Mostra reúne pinturas e trabalhos em papel em que o artista investiga os limites e a permanência do fazer pictórico

A Galatea apresenta Entre a pintura e a pintura, exposição individual que marca o início da representação de Guilherme Gallé pela galeria. Com introdução escrita por Rodrigo Naves e texto crítico assinado por Tadeu Chiarelli, a mostra reúne trabalhos inéditos em pinturas e trabalhos em papel que evidenciam a investigação contínua do artista sobre os limites, as potencialidades e a permanência da pintura na contemporaneidade. A abertura acontece no dia 22 de janeiro, na unidade Padre João Manuel, em São Paulo. 

A pintura de Gallé se desenvolve a partir de um processo contínuo de depuração, no qual cada quadro dá origem ao seguinte, em um encadeamento no qual cor, forma e espaço se reorganizam em resposta mútua. As cores tonais, aplicadas em camadas, estruturam o plano pictórico ao mesmo tempo que constroem atmosferas sutis. A geometria recorrente, por sua vez, não opera como um princípio de ordem estável, mas como um sistema em constante tensão, articulando cheios e vazios, aproximações e afastamentos. 

Nas obras reunidas em Entre a pintura e a pintura, essa discussão se manifesta por meio de uma pintura que evita tanto o excesso gestual quanto a pura neutralidade visual. Gallé constrói planos cromáticos contidos, nos quais pequenas variações de espessura, relevo ou interrupção do campo pictórico introduzem tensões sutis, deslocando a percepção do espectador e prolongando o tempo de fruição.

Esse jogo entre contenção e interferência posiciona o trabalho do artista em uma zona intermediária, na qual a pintura não se impõe de forma estridente, mas tampouco se esgota em uma contemplação passiva. A experiência da obra se dá justamente nesse intervalo, em que o olhar é convocado a circular entre distância e proximidade, silêncio e presença material.

Os trabalhos em papel apresentados na exposição ampliam esse campo de investigação. Embora dialoguem diretamente com o universo pictórico de Gallé, esses trabalhos afirmam autonomia própria, tensionando a planaridade e sugerindo uma aproximação à dimensão tridimensional como forma de radicalizar questões já presentes nas pinturas e apontar para possíveis desdobramentos futuros de sua pesquisa.

Na Philos, você encontra com exclusividade o texto crítico de Tadeu Chiarelli, que analisa a fundo os desdobramentos da obra, e a introdução da exposição, assinada por Rodrigo Naves, oferecendo ao leitor uma perspectiva única e aprofundada sobre a mostra.

Um construtivo no varal, por Rodrigo Naves

Os trabalhos de Guilherme Gallé são estruturas que poderiam ser levadas pelo vento. Os sutis relevos que pontuam as superfícies de encáustica são apenas uma pausa musical. Não pretendem ordenar o mundo com força excessiva. As cores mais intensas reduzem a presença dessas marcas delicadas. Já os tons mais baixos pedem mais espaço. Mais respiração. Isso ocorre de forma semelhante com as diferentes linhas, dependendo de suas larguras e cores. Algumas vezes, elas pousam sobre as telas; em outras, sustentam as regiões mais espessas, nas quais a cera de abelha se sobressai às cores, ou, ainda, dividem as telas. E, assim como a leveza e o ar regem essas obras, sua face igualmente oscila entre uma abstração incomum e uma paisagem urbana ou, apagadas as luzes, uma mata rala. O ar e o vento frequentemente servem de metáfora para algo abilolado, meio doido, como em biruta ou avoado. Já a pintura de Guilherme Gallé remete ao adjetivo arejado.

RODRIGO NAVES é professor, crítico e historiador da arte. 

Entre os dois lados da mesma moeda: as pinturas de Guilherme Gallé, por Tadeu Chiarelli

A pintura, na atualidade, se não se dispõe a servir como mero canal para disputas extrapictóricas — explorando questões que, durante praticamente todo o século passado, estiveram fora de sua alçada —, encontra-se, mais do que nunca, presa a seus próprios limites. Após ter sido inúmeras vezes declarada morta, ela batalha para não ser reduzida a um simples objeto de consumo refinado que interessa apenas a poucos e poucas. Aparentemente já distante da potência que um dia possuiu, a pintura sobrevive como uma espécie de heroína que perdeu a batalha, mas que se mantém viva a duras penas, cuidando de suas próprias feridas, lutando para permanecer viva e inquieta, e não como um fantasma de si mesma.

E resiste ao aniquilamento ou à própria superação histórica porque, ainda que restrita à exploração de seus elementos constitutivos, a pintura, quando boa, consegue mobilizar experiências que só ela, mesmo reduzida às suas especificidades, consegue entregar.

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Difícil me esquecer da sensação que experimentei ao me aproximar (talvez de forma um tanto excessiva) de uma das obras de Guilherme Gallé, durante minha primeira visita ao seu ateliê: assim que o plano maior de cor — com sinais e espessuras diferentes — tomou meus olhos, fui invadido também pelo perfume da tinta que o revestia. Sensação infinita de estar frente a frente com um organismo vivo, cuja presença ali, naquele momento, dialogava não apenas com meus olhos, mas com meu corpo inteiro, tanto por causa de nossa forte proximidade, quanto do perfume dele exalado.

