O pó de café acabou e desabando o maior toró lá fora. Desce correndo para buscar, a rua virou um rio, afunda os pés na água imunda para atravessar.
Voltando do supermercado, uma mão ocupada com a sombrinha, a outra com a sacola pesada, comprou também laranja, mamão e mais carne para o almoço, vê o buquê abandonado na lata de lixo. Um ramalhete de cores vermelhas, rosas e azuis, bonito de dar vertigem, enfeitando a lata de lixo. Flores crianças, ainda em botão, embaladas em papel de seda dourado e unidas por uma fita de cetim preto, chamando por ela, da lata de lixo.
Não teve como, retrocedeu o passo. Meio encabulada, espiou os lados, antes de salvá-las dos restos fedorentos. Mas a cortina grossa de água a protegeu de outros olhos. Fez um lugar para o buquê na sacola e seguiu seu caminho sem olhar para trás.
Na dona Débora ninguém tinha acordado ainda, trocou a roupa molhada pelo uniforme, lavou bem os pés. Preparou o café, cortou a fruta e pôs a mesa. Então foi cuidar das flores. Desembrulhou o papel e guardou a fita de cetim, reconhecendo o logo da Fiore, a floricultura mais cara do bairro. Procurou por algum cartão, mas não encontrou. Escolheu o vaso de cristal meio torto e encheu de água. Assimétrico, tinha corrigido dona Débora, achando graça. Cortando os caules em diagonal, pensou uma novela para o buquê. Gostava de imaginar história de amor: Para quem seria? Por que teria jogado no lixo? Por amor ou ódio? Tinha que ter muita coragem para fazer isso. Terminou o arranjo e ia depositar o vaso na mesa do café da manhã, mas um receio impediu o movimento: Se dona Débora descobrisse que catou as flores do lixo ia mandar ela jogar fora. Então levou o vaso para seu quartinho no fundo da lavanderia.
Afinal, o buquê era bonito demais, e o primeiro, que tinha recebido na vida.
BEA CORREA é designer e escritora paulista transitando entre Brasil e Holanda. Estudou direito na USP e design gráfico na Gerrit Rietveld Academy. Atualmente está cursando pós-graduação em escrita criativa e arquitetando um novo espaço de arte em Amsterdã. Na página web mindwhatyouwear.com escreve sobre pequenas e grandes questões existenciais em forma de moda. Publicações na Aboio, Ruído Manifesto, Revista Ria, Cassandra, Toró Editorial, Jirau de Histórias e em coletânias da Pinturas das palavras, Escreviventes, Primavera editorial, Caos e Letras, Philos e Selo Off Flip (finalista 2023, categoria conto).