, triângulos em orientações invertidas.

Pitta trabalha nos detalhes. Por repetição, padronagem e ritmo, o artista troca a hierarquia entre os elementos, tão comum à pintura, pela fluidez. O olho caminha e se percebe em um pequeno furor de imagens. Também chamam a atenção as posturas dos personagens – seres, divindades, pássaros, bichos e plantas. Estão edificados em plenitude. Alicerçados, ora por blocos de cor mais parrudos, ora por texturas mais esmaecidas. São tão contundentes em sua performatividade corporal que podemos pensar o mundo funcionando através do que olham – para fora da tela, para nós que os encaramos. Outro aspecto a ressaltar: as linhas de Pitta têm natureza movente, dançam e promovem dinamismo. Elas se assemelham aos modos como o richelieu é bordado no tecido. Um dentro e fora, um através, um espaço vibrante que acontece por causa da linha e com a linha. O richelieu é muito presente no imaginário do artista. Sua mãe conhecia a artesania e Pitta cresceu convivendo com roupas bordadas com richelieu.

Nessa mostra individual, o artista revisitou seus arquivos de desenhos mais recônditos, alguns datam de mais de 30 anos. São desenhos que integraram ensaios para livros, que habitaram padronagens gráficas, que foram feitos em horinhas de dispersão, que estamparam tecidos e outros tantos inéditos. Estavam todos repousando em suas gavetas. Pássaros surgiram aos muitos entre esses guardados. Voando, pousando, coloridos, ancestrais, com formas sintéticas, com linhas mais elaboradas, em desenhos vetorizados, em poses contemplativas, junto a paisagens, encenando acontecimentos… Eles se tornaram um assunto forte e vívido nas telas de Pitta. Pássaros são seres mensageiros, fazem o trânsito entre humanos e divindades, pois acessam o campo espiritual, e, assim, nos trazem boas novas e comunicam nossas mensagens. E também por seu prestígio inigualável, na ampla cultura Yorubá, pássaros apresentam-se como seres divinos, reverenciados por suas características e habilidades únicas. Pássaros são guardiões de comunidades, evocam energia positiva e guiam em situações adversas. Essa reunião de obras revigorou, assim, o sentido de re-voada: voar em bando, como fazem as aves de uma mesma espécie; coreografar no céu uma coletividade; migrar junto; mover-se rumo a um destino certo.

Três pássaros aparecem com mais protagonismo nas telas de Pitta: Àkùkọ, Eiyéle e Ekodidé. E na exposição eles vão se espalhando a partir de uma organização cromática no espaço da Galeria Nara Roesler. Eles habitam uma primeira série de trabalhos onde predominam composições em preto, branco, vermelho e amarelo, como se dessem boas -vinda ao público; em seguida explodem em cores bem vibrantes e composições multicoloridas, para encantar; e, por fim, acontecem em calmaria em telas brancas – onde distintos matizes de branco vão compondo a tela. Nessas obras, Pitta reinterpreta a cosmovisão Yorubá e tece com Àkùkọ, Eiyéle e Ekodidé associações com os ancestrais – seres espirituais importantes que já viveram no mundo físico, mas que seguem suas jornadas impactando e guiando a vida de seus descendentes. 

Esses pássaros carregam consigo simbologias importantes para os ritos espirituais e são fundamentais para a cultura Yorubá. É o caso, por exemplo, dos pássaros que figuram de costas em algumas obras. Segundo Pitta, todos os que estão nessa postura rementem a Sankofa – com um olhar para o passado para enxergar o futuro. Àkùkọ é outro pássaro importante no contexto da mostra. Ele é frequentemente associado a um galo – o mensageiro do tempo, que anuncia o dia, que explica a ancestralidade e afirma a continuidade da vida. Eiyéle é a pomba branca, que traz a paz, a harmonia e a boa aventurança. E por sua elegância e plumagem, Eiyéle também simboliza honra e prosperidade. Ekodidé é a única pena vermelha de um pássaro ou o papagaio, um símbolo de proteção, vitalidade, realeza. Sua pena é um elemento natural e é presença essencial em rituais de iniciação, para afastar energias negativas e também para consagrar objetos. 

Apresentar esses seres no campo da arte é acreditar que sua revoada pode ser um sopro de transformação para reanimar os ares, reorganizar os pensamentos, renovar as esperanças, refazer as conexões. Um gesto artístico e de insurgência de Pitta que, como nos diz a poeta, pesquisadora e dramaturga brasileira Leda Maria Martins, é desses que mais transtornam, pois afetam as imagens estéticas inscritas como únicas e verdadeiras. E por isso, trata-se de um gesto que, por refazer as narrativas e apresentar novos caminhos de enxergar o mundo, nos mobiliza a viver com esperança, (“o fermento da revolução”, o que faz emergir o novo, segundo o filósofo e professor sul-coreano Byung-Chul Han) e nos encoraja a reivindicar ambientes onde possamos celebrar, nos alegrar e regozijar.

Galciani Neves
Julho de 2025

O grande Pássaro, obra de Alberto Pitta em exposição na galeria Nara Roesler.

SOBRE NARA ROESLER 

Nara Roesler é uma das principais galerias de arte contemporânea do Brasil, representa artistas brasileiros e latino-americanos influentes da década de 1950, além de importantes artistas estabelecidos e em início de carreira que dialogam com as tendências inauguradas por essas figuras históricas. Fundada em 1989 por Nara Roesler, a galeria fomenta a inovação curatorial consistentemente, sempre mantendo os mais altos padrões de qualidade em suas produções artísticas. Para tanto, desenvolveu um programa de exposições seleto e rigoroso, em estreita colaboração com seus artistas; implantou e manteve o programa Roesler Hotel, uma plataforma de projetos curatoriais; e apoiou seus artistas continuamente, para além do espaço da galeria, trabalhando em parceria com instituições e curadores em exposições externas. A galeria duplicou seu espaço expositivo em São Paulo em 2012 e inaugurou novos espaços no Rio de Janeiro, em 2014, e em Nova York, em 2015, dando continuidade à sua missão de proporcionar a melhor plataforma possível para que seus artistas possam expor seus trabalhos.


Serviço: Exposição “Àkùko, Eiyéle e Ekodidé – Uma revoada de Alberto Pitta”, na Nara Roesler São Paulo. Abertura dia 2 de setembro de 2025, às 18h, até 26 de outubro de 2025. Entrada gratuita. Nara Roesler, São Paulo, Avenida Europa, 655, Segunda a sexta, das 10h às 19h, Sábado, das 11h às 15h. Site: nararoesler.art.

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