Com curadoria de Lucas Dilacerda, projeto reúne Bárbara Banida, Jane Batista, Gi Monteiro e Telma Gadelha em torno da cor, da matéria e de diferentes formas de transformação

A força da cor e da matéria é o ponto de partida de “Ignição”, projeto que a Cave Galeria apresenta na ArtRio 2026, entre os dias 16 e 20 de setembro, no pavilhão Brasil Contemporâneo. Com curadoria de Lucas Dilacerda, a exposição reúne as artistas Bárbara Banida, Jane Batista, Gi Monteiro e Telma Gadelha, quatro pesquisas distintas que encontram na transformação um território comum.

O título da mostra remete ao instante descrito pela física em que uma energia acumulada ultrapassa determinado limite e desencadeia uma mudança. Na exposição, o conceito ganha outras dimensões: a cor, a matéria e o corpo aparecem não apenas como elementos formais, mas como agentes de transformação capazes de mobilizar memórias, paisagens, identidades e imaginários.

A proposta também evidencia uma das frentes de atuação da Cave, galeria sediada em Fortaleza, no Ceará, que vem ampliando a circulação de artistas e pesquisas produzidas fora dos principais centros tradicionais do mercado brasileiro.

Entre as artistas participantes está Jane Batista, vencedora do Prêmio PIPA 2026, cuja produção parte da fotografia e do autorretrato para construir relações entre corpo, natureza e ancestralidade afro-indígena. Galhos, folhas, sementes, tecidos, carvão e barro entram em suas imagens como extensões do corpo, criando composições em que a identidade aparece como algo em permanente elaboração.

A dimensão material também é central na pesquisa de Bárbara Banida, que apresenta esculturas marcadas por formas híbridas e organismos imaginários. Plantas, animais, minerais e seres fantásticos se misturam em trabalhos relacionados à criação de “Erotar”, planeta em regeneração imaginado pela artista. A matéria, nesse universo, não é estática: está sempre em processo de mutação.

A artista participa ainda, durante a feira, da mesa “Diálogos entre Arte Contemporânea e Popular Brasileira – Fazer com as Mãos”, marcada para sexta-feira (18), às 17h. O encontro contará também com Renata Egreja, Lucas Beuque, do Museu do Pontal, e Paula Borghi, curadora do programa Brasil Contemporâneo.

Na produção de Gi Monteiro, o escuro assume outro papel. Artista travesti negra, ela investiga a escuridão como espaço de liberdade, potência e germinação. Formas abstratas, pigmentos naturais e superfícies intensamente coloridas constroem imagens nas quais aquilo que não é imediatamente visível ganha força. Em “Ignição”, a cor pode ser percebida justamente como uma energia que emerge desse campo escuro.

Telma Gadelha aproxima pintura, cultura popular e imaginários religiosos. Santos, máscaras, espíritos, demônios e referências contemporâneas povoam suas telas, criando uma espécie de sobreposição entre o sagrado e o profano, entre diferentes temporalidades e universos simbólicos. A cor, em sua produção, atua como elemento de expansão, ocupando a superfície e tensionando os limites da representação.

Ao aproximar quatro artistas mulheres de diferentes trajetórias e linguagens, “Ignição” não busca estabelecer uma estética única. O projeto parte justamente das diferenças entre as pesquisas para construir uma exposição em que corpo, natureza, memória, ancestralidade e imaginação aparecem atravessados pela potência da matéria.

Para a Cave, a participação na ArtRio representa também uma continuidade de seu trabalho de inserção da produção artística cearense e nordestina em circuitos mais amplos. Fundada em 2020 e dirigida pelo galerista Pedro Diógenes, a galeria nasceu de maneira itinerante antes de estabelecer sua sede em Fortaleza e, desde então, desenvolve ações em contextos locais, nacionais e internacionais.

A presença na feira carioca amplia esse movimento ao colocar em diálogo pesquisas que partem de diferentes territórios e experiências com um público formado por colecionadores, curadores, instituições e profissionais do mercado de arte.

Curador de “Ignição”, Lucas Dilacerda é membro da AICA — International Association of Art Critics. Sua atuação transita entre exposições e textos críticos dedicados às poéticas contemporâneas, com pesquisas que articulam estética, política, ecologia e perspectivas decoloniais. Em seu trabalho, também investiga as relações entre espectralidade e materialidade na arte contemporânea.

Com “Ignição”, a Cave chega à ArtRio propondo uma leitura em que a transformação não está apenas no conceito da exposição, mas no próprio modo como as artistas trabalham seus materiais. Entre fotografias, esculturas e pinturas, a matéria deixa de ser suporte para se tornar força: algo que se move, se transforma e produz novos imaginários.

Serviço: Cave na ArtRio 2026 — “Ignição”, com curadoria de Lucas Dilacerda, com as artistas Bárbara Banida, Jane Batista, Gi Monteiro e Telma Gadelha, de 16 a 20 de setembro de 2026 na ArtRio 2026, na AXIA Marina da Glória — Av. Infante Dom Henrique, s/n, Glória, Rio de Janeiro.

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Publicado por:Philos

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