Essa experiência inesperada entre mim e a obra, entre seu corpo, seu cheiro, e meu corpo, é certo, não pode ser duradoura. Afinal, além de não ser usual se aproximar tanto de uma pintura (eu poderia lambê-la se quisesse), o odor emanado pelo óleo, com o tempo, tende sempre a se extinguir ou atenuar, obrigando o espectador a manter com ela uma relação apenas visual: é você aqui, num espaço e tempo definidos, guardando uma certa distância com relação à obra, e ela lá no espaço dela, em silêncio.

Isso acontece quando observamos parte das pinturas que integram o universo onde vivem as obras de Gallé. Essas tendem a um tipo de vibração cromática discreta, delicada, como as pinturas de Giorgio Morandi, que também são assim, ou as de Paulo Pasta, que costumam atuar do mesmo jeito. Por isso, muitas vezes elas parecem reivindicar apenas a dimensão espacial (uma “propriedade” tradicionalmente atribuída à pintura), colocando o tempo em suspensão. 

São naturezas-mortas, mesmo quando são paisagens — ou quando são retratos. 

Aliás, a história da pintura nesta cidade de São Paulo está repleta de exemplos desse tipo, dessas pinturas que atuam como naturezas-mortas mesmo quando parecem pretender ser outra coisa. Certos retratos e paisagens de Lasar Segall são assim, e algumas pinturas de Francisco Rebolo, e mesmo aquelas obras do primeiro Arcangelo Ianelli, também o são. 

Isso não quer dizer, é claro, que a pintura na cidade se resuma a esse único tipo de procedimento. As obras de Ernesto de Fiori e de Alfredo Volpi estão aí para provar que a situação paulistana é mais ampla e complexa. Impossível pensá-las como naturezas-mortas, mesmo quando o são. A gestualidade, a expressividade dos traços e o contraste entre as áreas de cor tornam as pinturas de Ernesto de Fiori e Volpi deliciosamente ressoantes frente ao silêncio que as obras de Pasta e dos outros artistas citados emanam.  

[Mesmo as pinturas de Sophie Taeuber Arp e Richard Paul Lohse, pelo contraste entre as cores, trazem uma sutil vibração também presente nas pinturas de Gallé.]

Tal estridência, por sua vez, acaba por conferir às pinturas de Ernesto de Fiori e de Volpi — assim como às de Bruno Dunley, talvez — uma dimensão temporal que, na produção daqueles primeiros pintores citados, parece nem existir, ou parece existir pouco. Elas obrigam o observador a desenvolver uma apreensão visualmente “tátil”, que percorre a obra esquadrinhando cada detalhe, cada forma ali depositada e, no limite, cada pincelada. Ou seja, trata-se de um tipo de pintura que, aos olhos do escultor e estudioso da arte Adolf von Hildebrand, exigiria uma visão próxima. Justamente o contrário das pinturas de Segall, Rebolo, Ianelli e Pasta que, já de início, partiriam de uma visão à distância. 

Observando as pinturas de Gallé, parece que elas transitam entre esses dois lados da mesma moeda, os dois lados da pintura, que é onde vive a pintura em São Paulo, desde os anos 1930. 

Ou seja: frente a uma pintura que exige uma visão à distância e aquela que sempre apela para uma visão próxima, Guilherme parece preferir ficar entre as duas, no limite entre o silêncio e o ressoante.

Suas produções, sempre tendentes ao monocromático — em que a espessura e vibração da cor reforçam a configuração bidimensional, clara, do plano pictórico —, obrigam o artista a normalmente interferir em tal monocromatismo, opondo alguns obstáculos à sua visão (uma estratégia semelhante àquela percebida em algumas pinturas de Paul Lohse?). No caso, são pequenas saliências ou reentrâncias espalhadas pelo plano que levam o espectador a voltar-se para uma visualização háptica, que supere aquelas espécies de pequenas barreiras interpostas pelo artista. São desafios que obrigam o espectador a dispender um tempo mais alargado para a apreensão geral da obra, o que nega (ou problematiza) uma apreensão visual apenas espacial.

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Como conclusão deste texto ou como sinalização de uma nova possibilidade para pensar a poética de Guilherme Gallé, atento para as colagens/dobraduras que o artista também apresenta no mesmo espaço de exibição de suas pinturas.

Se, de início, parecem apenas espécie de elocubrações de fundo pictórico, estudos despretensiosos ou anteprojetos para pinturas vindouras, um olhar mais atento descobre que esses trabalhos — misto de dobradura e colagem — possuem uma autonomia, propriedade que os qualifica mais como obras de arte plenas, e não como projetos. 

