Na exposição Uma Contra-História do Brasil, o artista libanês-brasileiro traz um olhar sobre o passado nacional a partir de grupos historicamente invisibilizados.

A Zipper Galeria encerra o calendário expositivo deste ano com Uma Contra-História do Brasil, individual do artista libanês-brasileiro Camille Kachani. No conjunto inédito de 12 obras, Kachani revisita criticamente a construção histórica do país, propondo outra leitura a partir de povos originários, africanos escravizados e imigrantes europeus, cujas experiências foram em grande parte silenciadas no discurso oficial. Com curadoria de Ícaro Ferraz Vidal Junior, a mostra tem abertura no dia 16 de outubro, às 18h. 

Obra de Camille Kachani (2025)

Inspirado no procedimento de Michel Onfray ao formular uma “contra-história” da filosofia, Kachani desloca o foco do cânone para protagonistas invisibilizados. “Nestes trabalhos, tento recontar, por meio de alusões e símbolos, a história do País pelos olhos dos povos que, embora tenham formado ou construído o Brasil, não participaram da elaboração da História Brasileira”, afirma o artista. Em seu vocabulário visual, materiais naturais e artefatos culturais se entrelaçam, reabrindo disputas sobre quem nomeia, mapeia e narra o território. 

Obra de Camille Kachani (2025)

Entre esculturas e objetos em técnica mista, apresenta “Pindoretama” (2025), título que evoca a nomeação tupi do território, o artista transforma o “solo” em tecido ou bandeira, abordando uma disputa simbólica. “Contra-História do Brasil” (2024) aproxima a diversidade genética de povos e a natureza de um país marcado por ciclos de predação. Em “Pau-Brasil” (2024), um tronco-escultura condensa a ambivalência entre mercadoria e mito de origem, fazendo emergir narrativas autóctones. “Desmapa I” e “Desmapa II” (2025) propõem cartografias sem reconhecibilidade, enquanto “Mundus Hodiernus I/II” (2025) inverte mapas-múndi para sugerir a repetição global de conquista e apagamento. Já “Brazilapopolo” (2025), “os povos do Brasil”, em esperanto, elabora, por meio de uma trama de plantas e sinais, a constituição mestiça do país. 

Com humor ácido e precisão formal, Kachani desarma a suposta neutralidade dos objetos. Ao “fazer brotar” galhos, raízes e inscrições de ferramentas, livros e móveis, suas esculturas encenam a fricção entre natureza e cultura, tradição e modernidade, apagamento e lembrança. Em vez de ilustrar a história, o conjunto a reconfigura por imagens — “uma arqueologia crítica do presente”, nas palavras do próprio artista. 

Obra de Camille Kachani, Bem Olhado (2025)

Camille Kachani (Beirute, Líbano, 1963) é artista libanês-brasileiro. Vive e trabalha em São Paulo. Sua prática transita entre escultura, objeto, colagem e fotografia, investigando identidade, pertencimento e a transformação da natureza/cultura através de objetos do cotidiano e materiais orgânicos. 

Obra de Camille Kachani (2025)

Serviço: Exposição Camille Kachani — Uma Contra-História do Brasil com texto curatorial de Ícaro Ferraz Vidal Junior na Zipper Galeria — R. Estados Unidos, 1494, Jardim América, São Paulo – SP. Abertura: 16 de outubro de 2025 (quinta-feira), 18h — 21h. Período: 17 de outubro à 20 de dezembro de 2025. Funcionamento: Segunda a sexta, das 10h às 19h e aos sábados, das 11h às 17h. Entrada: gratuita.

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