Apresentamos a estreia da coluna “Delulu”, projeto multiplataforma com a artista Maria Olivia Aporia

O mundo atual não é exatamente racional — ele apenas se vende assim. Há delírio na produtividade, na busca por relevância, na economia da imagem, na obsessão por autenticidade, nas dinâmicas de consumo, nos discursos de sucesso, nas promessas de liberdade e nos rituais diários de autopromoção.

Nesse território, a vida cotidiana se torna matéria crítica. Uma festa pode revelar uma política do corpo. Um feed pode funcionar como vitrine, confessionário e campo de batalha. Um trabalho pode ser vocação, armadilha e performance. Uma tendência estética pode carregar sintomas de classe, desejo, exaustão e disputa simbólica.

DELULU transforma esses ruídos em pensamento como um arquivo vivo das pequenas ficções que sustentam a vida contemporânea: a cidade, a noite, a imagem, o dinheiro, o trabalho, o consumo, a fé ou a falta dela, a linguagem, o cansaço, o espetáculo, o riso nervoso de quem percebe que quase tudo virou conteúdo e incontáveis cinzeiros transbordantes.

Uma coluna quinzenal para sobreviver ao absurdo com precisão e pouca pretensão. Um espaço onde crônica, poesia e crítica se misturam para investigar o agora.


Chove e faz frio faz não sei quantos dias incontáveis e intermináveis. Já virou piada como o mundo está derretendo de calor e nós, aqui no Brasil, seguimos travando a batalha de encontrar o ponto G do Lorenzetti de nossas casas. Mas não faz tão frio que eu possa comparar com minha cidade natal. Ainda assim, como odiosa de frentes frias, me dou a permissão de reclamar: o céu cinza, a roupa que não seca, o cabelo que acorda antes de mim e tudo mais que perde a sacanagem.

O céu cinza e eu nos entreolhamos de um jeito ofensivo. Não é um cinza melancólico, desses que me fariam acender uma vela ou escrever uma carta. É cinza de pano de chão mal torcido. Cinza de prédio público. Cinza de manhã em que a luz entra sem iluminar nada. Cinza concreto. A cidade asfaltou pelas cabeças.

Esse concreto no céu me faz pensar no lixo espacial pairando sobre todo o planeta agora. Penso nos satélites mortos, nos pedaços de foguete, nas ferragens orbitando a Terra, nos restos de missão girando em volta de nós como pensamentos que ninguém conseguiu encerrar. A nossa estratosfera acumula entulho — e isso, de nada me conforta. Pelo contrário: me desespera.

Porque, a princípio, era só uma manhã ruim. Uma coisa de quarto. Louça na pia, roupa úmida, trabalho atrasado, corpo sem vontade, mensagem que eu não queria responder, mensagem que eu queria receber, boleto com vocação de assombração e outras tantas exímias banalidades. Mas basta olhar pra o céu de concreto e lembrar que existe lixo girando em volta do planeta para a angústia deixar de ser só minha.

Prefiro dez mil vezes chorar ardendo no sol e queimando a sola do pé. Prefiro o vapor quente subindo depois da chuva rápida no calor do asfalto. Prefiro o exagero do calor, a violência da luz mesmo na noite, o corpo reclamando de fora para dentro.

O frio joga baixo. Entra sem cena. De fora pra dentro — escroto. 

O único remediável para tal faca que me atravessa é ir para a rua sem nenhum plano. A rua está naquele estado de água parada, toldo pingando, carro passando em poça como se tivesse inimigos pessoais. As pessoas estão caminhando mais rápido que o normal, com guarda-chuvas tortos — prontos para virar para-raios — e sacolas coladas no corpo. 

Alguém tenta vender alguma coisa mesmo debaixo de chuva. Sempre tem alguém tentando vender alguma coisa. A calçada escorrega, os prédios parecem guardar uma umidade antiga, de parede que já viu muita promessa mofar. Uma senhora segura a barra da calça para não molhar. Um entregador se abriga na marquise estreita, equilibrando celular, mochila, chuva e paciência. Um homem toma café em pé no balcão de uma padaria horrível e olha para fora com a seriedade de quem acompanha um julgamento.

Bêbados, senhoras, jovens desempregados e pais levando seus filhos pequenos para escola – que sempre me fazem chorar. Uma criança pisa numa poça com alegria criminosa. O adulto ao lado finge irritação, mas não tem força moral para impedir. Eu também não teria. Tem dias em que a poça é a única forma de insubordinação disponível e eu até aceito sentar na mesa de plástico e tomar a chuva enquanto meu pastel fica ensopado da água suja que cai do céu.

