Entre madeira, memória e ruína: Marcelo Silveira investiga o que sustenta.
Na exposição “O que sustenta”, o artista pernambucano Marcelo Silveira constrói uma poética que atravessa matéria, tempo e memória, reunindo obras que tensionam a relação entre estrutura e fragilidade. A mostra articula diferentes trabalhos produzidos ao longo dos últimos anos, ocupando o espaço expositivo com elementos suspensos, volumes no chão e uma paisagem sonora que costura a experiência do visitante.
Um dos núcleos centrais da exposição é “V.A.R.A.S.” (2021/2025), conjunto formado por 50 madeiras recolhidas e trabalhadas pelo artista. Suspensas, essas peças flutuam ao sabor do vento que circula no ambiente, criando uma instalação em constante movimento. No chão, os “Novelos” (2023/2025) apresentam cerca de 300 peças feitas a partir de fibras de linho encontradas por Silveira em um depósito em ruína da antiga fábrica Braspérola, localizada em Camaragibe, Pernambuco. Cada fibra foi higienizada e cuidadosamente manuseada até se transformar em um novelo, evocando processos de cuidado, repetição e reconstrução.

Entre essas materialidades, a obra sonora “Tudo Certo” (2017) estabelece uma camada sensível que atravessa o espaço. Resultado de uma residência artística realizada em Belo Jardim, no Planalto da Borborema, a peça reúne dezenas de vozes de integrantes de um coral local entoando a expressão “tudo certo” em diferentes timbres e entonações. A frase remete a uma memória íntima do artista, ligada à repetição constante dessas palavras por seu pai durante o avanço do Alzheimer.

A exposição também dialoga diretamente com o espaço que a abriga. “As obras da exposição foram produzidas a partir de meu desejo de intervir no Paço Imperial, um espaço que foi sede do poder desde o século 18”, relata Marcelo Silveira, referindo-se ao histórico Paço Imperial.
Segundo o artista, o trabalho nasce de um esforço de organização de ideias e conceitos, como o de “madeira de lei”, “que surgiu no Brasil Colônia para designar madeira boa, e que já perdeu sua validade há bastante tempo, embora as pessoas ainda usem esta classificação”.
Nesse sentido, “V.A.R.A.S.” opera como uma investigação sobre origem, uso e transformação da matéria.
“Produzi as Varas como tentativa de mimetizar, reestruturar, reconstruir uma estrutura vegetal que é usada normalmente na taipa, no preenchimento de alguns espaços, e é uma árvore juvenil, no início do seu desenvolvimento, em que o cerne da madeira praticamente ainda não surgiu, e que precisaria de mais tempo para ser mais grossa e poder existir como madeira a ser usada na novelaria, na arquitetura e tudo o mais.” –Marcelo Silveira
A escolha dos materiais também revela um posicionamento crítico diante do descarte e da exploração dos recursos naturais. Marcelo Silveira destaca que praticamente todas as madeiras presentes na obra são reaproveitadas e, paradoxalmente, consideradas nobres.
“A mesma madeira de lei é descartada na cidade como sobra do mobiliário, sobra do uso e da irresponsabilidade das pessoas”, relata o artista. “Sobra madeira de todas as espécies, e recolho e reúno toda essa madeirama que encontro ao longo de muitos anos – mogno, ipê, jacarandá – e uso, de certa forma, com as curvaturas que vêm do mobiliário, do que foi um dia o mobiliário, de onde foi um dia alguma coisa.” –Marcelo Silveira
Ao reunir elementos que carregam histórias anteriores — móveis desfeitos, fibras esquecidas, vozes marcadas pelo tempo —, “O que sustenta” propõe uma reflexão sobre permanência, transformação e memória. Entre o que flutua, o que repousa e o que ecoa, a exposição constrói um campo sensível onde matéria e afeto se entrelaçam, questionando não apenas o que sustenta as coisas, mas também o que nos sustenta.

Serviço: exposição “Marcelo Silveira – O que sustenta”, 28 de março de 2026, das 14h às 18h, com a presença do artista, e seguirá em cartaz até 7 de junho de 2026. Com texto crítico de Felipe Scovino e entrada gratuita, a mostra acontece no Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial, localizado no Centro do Rio de Janeiro, Praça Quinze de Novembro, 48.