Há tempos danço com o corpo e arte que fala da corporalidade. Desde os tenros três anos meu coração pulsa pelos palcos do Ballet clássico. Nunca parei de experimentar, ao longo dos anos, diferentes formas de movimentos e técnicas a desvendar. Foi na RPG que despertei, mergulhei no meu ser e nas vivências da juventude, como um rio a me contar da união delas, teceram-se cachoeiras de conexões. Na globalidade do corpo, o universo a bailar. Consciente, agora vejo com clareza, que os fios que nos ligam são, invisíveis e tangíveis, como teias a se entrelaçar. Cada experiência, um elo, uma história em comum, nossas vidas se cruzam, em um eterno dançar. Sou mulher artista da América Latina que fala da essência do ser.
Ao criar, busco conectar-me com as raízes ancestrais que habitam em mim, honrando os saberes tradicionais que foram transmitidos ao longo das gerações. Minha jornada artística é um constante diálogo entre o passado e o presente, entre o local e o universal. Em cada obra, busco não apenas expressar minha individualidade, mas também compartilhar uma parte da alma coletiva de minha terra natal. Cada movimento, cada obra de arte é uma ode à beleza e à complexidade deste lugar que chamo de lar. No trajeto da minha jornada, adentrei os caminhos do consultório, onde pessoas e seus corpos revelavam histórias. Cada troca, uma semente para minha arte, um horizonte a desvelar, em meio a essa dança de saberes, uma dor profunda a me ensinar. Ano após ano, o lamento se repetia, uma gravidez, uma perda, um ciclo cruel que despedaçava meus sonhos, minha esperança suspensa. Foi então que decidi canalizar minha força para outro lugar, da gestação de um Ser ao parto de uma obra de Arte a germinar. Sou mulher artista da América Latina que teve sua arte vindo do útero.
Na Comunidade de Afeto, entre pincéis e tintas, encontrei meu refúgio. Um ateliê como um santuário, um templo de acolhimento. Sob a luz, em passos sincronizados, descobri que a força criativa que me impulsiona brota do meu ventre consagrado. Nesse encontro comigo mesma, um despertar inesperado, a compreensão de que cada traço, cada cor, é uma extensão do que sou. O útero, centro da minha criação, fonte inesgotável de inspiração. Na América Latina, terra fértil de mulheres que tecem o próprio destino, encontro minha potência. Nas encruzilhadas dos encontros, mergulhei em reflexão profunda. Perguntas que rondavam minha trajetória, desvendando a trama do mundo. Cada resposta revelava um fio, um elo a se encontrar, e assim, encontrei o caminho, onde passado e presente estão a se entrelaçar. Percebi então o cruzamento, o encontro de cada jornada vivida, erguendo um espelho diante de mim, revelando a estrada percorrida. De reabilitadora à a artista no ateliê, da dor da perda à criação que se erguia dentro de mim ao engravidar. Vi o tecido da minha vida se entrelaçar, em uma dança de harmonia. A dificuldade de conceber, um vazio que se tornou fonte de criação. Cada pincelada, cada traço, uma expressão dessa emoção. Do laboratório do corpo às telas em branco, a vida se desdobrava e a arte se tornava um testemunho, um eco do que se passava.
Ficou inteiro, sem rompimento, redondo, e ao me apropriar desse percurso, sinto mais força, energia e confiança para prosseguir nesse caminho. Sou mulher artista da América Latina que usou de todas as vivências pra alimentar Arte.
