O Paço Imperial, no Rio de Janeiro, inaugura no dia 17 de abril, a exposição “Caboclos da Amazônia: arquitetura, design e música”, apresentada pelo Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN e Instituto Cultural Vale via Lei Federal de Incentivo à Cultura. Com mais de 300 peças autênticas e diversificadas, organizadas em quatro categorias distintas – Arquitetura e Interiores, Objetos, Letras e Música – a exposição representa a essência do rico universo das expressões artísticas do Estado do Pará.

Idealizada pelo designer paraense Carlos Alcantarino, residente no Rio de Janeiro desde 1982; a exposição documenta e celebra a regionalidade nos aspectos naturais e culturais vivenciados pelos caboclos que habitam a floresta amazônica. “Caboclos da Amazônia: arquitetura, design e música”, apresenta uma coleção abrangente com peças, cuidadosamente organizadas em categorias distintas e ambientadas de forma harmoniosa no primeiro piso do paço Imperial, no Rio de Janeiro, convidando os visitantes a mergulharem na riqueza cultural e artística da Amazônia.

A seção de “Arquitetura e Interiores” exibe uma coleção de fotografias tiradas nas ilhas do Marajó e do Combu, enfatizando a arquitetura única das casas de ribeirinhos, pescadores e outros cenários da Amazônia. A cenografia é composta por tábuas de construção sem acabamento, pintadas nas cores tradicionais dessas habitações, proporcionando uma representação fiel da autêntica arquitetura cabocla em toda sua dimensão.

A área dedicada aos “Objetos” apresenta instalações que incluem elementos da vida cotidiana dos caboclos, como o carrinho de raspa-raspa, garrafas com ervas do Mercado Ver-o-Peso, brinquedos feitos de miriti e as pipas que são empinadas nos céus de Belém.

Na seção dedicada às “Letras”, os visitantes terão a oportunidade de se familiarizar com os símbolos de comunicação do caboclo amazônico, com destaque para os “abridores de letras,” que são os artistas responsáveis por pintar os nomes nas embarcações. As paredes servirão como suporte para exibir o trabalho de alguns desses artistas, cada um com seu estilo único.

No espaço dedicado à “Música”, a atmosfera evoca os bares à beira da estrada do interior amazônico, com destaque para a trilha sonora que inclui os ritmos de carimbó, guitarrada e festa de aparelhagem. Para a realização da exposição, Carlos Alcantarino recebeu o apoio da designer gráfica Fernanda Martins, especializada em Tipografia e Design com foco na região amazônica, e que também coordena o projeto “Letras que Flutuam”. Além disso, contou com a colaboração de Alessandro Lima Abreu, um profissional da pintura que deu os primeiros passos em sua carreira aos 14 anos, auxiliando seu pai. A trajetória inicial de Alessandro na pintura se assemelha a de muitos jovens na região, onde seu pai cuidava dos traços das letras, enquanto Alessandro ficava responsável por preencher os desenhos.

Abaixo você lê com exclusividade o texto curatorial de Carlos Alcantarino, organizador da exposição:

CABOCLOS DA AMAZÔNIA: ARQUITETURA, DESIGN E MÚSICA

Nascido e criado em Belém do Pará, o céu, a mata, os rios, a atmosfera regional e cultural, para mim tudo era absolutamente normal e corriqueiro. Anos se passaram, radicado no Rio de Janeiro, trabalhando como designer e atuando em algumas frentes relacionadas às artes, volta e meia voltava a Belém. O olhar mudou. Navegando pelos furos na ilha do Combu, me dei conta de que aquele cenário era de uma exuberância única, e aquelas simples casas pareciam ter nascido naqueles locais. Parece pouco? Não é.

Ficava imaginando projetos de renomados arquitetos, e cada vez mais essa arquitetura invisível e pura do caboclo me parecia a melhor alternativa para acompanhar a floresta, protagonista da cena. Iniciei uma pesquisa, viajei pelo Marajó fotografando vilas de pescadores e centros urbanos, entrei nessas casas e deparei com uma explosão de cores. É interessante essa completa dissociação da arquitetura e decoração com o restante do país, onde o minimalismo e as cores neutras predominam. Percebi que poderia agregar nessa busca outras expressões  artísticas dessa região, com o mesmo conceito original, desvinculado de qualquer tendência vigente – como as letras abertas que denominam os barcos amazônicos, um legado que muitas vezes passa de pai para filho, criando intuitivamente uma identidade gráfica.

Os objetos nascem não apenas pela necessidade do seu uso, como canoas e redes, mas muitas vezes com um pensamento involuntariamente lúdico, cuja função é apenas transmitir a magia desse povo, como por exemplo uma banca de ervas e garrafas no mercado Ver-o-Peso que resulta em uma bela instalação sensorial.

Finalmente, a música local é a trilha sonora desse conjunto denominado cultura amazônica, embalando e contagiando com personalidade ímpar. Nossa proposta é apresentar uma amostra desse universo, oriundo do mais puro sentimento caboclo.

