Em julho de 2016, fui pela primeira vez a Varanasi, a mais importante das cidades sagradas hindus e uma das mais antigas do mundo continuamente habitadas. Reza a lenda e historiografia que ali vive gente, à beira do rio, há mais de 5 mil anos. Essa primeira passagem pela cidade foi no período das monções e, portanto, da cheia do rio. Seis meses depois conheceria Varanasi na seca, uma experiência bem diferente, mas sempre fabulosa.

Uma cidade inteira que adora Shiva, o deus da destruição e, logo, do renascimento, da transformação. As águas do Ganges, o rio sagrado do hinduísmo que na mitologia nasce dos cabelos de Shiva, podem oscilar em até 70m de altura, foi o que me informaram. Durante as monções, a cidade é invadida pelas águas e não se vê os degraus dos ghats à beira rio e que decoram toda a margem da cidade antiga. Quando expostos, os degraus são cheios de vida e de morte. As cremações em Manikarnika Ghat ardem sem cessar, a todas as horas do dia e da noite, todos os dias do ano, até 200, 300 corpos por dia. Ali ao lado, ao nascer do sol, do barco, vemos os peregrinos que vêm se banhar em busca de moksha, a libertação do ciclo de reencarnações. Aos poucos chegam os lavadores de roupas. Crianças. Pássaros. Cachorros. Vacas, muitas vacas. Saddhus, os monges ascetas. Vida, morte, excrementos, tudo junto. É de uma intensidade que eu ainda não encontrei paralelo em outro lugar. E é maravilhoso.

As fotos dessa série foram todas feitas em negativo 120mm com uma câmera italiana toda de plástico que comprei num mercado de pulgas por uma pechincha. Por esse mesmo motivo, são todas fotos da vida diurna, das vielas encharcadas aos ghats alagados, com seus degraus conduzindo ao fundo das águas sagradas. Uma cidade dedicada à morte e, logo, à vida que a precede e a sucede. Sem início nem fim.

[Nota da autora: O texto em destaque acima foi extraído da crônica “A arte de morrer”, que publiquei originalmente no “Outras Palavras” em 2017 e posteriormente no livro “O tempo das coisas” (In Media Res, 2018), e que dá para ler AQUI.]


Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com


Leia outros textos da artista:

Gaveta Azul: “Casa na praia”, uma coluna de Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Vermelho-Terra”, uma coluna de Maria Bitarello

Gaveta Azul: “A bondade de estranhos”, uma coluna de Maria Bitarello

Gaveta Azul: “A gente está sempre saindo de casa”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Um dia na vida de uma escola primária em Bombay”, por Maria Bitarello

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