A cidade não para, a cidade só cresceO de cima sobe e o de baixo desce.
—A cidade, Chico Science e Nação Zumbi (1994)

Entre fluxos invisíveis e urgências cotidianas, a cidade se revela não apenas como cenário, mas como estrutura viva de deslocamentos, desigualdades e sobrevivências. É a partir desse tecido pulsante das ruas que o Instituto Tomie Ohtake apresenta Existe uma vida inteira que tu não conhece, primeira exposição individual institucional de Allan Weber, um dos nomes mais inventivos da arte contemporânea no Brasil. Em cartaz até o dia 24 de maio de 2026, a mostra propõe um mergulho nas engrenagens que sustentam a vida urbana — especialmente aquelas que operam longe dos olhos excludentes de nossa sociedade.

Com curadoria de Ana Roman e Catalina Bergues, a exposição reúne cerca de quarenta obras entre esculturas, instalações, fotografias e vídeos do artista. O conjunto se organiza como um campo de observação direta das dinâmicas do trabalho urbano, tomando como eixo a experiência dos motoboys, figuras centrais na circulação contemporânea das cidades.

Allan Weber, Sem título (2025)

Nascido e criado na comunidade 5 Bocas, em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Allan Weber constrói uma prática artística profundamente enraizada no território. Sua obra emerge das ruas não como representação distanciada, mas como continuidade de vivências. Ao deslocar objetos do cotidiano dos bairros do Rio para o espaço expositivo, o artista tensiona fronteiras entre arte e vida, formalizando experiências marcadas pela desigualdade, inventividade e resistência.

Allan Weber, Sobre balão, da série Traficando Arte (2021)

A escolha do Instituto Tomie Ohtake como espaço expositivo não é casual. Situado na Avenida Faria Lima, epicentro financeiro de São Paulo, o local é atravessado diariamente por milhares de entregadores. Nesse contexto, a exposição ganha uma camada adicional de leitura: aquilo que sustenta o ritmo da cidade é também o que raramente se traduz em estabilidade para quem o executa.

Entre os trabalhos apresentados, uma grande instalação composta por bancos de motocicleta, capacetes e mochilas de entrega suspensos por elásticos reorganiza o espaço e altera a circulação do público. Ao retirar esses objetos de sua função original, Weber cria um ambiente de tensão física e simbólica, onde o corpo do visitante se vê implicado nas dinâmicas que observa.

Allan Weber, Sem título, da Série Dia de Baile (2023)

Em Nós que sustenta na raça, caixas-d’água empilhadas formam torres que evocam tanto a paisagem das periferias quanto uma tradição construtiva da escultura. Já nas obras produzidas com lonas de bailes funk, o artista aproxima-se da abstração geométrica sem romper com a materialidade carregada de uso: rasgos, costuras e marcas do tempo permanecem como vestígios de contextos coletivos.

A série Tamo junto não é gorjeta, iniciada durante a pandemia de covid-19 — período em que Weber atuou como entregador —, talvez seja o núcleo mais contundente da mostra. Aqui, a câmera não observa de fora: ela participa. Registra os intervalos, o cansaço, a espera. Não há heroísmo nem denúncia direta, mas uma insistência na duração do cotidiano. O título, por sua vez, explicita a ambiguidade de uma expressão comum — “tamo junto” — que oscila entre empatia e distanciamento social.

Outro conjunto de trabalhos apresenta camisetas de times de futebol criadas pelo artista, conectadas à Galeria 5 Bocas, espaço fundado por Weber em sua comunidade. Mais do que um lugar expositivo, a galeria funciona como ponto de encontro, onde práticas artísticas convivem com celebrações, trocas e experiências coletivas — um prolongamento direto de sua poética.

Allan Weber, Fé nos Trabalho, da série Traficando Arte (2021)

Ao ocupar o espaço institucional, Allan Weber transporta consigo as ruas, suas histórias e ancestralidades. Sua obra não busca traduzir a cidade para um público distante, mas reposicionar o olhar, tensionando o que se vê e o que se ignora. Em Existe uma vida inteira que tu não conhece, a arte não oferece respostas fáceis: ela insiste em tornar visível aquilo que sustenta, silenciosamente, o funcionamento do mundo urbano.


Serviço: Exposição Existe uma vida inteira que tu não conhece – Allan Weber, de 18 de março a 24 de maio de 2026, com visitação de terça a domingo, das 11h às 19h (última entrada até 18h), com entrada gratuita, no Instituto Tomie Ohtake, com acesso pela Rua Coropé, 88, em Pinheiros, São Paulo. A estação de metrô mais próxima é Faria Lima (Linha 4 – Amarela).

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Publicado por:Philos

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