Narradora: dúvida | certeza
A genialidade está no narrador. O marido enciumado. Corno. Ou paranoico. Perspicaz ou injusto. Não sabemos quem são, de fato, os outros personagens ou o que acontece sob outro ponto de vista. Tudo o que temos é o relato em primeira pessoa de Bentinho. O narrador no qual não podemos confiar. Quem é Capitu, realmente? Estamos condenados a ler e reler o relato de um casmurro, um encucado. E a cada leitura, novas teorias. “Será?”. “E se…?” Bentinho personifica o arquétipo do narrador tendencioso, posto que consumido pela paixão do ciúme, pela desconfiança. Um mito recontado através de culturas e eras. Sem isso, “Dom Casmurro” não seria um clássico, não teria sobrevivido ao tempo. A dúvida é o grande motor do livro. Uma dúvida que vira certeza. Bentinho é humano, o único do romance. Os demais são, todos eles, projeções de sua mente adoecida. Ele é só, habita um mundo de espectros, de fantasmas. Nós, os leitores, somos seus únicos cúmplices. E para não destruir o universo que criou para si em torno de sua verdade central – a traição de Capitu –, Bento fecha o resto do mundo de fora, onde ressoam outras vozes, outras narrativas, outras perspectivas, outras verdades.
Isso é o que o escritor faz também. O mundo daqui, da página, das elucubrações fantásticas, é demasiadamente sedutor. Nele, Bento é rei. E escritores também. Temos controle absoluto sobre a arquitetura da ilusão que erguemos com paredes reais, nos cercando, nos protegendo. Sim, Capitu o traiu. O conforto que tira dessa certeza não lhe permite mais ter dúvidas. Sem essa convicção, sem a muralha de sonhos e pesadelos erigida página após página, é possível escrever? Os escritores do mundo são Bentinhos, possuídos por uma obsessão, cegos por uma verdade e, no entanto, tateando no escuro à procura de evidências – tão frágeis – que corroborem seus delírios. Não se deve confiar em escritores. Só em suas histórias.
Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com
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