Como resultado da exposição, foi produzido um catálogo que inclui textos contribuídos por conceituados autores, sendo a apresentação assinada pela renomada jornalista Adélia Borges, que detém o título de Doutora Honoris Causa concedido pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Abaixo pode-se ler com exclusividade pela Philos o texto de Adélia sobre a exposição:

A Amazônia é internacionalmente conhecida por suas riquezas naturais. O que poucos conhecem são as riquezas construídas pelas mulheres e pelos homens que a habitam. Esta exposição desvenda o universo da arquitetura e do design elaborados na Amazônia, mostrando que as criações locais atendem com muita inteligência as funções a que se destinam e são totalmente adaptadas ao território em que se inserem. Ao contrário de agredir a natureza, convivem harmonicamente com ela.

Mas elas vão muito além. Não basta que as casas sejam erguidas sobre palafitas para enfrentar bem a subida das águas e descida das águas ou que os objetos utilizem com sabedoria as matérias-primas do território. Em tudo se vê um vocabulário formal incrível. Tudo é exuberante e superlativo. Não há monotonia. Em oposição a um mundo que fica cada vez mais homogêneo, igual e monótono, aqui se vê uma diversidade de cores e grafismos a expressar o desejo de beleza e a expressão individual de cada morador. As cercas que delimitam o privado do público são vazadas para propiciar a necessária ventilação em ambientes de alta umidade do ar, sendo portanto uma solução coletiva adaptada ao meio. Mas cada uma tem a sua identidade própria, em grafismos que parecem nunca se repetir. Os interiores das residências poderiam estar em revistas de arquitetura e decoração, se elas se abrissem para a expressão popular, tal a personalidade dos ambientes que combinam sem constrangimento diferentes estampas e materiais, dos plásticos à toalhinha de crochê, e sempre com muitas, muitas cores.

O organizador desta surpreendente e valiosa exposição reúne condições ideais para a tarefa que empreendeu. Carlos Alcantarino nasceu no Pará e portanto enxerga desde “dentro” a realidade que aborda. Ao mesmo tempo, soma o olhar “de fora”, pois há 40 anos foi para o Rio de Janeiro, onde construiu uma carreira nacional e internacional solidamente reconhecida. Tem, portanto, repertório mais do que suficiente para navegar nessas águas. Alcantarino se cercou de outras pessoas que também nutrem um olhar experiente e amoroso em relação à região, a exemplo da designer Fernanda Martins, que fez a seleção dos letreiros dos barcos, ampliando o acesso à sua pesquisa sobre os “abridores de letras”, como são conhecidos os pintores de barcos, e trazendo três deles para a frente da cena, garantindo seu protagonismo. Os objetos vernaculares como o carrinho de raspa-raspa e as garrafadas de ervas, as fotos mostrando a diversidade das embarcações artesanais e os objetos carregados de significado espiritual ofertados por ocasião do Círio, entre outros, compõem um conjunto muito estimulante, e tudo isso embalado pela música da região, igualmente diversa e vibrante.

Ao trazer à luz esses múltiplos inventários, esta exposição vai incentivar que esse rico patrimônio seja respeitado e valorizado por todos aqueles que querem um futuro melhor, em que o fazer humano não só não entre em choque com a natureza, mas também celebre com formas e cores a alegria de estarmos vivos.

Carlos Alcantarino, Belém, Pará, Brasil.

Carlos Alcantarino nasceu em Belém do Pará, em 1958, e mudou-se para o Rio de Janeiro em 1982, onde está baseado até hoje.  Designer autodidata possui graduação em engenharia civil e mestrado pela PUC-Rio. Em 1996, fundou o Estúdio Alcantarino, especializado no desenvolvimento de móveis e objetos utilitários, projetos arquitetônicos e cenográficos, e consultoria em design. Reconhecido por seu trabalho inovador em design sustentável e socioambiental, já participou deinúmeras exposições internacionais e conquistou os principais prêmios de design no Brasil e no exterior.

O Instituto Cultural Vale acredita que a cultura transforma vidas. Por isso, patrocina e fomenta projetos em parcerias que promovem conexões entre pessoas, iniciativas e territórios. Seu compromisso é contribuir com uma cultura cada vez mais acessível e plural, ao mesmo tempo em que atua para o fortalecimento da economia criativa.

Desde a sua criação, em 2020, o Instituto Cultural Vale já esteve ao lado de mais de 800 projetos em 24 estados e no Distrito Federal, contemplando as cinco regiões do país. Dentre eles, uma rede de espaços culturais próprios, patrocinados via Lei Federal de Incentivo à Cultura, com visitação gratuita, identidade e vocação únicas: Memorial Minas Gerais Vale (MG), Museu Vale (ES), Centro Cultural Vale Maranhão (MA) e Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (PA). Onde tem Cultura, a Vale está!


Serviço: Exposição “Caboclos da Amazônia: arquitetura, design e música”, de Carlos Alcantarino. Abertura dia 17 de abril de 2024, no Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial, na Praça XV de Novembro, 48, Centro, Rio de Janeiro, RJ.Visite o site do Instituto Cultural Vale: institutoculturalvale.org

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