Os relatos em primeira pessoa aqui registrados não têm a pretensão de ser uma análise aprofundada da cultura do povo de Ketu, nem da religiosidade local, nem das divindades cultuadas. As comparações estabelecidas não são as de uma antropóloga, nem de uma nativa, tampouco de uma pessoa do santo. São baseadas, integralmente, na experiência da narradora – e apenas nisso. Com todos os equívocos e encantamentos que isso implica. Mesmo tantos anos depois, a experiência ainda guarda seus mistérios. Novos significados e interpretações continuam se apresentando, e talvez por isso mesmo esses relatos sejam, em essência, inacabados. E assim permanecerão, em aberto, inconclusivos. A vida, afinal, é vivida ao vivo.
Grande parte do que está nas páginas que seguem foi escrito em 2016, sete anos após os acontecimentos vividos no Benim, em 2009. Esse primeiro relato, embora tardio, permaneceu em hibernação até 2020. Só então um livro se esboçou. E só agora ele chega a você.
Justo a tempo.
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A vizinhança. Nossa casinha ficava numa espécie de pátio. Havia três iguais a ela. A cidade era um emaranhado desses pátios, conectados por vielas, tudo de terra, tudo vermelho-ocre. As casas também, da mesma cor e material. Havia poucas portas; na maioria das vezes só uma cortina separava os cômodos, quando havia mais de um. Na parede da frente de cada casa era muito comum encontrar o número do telefone celular do morador, como um localizador, um código de barras. Desse jeitinho, a cidade se espalhava por uma área considerável e algumas milhares de pessoas viviam ali. Ela era cortada ao meio pela estrada, a mesma que nos trouxera de Cotonou. Uma estrada asfaltada, a única. Próxima dela, estava a mesquita.
Do alto dos minaretes, víamos a extensão municipal. Do outro lado da estrada, uma igreja católica. E, em toda parte, terreiros. Nem sei quantos. Como formigas, motos transitavam por toda a cidade. Nosso motorista era Pierre. Estava contratado para ficar conosco o mês inteiro. E isso queria dizer que ele estava sempre na nossa casa. Pierre era vaidoso. Estava sempre muito arrumado e elegante, as roupas bem passadas. Tinha um bigodinho tosado e posicionava seu chapéu de forma estratégica na cabeça, ligeiramente fora do centro.
Ao abrir a porta para o Pierre uma manhã, vejo novamente a vizinha. Seu bebê, uma menina diminuta ainda no colo, me lança o habitual olhar de pavor. Ela arregala os olhos e seu corpo treme inteiro quando me vê, mesmo de longe. Tenta se virar de costas para mim, mas está no colo da mãe, a posição não permite, ela contorce seu corpinho em vão. Tampa então o rosto com as mãos e enfia a cara no cantinho do pescoço da mãe, evitando avistar meu corpo branco, esquisito, inepto. Eu começo a concordar com ela. Olho para minhas mãos e pés brancos e me vejo um animal estranho, condenado a não seguir adiante ou gerar descendentes na corrida da seleção natural.
A mãe não tem expressão. Quase todas as mulheres em Ketu têm os cabelos raspados bem rentes à cabeça. Mas essa mãe tem os cabelos desgrenhados, secos e duros para um lado. Uma evidência do abandono que é fruto do sofrimento intenso. A criança no colo tenta achar seu peito para mamar, mas ela não reage. A apatia do luto absoluto. Dor paralisante.
Nunca conversamos. Não sei seu nome. Mas aquele esvaziamento de si é transparente, evidente. Sempre só, sempre aquela criança, e a ausência completa de expressão. Seu olhar me atravessa, mas não com indiferença. Ele me rasga. O choro me vem à boca todas as vezes em que a vejo. Em outro momento, não hoje, Nosso Exu vai me contar que a vizinha perdeu uma criança. Que ali não há lágrimas, pois não há primazia dos sentimentos individuais. Só existe o coletivo. E o ritual de passagem da outra menina já foi feito. A comunidade expurgou o mal. Pois é sempre um mal, vindo de fora, que traz a morte, o sofrimento. Uma cicatriz foi acrescentada ao rosto da mãe e da bebê de colo. Essa nova diz “perdi minha filha”, “perdi minha irmã”. O que era para ser feito, foi feito. Agora, a vizinha vive seus dias com a filha viva, até que passe sua dor. Ninguém pode ou vai fazer nada. Todos sabem o que houve. Eles cuidam dela, levam-lhe alimentos. Mas, nessa manhã, eu não sei de nada disso.
Troco meu olhar matinal com a vizinha, arruinada de tristeza, e seu bebê, que apavoro com a pigmentação branco-amarelada da minha pele.
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Mesmo tantos anos depois, os fragmentos de memórias que tenho de Ketu ainda me tomam de assalto, no meio da noite ou do dia. As lembranças parecem incrustadas em meu corpo, e o mínimo sacolejo no ritmo certo pode ser suficiente para fazê-las bailarem diante de mim. E, para que não adormeçam novamente ou simplesmente voem para longe, eu as escrevo. Para que aterrem no solo vermelho.
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O sono dormido após o rito seria uma comunhão com os espíritos dos sonhos, com o firmamento, um barato cujo efeito duraria dias. Eu só viria a reexperimentar essa sensação de espera interminável e de integração total anos depois, quando os caminhos da minha vida se abriram e me conduziram ao Teatro.
Foi no Teatro que encontrei o sagrado. As mesmas noites em claro, em ensaios que se alimentam da exaustão. A ritualização das pequenas e grandes ações, o centro da roda, o centro do mundo, a sabedoria e a presença dos ancestrais, os fétiches. Um vento a mover nossos corpos, ancorados na terra e apontados para o cosmos. O mito revivido através do rito, em eterno presente. De novo e de novo.
Tudo aconteceu na hora certa. Justo a tempo.

[todos os trechos acima foram extraídos do livro “Vermelho-Terra”, de Maria Bitarello, publicado em 2021 pela editora caseira e independente La Petite Ferme. Aqui você encontra mais fotos da série “Iya Shango”, publicadas na Revista Philos em novembro de 2020.]
Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com