No corpo curvo e futurista do Museu de Arte Contemporânea de Niterói – MAC Niterói, projetado por Oscar Niemeyer, a arquitetura icônica cede lugar a uma outra construção — simbólica, política e sensível. A partir de 28 de março, o museu se converte em uma casa imaginária com a abertura de UM TETO, exposição coletiva que tensiona as fronteiras entre o espaço doméstico e o campo da arte contemporânea.

Com curadoria de Luiza Testa, a mostra reúne trabalhos de Ayla de Oliveira, Carla Duncan, Dayane Tropicaos, Elisa Arruda, Iahra, Maria Lynch, Marina Quintanilha e Marlene Stamm, articulando um percurso que atravessa questões urgentes como o trabalho doméstico não remunerado, o cuidado, a invisibilização e as desigualdades raciais e sociais. Mais do que um recorte temático, UM TETO constrói uma experiência narrativa: o visitante percorre ambientes de uma casa — da sala ao ateliê — enquanto atravessa camadas históricas e estruturais que condicionam a produção artística de mulheres.

O ponto de partida conceitual é o ensaio Um teto todo seu (1929), de Virginia Woolf, que reivindica condições materiais e simbólicas para a criação feminina — independência financeira, tempo, educação e espaço. Quase um século depois, a exposição retoma a provocação e a desloca para o presente: que “tetos” ainda precisam ser conquistados para que mulheres não apenas criem, mas permaneçam no sistema da arte?

Essa pergunta se desdobra em obras que habitam e tensionam os cômodos da casa. Logo na entrada, Elisa Arruda apresenta cadeiras “impossíveis”, esculturas que evocam permanência e desconforto, sugerindo a relação ambígua das mulheres com o espaço doméstico. Na sala, a instalação em papelão de Iahra amplia a ideia de casa como lugar de sociabilidade, reivindicando o direito de circulação e presença para além da esfera privada.

Busto female, obra de Elisa Arruda

A cozinha, historicamente associada ao feminino, é ocupada pelas pinturas da série Arranjos, de Carla Duncan, que tratam da invisibilização do trabalho doméstico e do cuidado. Já na área de serviço, Dayane Tropicaos explicita as engrenagens de desigualdade que sustentam esse sistema com Abre Caminho, instalação que evidencia a precarização de funções exercidas majoritariamente por mulheres — atravessadas por marcadores de raça e classe.

O percurso se torna mais íntimo ao chegar ao quarto, onde Ayla de Oliveira investiga espiritualidade e subjetividade, e ao banheiro, espaço em que Marina Quintanilha tensiona padrões estéticos e normativos por meio de objetos cotidianos, como na escultura Calcinhas. Ao longo da exposição, intervenções de Marlene Stamm funcionam como linhas de costura que conectam os diferentes ambientes, criando continuidades e fricções.

A travessia culmina no ateliê, ocupado por Maria Lynch com a instalação Disjunção espacial, composta por tecidos coloridos que expandem o espaço e instauram uma espécie de clímax sensorial. “Nós saímos de gestos muito contidos e vamos para gestos muito coloridos e expansivos. É como se isso fosse trabalhado ao longo da exposição toda, para chegar numa explosão do inconsciente, que é a obra da Maria”, afirma a curadora.

Ao transformar o museu em casa, UM TETO não propõe abrigo, mas deslocamento. Entre paredes simbólicas e estruturas históricas, a mostra sugere que ainda há muito a construir — e a desestabilizar — para que o espaço da arte seja, de fato, habitável para todas. UM TETO fica em cartaz até 7 de junho.


Serviço: Exposição UM TETO com curadoria de Luiza Testa no Museu de Arte Contemporânea de Niterói – MAC Niterói, de 28 de março a 7 de junho de 2026. Endereço: Mirante da Boa Viagem, s/n – Boa Viagem, Niterói – RJ. Funcionamento: terça a domingo, das 10h às 18h. Ingressos: Inteira: R$ 20,00, Meia – entrada: R$10,00.

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Publicado por:Philos

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