Entre assombros, pinturas, sertões, fantasmas, papaguns e santuários, a Arpa reafirma sua força como uma das feiras mais vivas e surpreendentes do circuito.

Convidada pela Philos para acompanhar a edição 2026 da ArPa, Bianca Dias mergulhou na experiência da feira a partir de um olhar atento às reverberações poéticas, políticas e sensoriais da arte contemporânea brasileira e latino-americana. Em seu percurso pelos estandes, a crítica e pesquisadora destaca artistas, galerias e curadorias que fizeram da feira não apenas um espaço de circulação do mercado, mas sobretudo um território de encontros, assombros e descobertas estéticas.

Entre pinturas que encaram o abismo, esculturas que evocam espiritualidade e trabalhos que atravessam temas como mineração, colonialismo, sertão e fabulação, o texto de Bianca constrói uma espécie de cartografia afetiva da ArPa. Sua seleção reúne nomes já consagrados e artistas descobertos no percurso da feira, revelando uma experiência marcada pelo encantamento, pela intensidade visual e pela sensação de que a arte ainda é capaz de produzir êxtase, tremor e fulguração. Sem mais delongas, leia o texto abaixo:

Uma dúzia de coisas imperdíveis

Arpa — uma feira que acompanho desde o primeiro ano e completa cinco anos sendo a feira mais cool e descolada da cidade, mas também aquela que soube se reinventar. Nesta edição, o setor solo arrasou com projetos bastante institucionais e encontros surpreendentes entre artistas de gerações, origens e lugares diversos.

No setor das galerias, gostaria de destacar uma dúzia de coisas imperdíveis:

  1. Luana Vitra na Mitre Galeria, com um trabalho impecável: poético e político a um só tempo. Artista mineira de Contagem, que faz um giro na questão da mineração: denunciando, mas apontando para um fazer que subverte essa ferida mineira.
  2. Manu Costa Lima na Quadra Galeria: um trabalho próximo de algo místico e meditativo, que estabelece uma relação quase religiosa com a palavra e a presença dela.
  3. Noara Quintana na Mazochi e Cardoso, com um trabalho de forte crítica ao legado colonial e à exploração do ciclo da borracha.
  4. Luciana Maas na Galeria Sardenberg: pinturinhas fantasmais, quase como névoas, caretas meio oníricas, uma coisa meio Pinóquio.
  5. Bruno Novelli exuberante com seus seres na Bolsa de Arte. Precisão técnica e magia juntas.
  6. A roça mítica e o sertão real: a curadoria primorosa de Divino Sobral para a Cerrado Galeria, com Nilson Pimenta, Alice Lara e Rafael de Almeida. Um diálogo que passa pelo Brasil rural e por uma conversa fina entre os artistas — cada um com sua singularidade.
  7. Arthur Arnold na Matias Brotas: um pintor que conheci através da mesa — ceias, festas — mas que chama a atenção pela materialidade da tela e pelo manejo pictórico muito singular. Suas telas vazadas, mas tão densas de matéria. Pulsão e presença de algo que é puro tremor.
  8. Júlia Aragão na Leonardo Leal: tenho a impressão de que sua pintura nos encara fundo. As imagens beiram o abismo e retornam para nós em sua ferocidade. Uma artista imensa.
  9. Gustavo Diógenes e Arthur Bombonatto na Marco Zero: dois pintores que estão entre os meus favoritos do Brasil. Gustavo, com suas paisagens sertanejas enigmáticas, suas presenças silenciosas, infinitas estradas, postos de gasolina, lusco-fusco de um mistério inominável. E Arthur, com seus papaguns brincantes, mas assombrosos, suas figuras demoníacas e mascaradas. Uma dupla impressionante.
  10. Dignora Pastorello na Isla Flotante: a feira serve também para isso, para conhecermos novos artistas, e essa galeria sempre me apresenta algo novo. Aqui, uma artista argentina que tem um quê de Lorenzato. Fiquei fascinada com a delicadeza do trabalho.
  11. Eduardo Berliner na Triângulo: não canso de me espantar com a capacidade de esse artista tão único sempre superar nosso espanto. A própria ideia do estranho familiar freudiano retorna sempre em sua pintura. Dessa vez, o artista incluiu, junto de suas pinturas, pequenas esculturas, objetos, ruínas colecionáveis. Um desbunde.
  12. E o que dizer de um santuário montado em plena feira pela Pinakotheke, com a presença de Farnese de Andrade: alumbramento quase celestial e também a presença de uma carnalidade sacra. Assombroso como uma aparição. Certamente uma das coisas mais fortes que já vi numa feira de arte. Impecável e imperdível. Depois de passar por lá, não nos resta mais fôlego para nada: só sentir os presságios e fulgurações invocados ali.

Terminar o primeiro dia de feira com um belíssimo show quase cigano de Assucena na Quadra, que parecia uma catedral banhada em luzes vermelhas, foi uma espécie de continuação do êxtase que senti vendo aquele monte de Farneses ali, dizendo: “olha que abissal a vida”, e a arte nos ensinando que “é fundo, mas dá pé”. Parabéns, Camila Barella, pela Arpa, e muitos anos de vida.


Bianca Coutinho Dias é ensaísta, psicanalista, pesquisadora, crítica de arte e curadora. Especialista em História da arte pela FAAP, mestre em estudos contemporâneos das artes pela Universidade Federal Fluminense, doutoranda em memória social na UNI- RIO. Escreve sobre artes plásticas, cinema, literatura, psicanálise e sobre tudo mais que pode movimentar e reinventar o mundo.

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Publicado por:Philos

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