Uma conversa sobre Arte e Sociedade
com a galerista Janaina Torres.
A Revista Philos conversou com uma das pessoas mais importantes do mercado de arte atual, a galerista Janaina Torres, que ao longo dos anos vem transformando a cena artística do Brasil.
Carioca radicada em São Paulo, Janaina Torres é sócia-fundadora da Janaina Torres Galeria, e atua no mercado das artes visuais desde 2012. Graduada pelo Centro Universitário Belas Artes (SP), antes de abrir sua galeria trabalhou no mercado de arquitetura e decoração, em São Paulo, com Sig Bergamin e João Mansur e teve em passagens em galerias de arte contemporânea, como Fortes, D’Aloia & Gabriel e Utópica. Durante 16 anos atuou nas artes cênicas e, como atriz, participou de montagens teatrais no grupo Mangará, de Myriam Muniz e integrou o CPT de Antunes Filho, além de produzir e atuar em peças teatrais independentes.

E neste ano, a Janaina Torres Galeria, integra o evento WAAWWorld – Women Artists Art Week, com a exposição coletiva Correntezas. A mostra, que segue em cartaz até dia 19 de julho, apresenta diferentes suportes e formatos como videoperformance de Luciana Magno; colagem de Laíza Ferreira; um desenho da Série Quadrus Negrus de Marga Ledora; fotografias de Helena Martins-Costa e Kitty Paranaguá; pinturas de Sandra Mazzini; esculturas em vidro de Jeane Terra; obra têxtil de Liene Bosquê e gravura de Kika Levy. No dia 14 de junho haverá a presença especial das artistas Kika Levy, Marga Ledora, Helena Martins-Costa e Sandra Mazzini. No dia, o público poderá conhecer e conversar com cada uma delas sobre suas obras.
E por aqui apresentamos um diálogo especialíssimo com Janaina Torres sobre o seu trabalho em curadoria e as perspectivas do cenário artístico atual. Sem mais delongas, leia na Philos:
Janaina, é uma honra imensa ter essa conversa com você. Temos acompanhado ao longo dos anos uma crescente evolução e destaque da sua galeria no cenário das artes contemporâneas no Brasil e no mundo. E a esse movimento de expansão soma-se agora a participação de vocês na edição deste ano da WAAWWorld. Qual o impacto dessa exposição – Correntezas – e qual as expectativas para a abertura?
É um prazer conversar com a Revista Philos. Venho acompanhando o trabalho sério e comprometido que vêm realizando desde o início, e fico muito feliz com o espaço que vem conquistando. Integrar esse evento mundial, que promove a difusão da produção de artistas mulheres, entendo como algo necessário, pois a ideia da WAAW nasceu de uma mulher, que está comprometida em dar visibilidade a essas artistas. A ideia é potencializar e ampliar o alcance para novos públicos especializados, tanto na imprensa internacional quanto colecionadores e em clubes de arte pelo mundo.
Em Correntezas, você traz o seu olhar curatorial e de galerista para uma mostra com mulheres artistas. Qual a importância de apresentar uma mostra com tantas artistas incríveis e ao mesmo tempo visibilizar o trabalho de mulheres nas artes plásticas? É algo que você tem feito ao longo da sua carreira e ao longo da história da sua galeria…
É super importante criar espaços para dar voz e mostrar o trabalho artístico das mulheres, que foram invisibilizadas por décadas. O século XXI é o século das mulheres. 50% dos artistas da galeria são mulheres, de diferentes idades e partes do país. Apresentar um recorte exclusivamente feminino e fazer parte da rede WAAW demonstra que estamos alinhadas em impulsionar a produção artística e a presença feminina no mercado das artes visuais, possibilitando que essas mulheres possam conquistar sua independência financeira e possam viver por meio de seu trabalho artístico.

“O papel de uma galeria é proporcionar a reflexão para além do deleite estético”. —Janaina Torres
Além da pauta dos feminismos plurais a partir da arte, uma galeria de arte tem um papel fundamental na vida das pessoas. Pra você, qual é esse papel?
Acho que uma galeria deve sugerir uma ampliação na maneira como o público vê o mundo. O papel de uma galeria é proporcionar a reflexão para além do deleite estético. Embora eu seja uma entusiasta do deleite estético, acredito que a arte deve contribuir, também, para o entendimento do ser humano e do mundo que o cerca.
A partir disso, como você vê o Brasil no cenário global da arte?
O Brasil tem artistas fantásticas, de fato as artes visuais brasileiras têm um reconhecimento internacional, mas ainda falta muita coisa para tornar mais conhecidos os trabalhos produzidos aqui. Temos um mercado pulsante e um celeiro de talentos, mas faltam ações concretas, efetivas e conjuntas entre colecionadores e galerias. Ações setoriais ajudariam muito a potencializar a internacionalização de nossas artistas.

