I Concurso Petrobras CasaBloco de Artes Carnavalescas 2025

Júlio César, mais conhecido por Julinho, acordou cedo, bem-humorado e  assoviando uma música. Entrou no banheiro, mijou e escovou os dentes.  Olhou-se no espelho grudado na parede, fez uma careta e sorriu diante da rachadura reverberando a imagem retorcida de seu rosto magro, sulcado,  marcado e de barba por fazer. Saiu do banheiro, entrou no quarto e trocou de  roupa. Olhou-se mais uma vez, agora no espelho do guarda-roupa, voltou para  a sala e confirmou as horas no relógio de pulso. Benzeu-se, beijou o crucifixo pendurado no pescoço e saiu de casa.

Cheio de disposição, Julinho caminhou pelo bairro humilde, de casas  coloridas e gente alegre. No final da rua, entrou na padaria para fazer o  desjejum, encostou-se no balcão e cumprimentou o velho português de  expressão benevolente. 

—Bom dia, seu Joaquim! 

—Bom dia, senhor Julinho! O mesmo de sempre? 

—Sim, por favor! 

Assim, como todas as manhãs, Julinho bebeu café com leite, comeu um  pão com manteiga e um pedaço de bolo de fubá. Minutos depois, pagou a  conta, agradeceu e saiu. Do lado de fora, observou o movimento festivo dos  grupos de foliões formados por homens, mulheres, velhos e crianças ziguezagueando de um lado para o outro rumo ao centro da cidade, onde os  principais blocos carnavalescos se preparavam para desfilar pela avenida no primeiro dia de carnaval. O som das marchinhas, os gritos estridentes dos tamborins, agogôs pandeiros e cuícas contaminavam as pessoas. Seguindo o ritmo frenético dos foliões, Julinho acendeu um cigarro,  balançou o corpo e passou a caminhar a esmo.

Mais tarde, do lado de fora de um bar, Julinho sentou-se a uma mesa, pediu uma cerveja gelada para amenizar o calor sufocante e passou a  bebericar absorto. De copo na mão, e olho na rua, focou a atenção nas  mulheres passando fantasiadas, rebolando e exibindo sorrisos sensuais. Sim, adorava as mulheres. Porém, sem jamais entender a razão, nunca conseguira uma mulher que o amasse de verdade para dormir juntinho, lhe fazer carinho,  compartilhar os amores, os dissabores, as alegrias da vida e até mesmo para  ser mãe de seus filhos. Mas, por que a falta de sorte com as mulheres? Seria devido a sua feiura de corpo esquálido, quase tísico e rosto marcado de cicatrizes deixadas pelas erupções da varíola adquirida na infância? Não,  jamais encontrou respostas.

Subitamente, Julinho ouviu um apito ululante, se assustou e saiu dos pensamentos absortos. Suspirou fundo. Bebeu mais algumas cervejas, fumou mais alguns cigarros e almoçou para ganhar energia suficiente. Afinal, à noite seria pequena para muita festa.

Após o almoço, Julinho voltou para casa, deitou-se no sofá e tirou uma  sesta de pouco mais de uma hora. Acordou revigorado, assoviou algumas  marchinhas de carnaval e tomou um banho frio para despertar o corpo da  letargia.

No quarto, remexendo no guarda-roupa, Julinho retirou com cuidado a mesma fantasia usada no ano anterior. Vestiu-a com esmero, sem se  preocupar com o cheiro de naftalina. Arrastou o banco de madeira, sentou-se  em frente ao espelho da estante e pintou o rosto de branco. Assim, em pouco  mais de uma hora, transformou-se em um pierrô ingênuo, sentimental e de  tristeza dissimulada. A lágrima vermelha, desenhada com afinco, escorrias solitária abaixo do olho esquerdo. Satisfeito, sorriu para sua imagem de um verdadeiro narcisista refletida no espelho.

Antes de sair, Julinho olhou mais uma vez no espelho do guarda-roupa,  virou-se de um lado para o outro e retocou pequenos detalhes usando as  pontas dos dedos longos. Observou a largura da fantasia quadriculada,  colorida e enfeitada de pompons dos lados escondendo um pouco da magreza  de seu corpo. Soltou um muxoxo.

Agora mais uma vez sorridente, sonhando em conquistar de vez o  coração de uma colombina, falou em monólogo.

—Quem sabe vai ser no baile de hoje? Sim, quantas pessoas, mesmo  desprovidas de alguma beleza, não são felizes? Porra, afinal, eu também sou  filho de Deus!

Depois das reflexões efêmeras, irradiando esperança, Julinho se  benzeu, beijou o crucifixo pendurado no pescoço e saiu de casa. Quase uma hora depois, Julinho chegou ao grande evento carnavalesco organizado pela CasaBloco. No extenso salão a céu aberto, enfeitado e  colorido, encantou-se com a multiplicidade, a diversidade de gêneros, grupos e  ritmos. Sem perder tempo, misturou-se à horda de foliões destilando alegria por  todos os lados, seguindo as marchinhas puxadas pela banda sobre o palco, pulando freneticamente, cantando e fazendo o chão tremer.

