O povoado, a praia, o rio. Um pequeno trajeto de balsa até lá. Gente fazendo a travessia cotidianamente. Havia internet, mas a sensação era de bolha, de isolamento. O mar tocava o horizonte infinito. O céu inteiro. As profundezas das águas, a salgada e a doce. A faixa de areia, nunca percorrida até o fim. A extensão do mangue e suas raízes – aparentes quando a maré descia; submersas, quando subia. Pássaros, frutas, gatos, camundongos, cachorros, aranhas, besouros, formigas, peixes, lagartixas, siris, pernilongos. A mata fechava-se em torno da casinha em diferentes texturas e tons de verde, marrom e amarelo. A umidade. As nuvens. As chuvas.

E ainda assim, uma sensação de um universo encerrado em si mesmo. Aquela casinha. Três pessoas. Um pequeno povoado. E todo o mundo natural que nos envolvia. Em dias de chuva contínua, o sentimento se exacerba. O estrondo do despejo de água sobre o telhado, sobre a mata. Mesmo sem as tempestades. Ao entardecer, os insetos se animam, se tornam falantes. Bater de asas. Coaxar. Cantos. Cigarras. Morcegos no forro. A escuridão se faz presente mais cedo sob a copa das árvores que à beira da água. E o preto absoluto é tudo o que há a partir de dois metros de distância do ponto de luz da varanda. O barulhinho da rede, tecido e gancho rangendo, juntos, sob fricção. A vibração audível da eletricidade que anima a lâmpada amarela pendurada no teto. É sempre, eternamente, audível e presente o barulho do mar ao longe. Um som gordo, preenchido, que na madrugada se agiganta. Parece bater aqui, no pé da varanda. A madrugada não é silenciosa. Quando cessam os ruídos humanos, ouve-se todo o resto. Enorme. Vasto. Microscópico e celeste. Ínfimo e infinito. O mar nunca se faz ausente. E à noite é impossível não o perceber. No turbilhão da flora, da fauna, do litoral, do cosmos, do planeta, dos céus, dos minérios, do magma no centro da terra e das ondas eletromagnéticas. E um corpo também infinito, para dentro, na biologia; e uma consciência que contém e está contida em todo o universo. Células, sangue, excrementos, batimentos, respirações, pulsações, contrações, espasmos, sinapses, circulação. Sonhos, medo, fantasias, planos, angústias, memórias. Tudo ao mesmo tempo, girando, fluindo, correndo, morrendo e nascendo, vibrando, transformando. Dentro, fora, é tudo a mesma coisa; não tem fora. No mar. E mesmo assim, o sentimento de bolha, de clausura, de sufocamento, de que todo o universo é e está ali, apenas. A casinha, o mato, uma, duas, três pessoas. E a escuridão em volta. Onde vivem deuses e demônios, iguais.
Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com
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