Desde 2009, mergulho nas profundezas da argila. No projeto “Pés do Mundo”, cada pé é uma semente viva, todos moldados em íntimo contato, argila e corpo em comunhão. Guardando memórias em sua matéria, uma poesia em expansão. Cada pé, um testemunho, uma história a desvendar, um elo entre tempos, entre corpos, a se entrelaçar. E assim, essas sementes, ao longo dos anos, se desdobram em instalações que ecoam o pulsar da vida que se renova. Paralelo a esse caminho, nasceu a série “Sementes do Ser”, em argila terracota, círculos com sulcos a florescer. Em 2021, na Comunidade de Afeto, um novo despertar! Ovos de argila, símbolos de vida a se revelar. A cada encontro, mais ovos brotavam, espontânea criação, e no cerne desse processo uma profunda conexão. O ovo do corpo, acoplamento do tronco e da bacia, um símbolo de firmeza, de sustentação e de graça. É a contenção para que o sopro da vida possa transitar e realizar todo o seu potencial nas experiências específicas dentro do corpo – casa. Nesse fluir da criação, arte e vida se entrelaçam, revelando os mistérios desse constante pulsar que nos chama. Um contínuo movimento, um ciclo sem fim, onde cada obra é uma página, um capítulo dentro de mim. Sou mulher artista da América Latina que tece suas histórias na argila, integrando arte e vida em cada dobra e cada linha.
Ovo do corpo, moldado pelas mãos que anseiam tocar. A Unidade que se forma, na rede de tensões a se ajustar. A plasticidade da matéria, em cada músculo, se faz presente abrindo caminho para a fluidez, na integração que se sente. Através de um processo de conscientização dos padrões que as deslocam do lugar original, é possível encontrar a tensão justa entre os grupos musculares, o que vai permitir a estruturação do corpo no encontro com os limites dessas tensões. No reencontro com o eixo, surge a firmeza da parede abdominal, o “ovo do corpo” se revela, uma unidade em seu portal, o ato do Ser estar integrado e enraizado em seu próprio corpo e no universo. Invisível aos olhos é a qualidade do tônus, mas perceptível ao toque que conduz, refletindo o ser essencial, transparente e a luz.
Nessa busca incessante, permito-me ser através do corpo, o ponto de encontro constante. Na dança dos músculos e da alma, em cada gesto, em cada toque, a expressão que acalma. Sou mulher artista da América Latina que busca, através do meu corpo, ser o ponto de encontro entre o céu e a terra.
Quando o corpo se entrega à ausência de controle, uma presença maior se revela, sem forma, sem papel. Solto, sem nenhuma atitude nele, só a presença na carne, na matéria em si. Sinto então os fluidos em movimento, os cheiros a ecoar, reverberar, as formas estranhas que a matéria do corpo pode tomar. Na carne e em tudo ao redor, só a presença se faz sentir, uma dança de transformações, uma arte a existir. Ao focar em uma dessas metamorfoses, um milagre se desvela, a dissolução de uma forma, a chegada em outra estrela. Da densidade para a sutileza, do ritmo à vibração, o corpo se reinventa, em constante transição. Uma sinfonia de mudanças, uma poesia a se desdobrar, nas camadas do ser, na essência a pulsar. No caminho de volta para casa, na atenção plena ao ser, o corpo se torna lar, onde a vida pode florescer. Sou mulher da América Latina que, na conexão profunda se desvela, transparente diante do mundo, onde a alma se revela.
Artista em constante busca, permitindo-me ser,
Através do corpo, num encontro vibrante a florescer.
ANA BIOLCHINI é uma artista contemporânea brasileira, interdisciplinar, que trabalha com conceitos da vida e da consciência corporal, experimentando diferentes mídias: instalação, cerâmica, vídeo, pintura, fotografia, serigrafia, bordado, performance e ações, abraçando uma linguagem simbólica. Para Ana, a arte é uma experiência de conexão e transformação. Ela traz conceitos de arte consciente, ancestralidade e sistemas de arquétipos relacionados às dimensões inconscientes do coletivo, conectando processos de vida, morte, tempo e memória. O fio é outro elemento que atravessa o trabalho de Ana e pode fazer conexões entre as camadas do corpo, conexões no tempo, no espaço da arte, no despertar da memória e nas correlações ancestrais. Ela trabalha e tem seu estúdio no Rio de Janeiro, Brasil.