Sendo assim, inebriado, Julinho dançou por quase duas horas seguidas  em ritmo alucinante sentindo o suor, misturando-se ao branco da tinta,  escorrendo pelas faces e descendo pelo pescoço. Naquele momento, como  bom carioca, queria apenas curtir o carnaval que tanto amava. Sim, o carnaval,  uma festa há séculos enraizada na cultura nacional. Um espetáculo único,  diferente e completo como verdadeira arte tocando no fundo da alma.

Sem intervalos, no meio de uma profusão de risos, gritos, danças,  alegria e muita cor, o lugar fervilhava. Certa hora, sentindo a lassidão do corpo, Julinho sentou-se a uma mesa do bar para descansar. Acendeu um cigarro,  chamou o garçom e pediu uma cerveja. Degustou avidamente a bebida gelada, estalou os lábios e sorriu mostrando os dentes amarelecidos pela nicotina. Olhou para todos os lados na intenção curiosa de identificar algum conhecido  no meio da cacofonia de sons. Para a sua surpresa, sentado a uma outra mesa à sua frente, acompanhada de mais duas amigas, uma Colombina sorriu para o  seu lado. Seria coincidência? O Pierrô, por sua vez, retribuiu o sorriso exibindo outro sorriso pálido de timidez. 

Assim, sem pudor, guiados por um magnetismo mágico, Pierrô e Colombina ficaram trocando de longe acenos, sorrisos, piscadelas e olhares  apaixonados por algum tempo. A mulher, em gestos sensuais, amiúde  colocava e retirava a máscara do rosto pintado. Por outro lado, contagiado por um torpor inesperado, Julinho bebeu mais algumas cervejas, fumou mais cigarros e, ainda sem acreditar, continuou sonhando em ritmo de carnaval,  amor e paixão. Tudo sob uma vista privilegiada do Corcovado, a cumplicidade  do Cristo Redentor e a nudez obscena da lua.

Quase uma hora depois, após beber o resto do drinque, sem resistir ao olhar de cobiça, a misteriosa mulher se levantou, rodopiou o corpo e exibiu o vestido  rodado de cor vermelho-sangue. Hesitou por alguns segundos, sorriu lascivamente e deixou transparecer parte das pernas longas, belas e luzidias.  Negra, alta, linda e exibindo um sorriso provocante desenhado nos lábios  grossos pintados de batom rubro, passou ao lado de Julinho. Ajeitou o vestido,  olhou para o homem e soltou uma piscadela. Mais à frente, parou, virou-se e fez um gesto de chamamento usando o dedo indicador. Sem pestanejar,  entendendo o recado e sentindo o coração acelerar, o Pierrô saiu atrás da  Colombina, metaforicamente, uma verdadeira deusa do ébano.

Em passos trôpegos, porém totalmente lúcido, Julinho finalmente  alcançou a bela Colombina. Antes de se misturarem aos outros foliões, puxou a carinhosamente pelo braço. Sem pressa, com o corpo fremindo, levou-a para um canto mais ermo. Ali, cruzando as respirações sôfregas, ansiosos e  apaixonados, os dois sorriram, trocaram olhares e entrelaçaram as mãos trêmulas. Se abraçaram, se apertaram e, unindo os corações acelerados, se  beijaram sem pudor no meio da alegria multicolorida. 

Após o beijo, ainda sem fôlego, o coração pulsando e as veias latejando,  Julinho falou sofregamente. 

— Como é seu nome? 

— Morgana! E o seu? 

— Júlio César, mas todos me chamam de Julinho! 

— Julinho, meu anjo, eu preciso lhe falar uma coisa muito séria.

— Por favor, Morgana, agora não! Depois você me fala minha linda Colombina, deusa do ébano! Agora eu só quero seu amor, pois há muito tempo  espero por esse momento mágico!

Antes mesmo de aguardar alguma resposta, Julinho calou a boca de  Morgana com mais um beijo ávido, ardente e apaixonado. Meia hora depois,  ambos deixaram o baile de mãos dadas. 

No modesto quarto de um hotel, banhados pela luz tênue da lâmpada do abajur, Julinho e Morgana amaram-se a noite toda. Trocaram juras de amor, de paixão, de felicidade, de respeito mútuo e, principalmente, de fidelidade. 

Sim, dois meses depois do primeiro encontro, Julinho largou o bairro  onde nascera, crescera e sempre vivera, para morar na companhia de Morgana em um modesto apartamento mais próxima do centro da cidade.  Dessa forma, os dois amantes se livraram das fofocas, dos comentários  maldosos e das picuinhas engendrados pelos amigos, pelos companheiros de  bar e pela vizinhança ociosa. Livraram-se também da inveja dos infelizes fofoqueiros preocupados apenas em vasculhar a vida alheia. Livraram-se principalmente do preconceito, da discriminação e da intolerância.


VICENTE DE MELO, de Brasília, escritor, venceu o Prêmio SESC de Contos “Machado de Assis”, edição 2005, e o “Prêmio  Amazônia de Literatura, 2ª edição, 2021. Tem cinco livros publicados, além de vários contos avulsos em coletâneas de livros e revistas.  

A fotografia que acompanha o conto é de autoria de THIAGO NUNES SIQUEIRA, fotógrafo desde 2015, carioca e suburbano de Vicente de Carvalho, procuro retratar o cotidiano das ruas através de detalhes e cenas das vivências que presencio, aliando foto e poesias autorais. Como bom amante de samba e carnaval, traduzo a simplicidade e alegria em meio aos caos e energia durante esses encontros vivos.

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