A Galeria ZOIO nasceu da inquietação de dois olhares que se encontraram no Cosme Velho, no Rio de Janeiro: o de Thaisa Laffitte e o de Marcos Pereira. O espaço, idealizado pelo casal, emerge como um território de liberdade criativa, um abrigo para artistas iniciantes e uma plataforma que aposta na juventude como força transformadora da cultura.
Thaisa traz consigo uma trajetória que atravessa a fotografia, a música, os estudos no Parque Lage e uma formação em curadoria de arte moderna e contemporânea. Imersa desde cedo na cena cultural e clubber carioca, cultiva uma relação múltipla com a criação artística — colecionando obras e vinis, mas, sobretudo, cultivando um olhar sensível para a potência da arte em expandir horizontes. Ao lado dela, Marcos compartilha não apenas a vida, mas também os projetos que dão corpo à ZOIO, tornando-a um espaço onde a arte não pede licença: ela ocupa, transforma e reverbera.
Para a sua primeira exposição, a galeria convida o artista Jônatas Moreira (Duque de Caxias, RJ, 1999), cuja obra se inscreve nas encruzilhadas entre identidade, memória e tecnologia. Estudante de pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ e com passagens por instituições como Paço Imperial, Centro Cultural da Justiça Federal e Museu de Arte do Rio, Jônatas desenvolveu também experiência no ateliê de Lúcia Laguna, onde atuou como assistente por mais de um ano.
Seu trabalho propõe um gesto radical: colocar figuras negras em diálogo com dispositivos tecnológicos. Ao fazê-lo, traz à tona representações alternativas da negritude no ambiente digital, abrindo caminho para reflexões sobre democratização tecnológica e tensionando a lógica da obsolescência programada. Há em suas telas tanto nostalgia quanto futuridade, tanto denúncia quanto imaginação. O artista costura memórias pessoais e coletivas, ao mesmo tempo em que insere elementos gráficos de interfaces digitais, criando uma dimensão metalinguística que questiona como se constroem identidades na era das redes sociais.
Ao explorar a presença negra nesse universo, Jônatas também ilumina os impactos do acesso ilimitado a padrões estéticos inatingíveis, trazendo para a pintura o tema da disforia de imagem. Seu trabalho nos provoca a pensar: de que modo as experiências negras se entrelaçam com as narrativas tecnológicas em permanente mutação? Como esses corpos, tantas vezes invisibilizados, se projetam e se reinventam diante da tela e do algoritmo?

A Galeria ZOIO, instalada no bairro de Santa Teresa, conecta-se de forma orgânica ao território em que está inserida. Santa Teresa, com suas ladeiras, sua boemia e sua pulsante pluralidade artística, torna-se extensão e ressonância da proposta da galeria: acolher as diferenças, ampliar diálogos e refletir a diversidade da arte contemporânea.
O espaço expande-se também pela escuta: em breve, abrigará a Rádio Zunido, uma plataforma sonora dedicada a registrar e difundir a cena musical global a partir de um ponto de vista local. A rádio será um canal de troca, onde artistas e curadores poderão compartilhar suas visões e repertórios, criando pontes entre territórios e sonoridades, e aproximando a produção cultural carioca do cenário internacional.
Assim, a ZOIO nasce como um lugar de atravessamentos: entre imagem e som, entre arte e vida, entre passado e futuro. Um espaço para ver, ouvir e sentir — e para imaginar, coletivamente, outros mundos possíveis.
Serviço: Abertura da Galeria ZOIO, dia 27 de setembro das 14h às 22h, na Rua Almirante Alexandrino, 1458 loja D, Rio de Janeiro.