Outro dado a se levar em conta quando observamos esses trabalhos: embora colagens/dobraduras, elas continuam discutindo o que são prioridades para Gallé: a pintura e o universo pictórico. Nelas os obstáculos ganham uma corporeidade — uma busca pelo tridimensional — apenas pressentidas nas pinturas do primeiro grupo. Ali, as indagações do artista sobre o universo, os limites e as potencialidades de sua arte adquirem uma radicalidade apenas intuída nas primeiras pinturas.

Se esses dois empreendimentos pictóricos manterão essa independência que hoje os caracteriza ou se, mais tarde, irão se mesclar a outras demandas de Gallé, só o tempo dirá. É esperar para ver.

TADEU CHIARELLI é Professor Sênior e orientador do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da ECA-USP.

GUILHERME GALLÉ (São Paulo, 1994) é formado em Design Gráfico pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (2016) e desenvolveu sua prática pictórica em ateliês e grupos de estudo. Entre 2019 e 2023, foi assistente do pintor José Roberto Aguilar. Atualmente integra o curso “Pintura: Prática e Reflexão”, conduzido por Paulo Pasta, e participa do grupo de estudos de história da arte coordenado por Rodrigo Naves.

A pintura de Gallé nasce de um processo contínuo de depuração: um quadro aciona o seguinte, num movimento em que cor, forma e espaço se reorganizam respondendo uns aos outros. As cores tonais, construídas em camadas, estruturam o plano pictórico ao mesmo tempo em que instauram atmosferas. Já a geometria recorrente não se impõe como ordem fixa, mas como um sistema instável que articula cheios e vazios, proximidades e distâncias. O vazio, por sua vez, não é experimentado como ausência, mas como elemento ativo da composição: é ele que tensiona as formas e sustenta a dinâmica espacial da pintura.

A sua superfície pictórica se constitui de uma matéria espessa, marcada por incisões, apagamentos e pentimentos, que dão indícios do processo da pintura ao mesmo tempo que o impulsionam. Nesse sentido, Guilherme Gallé empreende uma investigação metalinguística, na qual a obra se autoengendra: a pintura nasce da própria pintura, tensionando polaridades entre micro e macro, conteúdo e continente, gesto e estrutura. Situadas no limiar entre abstração e sugestão figurativa, suas composições convidam à lenta contemplação, dando espaço para que o olhar oscile entre repouso e movimento, entre a atenção ao detalhe e ao conjunto. Aos poucos, Gallé constrói uma partitura silenciosa, uma minuciosa dança à qual os olhos aderem.

Entre as exposições das quais participou, destacam-se: Joaquín Torres García – 150 anos, (Coletiva, Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB, São Paulo / Brasília / Belo Horizonte, 2025–2026); Ponto de mutação (Coletiva, Almeida & Dale, São Paulo, 2025); O silêncio da tradição: pinturas contemporâneas (Coletiva, Centro Cultural Maria Antonia, São Paulo, 2025); Para falar de amor (Coletiva, Noviciado Nossa Senhora das Graças Irmãs Salesianas, São Paulo, 2024); 18º Território da Arte de Araraquara (2021); Arte invisível (Coletiva, Oficina Cultural Oswald de Andrade, São Paulo, 2019); e Luiz Sacilotto, o gesto da razão (Coletiva, Centro Cultural do Alumínio, São Paulo, 2018). Sua primeira individual será apresentada na Galatea, em São Paulo, com abertura em 22 de janeiro de 2026.

Sob o comando dos sócios Antonia Bergamin, Conrado Mesquita e Tomás Toledo, a Galatea conta com dois espaços vizinhos na cidade de São Paulo: a unidade localizada na Rua Oscar Freire, 379 e a nova unidade localizada na Rua Padre João Manoel, 808. A galeria também tem uma sede em Salvador, na Rua Chile, 22, no centro histórico da capital baiana.

A Galatea surge a partir das diferentes e complementares trajetórias e vivências de seus sócios-fundadores: Antonia Bergamin, que foi sócia-diretora de uma galeria de grande porte em São Paulo; Conrado Mesquita, marchand e colecionador especializado em descobrir grandes obras em lugares improváveis; e Tomás Toledo, curador que contribuiu para a histórica renovação institucional do MASP, saindo em 2022 como curador-chefe.

Com foco na arte brasileira moderna e contemporânea, trabalha e comercializa tanto nomes consagrados do cenário artístico nacional quanto novos talentos da arte contemporânea, além de promover o resgate de artistas históricos. Idealizada com o propósito de valorizar as relações que dão vida à arte, a galeria surge no mercado para reinventar e aprofundar as conexões entre artistas, galeristas e colecionadores.


Serviço: Guilherme Gallé: Entre a pintura e a pintura, com texto crítico de Tadeu Chiarelli. Local: Galatea, Rua Padre João Manuel, 808 – Jardins, São Paulo – SP. Período expositivo: 22 de janeiro a 7 de março de 2026. Horários: Segunda à quinta das 10h às 19h | Sexta das 10h às 18h | Sábado das 11h às 17h. Ingresso: Gratuito. Mais informações: www.galatea.art

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Publicado por:Philos

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