Busco sair na rua nessas horas para não dissociar. Ninguém performa nada muito bem na chuva, a calça gruda, o aplicativo encarece, a maquiagem escorre, a sacola que sempre rasga, o sapato que sempre se descobre um furo na sola. A pressa fica ridícula e, enfim, o corpo aparece. E o corpo é sempre uma interrupção no discurso.

Em temporada aberta por São João, signo de Câncer, a casa quatro do meu mapa e outras implicações como uma lua crescente, penso que quero comer tudo de branco, calórico, cozido e quente. Arroz branco, canjica branca, queijo. Pão com manteiga, requeijão. Mingau. Macarrão sem molho. Batata. Leite. Qualquer coisa que não queira ser experiência, só parede. Reboco. Massa corrida por dentro.

Quero uma lua cheia dentro de mim. Comer coisas brancas, calóricas e não explicar minha própria existência.

A chuva continua. Um ônibus passa pesado, abrindo água no meio-fio. Alguém xinga. Alguém ri. Alguém atende uma ligação dizendo “tô chegando”, sem estar chegando coisa nenhuma — e nessa eu sou mestra. Dias cinzas, frios e chuvosos  a fio fazem estragos discretos.

Eles não derrubam ninguém de uma vez. Mas cada dia vai baixando o teto. Vai diminuindo a ambição. Vai fazendo a alma procurar tomada de três pinos e vinte amperes, desesperada por um benjamin que nem existe mais para vender. Vai lembrando que existir também depende de temperatura, digestão, luz natural, saldo bancário e alguma coisa quente no estômago. E no caso, eu e a torcida do Corinthians estamos sem nada disso.

A chuva transforma qualquer deslocamento numa pequena negociação com a queda. Penso nisso enquanto atravesso uma rua que não precisava ser tão hostil. Penso no lixo espacial de novo. Penso que talvez a Terra seja só uma casa grande onde ninguém sabe direito onde guardar o que sobrou. Penso que meu quarto também. Penso que minha cabeça também. Penso que talvez viver seja administrar acúmulos: objetos, promessas, arquivos, conversas, imagens, restos de versões anteriores e muitos segredos infelizes.

E nada disso precisa virar personagem. Está tudo ali apenas fazendo pressão. É isso que me interessa: a pressão. A pressão do céu baixo, da roupa úmida, do mês passando e do mês passado. Do dinheiro. Da imagem que precisa circular. Da vida que precisa parecer coerente. Da noite mal dormida. Da noite em que fui mal comida. Da comida que vira consolo sem pedir licença. Da vontade de mudar a vida disputando espaço com a vontade de me deitar e virar um móvel.

O absurdo não chega fantasiado. Ele chega na terça-feira molhada, no café que é bom justamente porque é ruim, no guarda-chuva quebrado, na notificação de alerta civil, na poça que molha as canelas, numa frase que você escreve para justificar o fato de ainda estar aqui. A farsa aparece nas pequenas coisas. E em dias cinza ela fica mais visível. Como mofo na parede, como rachadura em pintura nova. Como o meu lixo em órbita. 

A chuva dá uma trégua pequena, dessas que não merecem confiança. As pessoas saem das marquises e toldos, e qualquer conveniência ao mesmo tempo, como se alguém tivesse liberado a cena. Eu também saio. Não resolvi nada,  mas sigo. Com precisão nenhuma, talvez. Com pouca pretensão, certamente. E com a suspeita cada vez mais firme de que o delírio é achar que dá para seguir sem providenciar grandes estragos.

A artista Maria Olivia Aporia.

Maria Olivia Aporia nascida em 1995 em São Paulo, mora no Rio de Janeiro. É escritora, poeta, artista visual e produtora cultural. Formada em Comunicação e Multimeios pela PUC-SP, pós graduada em artes visuais pela FAAP-SP e foi estudante do COS, Núcleo de Estúdos de Semiótica da PUC-SP. Transita entre literatura, artes visuais, memória, corpo, fé, desejo e ruína. Sua escrita nasce do atrito entre delicadeza e brutalidade: investiga as formas de sobreviver ao amor, à fome, à cidade, à família e às pequenas catástrofes íntimas que moldam uma vida. Escreve desde que sonha e grita porque tem garganta.

O livro de estreia de Maria, Bem onde nascem as azinhas e vez ou outra se abrem as crateras, está em pré-venda na lojinha da Casa Philos. Na obra, a artista constrói uma linguagem visceral e luminosa, onde o cotidiano se mistura ao sonho, ao rito e à ferida. Sua obra afirma uma voz feminina contemporânea, aguda e sensível, capaz de transformar queda em imagem, cicatriz em pensamento e abismo em literatura. COMPRE JÁ O SEU!

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Publicado por:Philos

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