Se a arte fala sobre o tempo em que atravessamos e vivemos, o que você tem feito para criar outras narrativas possíveis a partir da sua curadoria em arte? O que você quer nos dizer a partir desta montagem de Correntezas?
Quando pensei em Correntezas, pensei nas aproximações das expressões artísticas de diferentes gerações e regiões do Brasil. São trabalhos em diferentes suportes, formatos, e linguagens que evidenciam e potencializam a multiculturalidade das expressões artísticas das mulheres representadas pela galeria. Dar visibilidade a mulheres que possuem repertórios e narrativas tão diferentes, criar esse espaço de aproximação, por exemplo, entre uma fotografia da fotojornalista como a Kitty Paranaguá, que tem 70 anos, viveu a vida inteira na zona sul do Rio de Janeiro com as colagens da Laíza Ferreira, que nasceu em Ananindeua, Pará e tem 35 anos, vejo como necessário e super importante.
E como se deu a escolha das artistas da mostra? Partem de que lugar comum para falar de temas transversais?
A escolha recai sobre a questão da multiculturalidade das expressões contemporâneas de artistas de diferentes gerações e regiões. Esse é um aspecto presente em nosso programa. As artistas são todas as mulheres representadas pela galeria. O recorte foi exclusivamente nas produções femininas.
Somos uma revista de arte e literatura e muito nos encanta saber das poéticas dos artistas, curadores, galeristas… Quais são suas referências e inspirações no momento em que você está (co)criando uma exposição?
Procuro sempre que posso visitar as exposições, mas nem sempre consigo ver tudo. Filmes e livros, peças de teatro, shows…recentemente, li, O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion e o catálogo de uma exposição maravilhosa, que visitei em fevereiro na Cidade do México, Geometria Sensível, da artista romena, Myra Landau.
O que a Janaina Torres Galeria ainda quer mostrar pra gente?
Pergunta difícil, tem tanto para fazer, mas sei que não vou conseguir fazer tudo e nem quero. Não saberia responder concretamente, só sei que quero continuar mostrando para o público projetos nos quais eu aprendo no processo. Quero continuar me relacionando com a arte desse lugar de troca e aprendizado.
“Quero continuar me relacionando com a arte desse lugar de troca e aprendizado”. —Janaina Torres
Janaina, nós agradecemos por essa conversa e temos muito orgulho de partilhar o momento presente da sua galeria e do seu trabalho com nossos leitores e assinantes. E perguntamos para você: o que o seu trabalho tem feito por você e pelo outro?
Quando tinha 30 anos, tinha um profundo objetivo de vida, o de alcançar os três tipos de valor: o bem, o belo e o benefício. Esse conceito está muito relacionado às questões profissionais, e acredito que tenha muito a ver com essa pergunta. No trabalho, o valor do belo significa trabalhar com algo que realmente goste, e eu encontrei nas artes visuais uma síntese de mim mesma, a minha verdadeira vocação profissional. O valor do bem significa encontrar um trabalho por meio do qual possa ajudar os outros e contribuir para o progresso da sociedade. E o valor do benefício corresponde a conseguir um trabalho que gere recursos com os quais possam se sustentar. A galeria conquistou o seu espaço e reputação no mercado, o que não significa que está tudo garantido, muito pelo contrário. Com os 10 anos da galeria se aproximando, no ano que vem, nem preciso dizer, o quanto estou realizada, só não sabia que seria tão intenso e tão desafiador.
Por fim, faça um convite para os nossos leitores visitarem a mostra.
Dia 14/06, sábado próximo, entre 11h e 14h, teremos na galeria a presença de algumas artistas que integram à exposição, Correntezas, WAAW World, Women Artists Art Week. Você, Jorge, toda a equipe e leitores da Philos estão super convidados para esse bate papo e serão muito bem-vindos! Aproximem- se!
Serviço: Exposição Correntezas – integrante da WAAWWorld – Women Artists Art Week com as artistas: Helena Martins-Costa, Jeane Terra, Laíza Ferreira, Kika Levy, Liene Bosquê, Kitty Paranaguá, Luciana Magno, Marga Ledora, Sandra Mazzini e curadoria da Janaina Torres Galeria. Período de visitação: até 19 de julho na Janaina Torres Galeria, R. Vitorino Carmilo, 427 – Barra Funda, São Paulo – SP, 01153-000. Entrada gratuita.