Zipper Galeria mostra esculturas inéditas de Romy Pocztaruk em individual. Investigação sobre a ruína orienta obras de Mega Hair, em que a artista apresenta a matéria em contínua transformação.

A Zipper Galeria exibe Mega Hair, nova individual de Romy Pocztaruk. Com texto de Renato Rezende, a mostra reúne esculturas inéditas feitas de concreto e fibra sintética (material industrial utilizado em apliques capilar) e marca uma nova fase na produção da artista, na qual questões antes investigadas na fotografia são deslocadas para o campo escultórico. A exposição integra o programa Zip’Up, dedicado a processos autorais apresentados no andar superior da galeria.

Na montagem, Pocztaruk emprega técnicas de trama próprias dos salões de beleza: mechas longas envolvem blocos de concreto, pendem da parede até o chão e, em algumas obras, tranças espessas operam como elemento estrutural, sustentando blocos empilhados. As funções se invertem: o que deveria ser cosmético assume a função estrutural; o que deveria ser estrutural revela vulnerabilidade.

Mega Hair, de Romy Pocztaruk

Ao longo de quase duas décadas, Pocztaruk construiu uma obra dedicada aos vestígios de projetos que falharam. Suas fotografias documentaram o que restou de Fordlândia, cidade que Henry Ford ergueu na Amazônia nos anos 1920. A instalação Bombrasil (2017) reconstituiu a memória do programa nuclear secreto da ditadura militar brasileira. Em entrevista no início de sua carreira, a artista descreveu seu interesse pela ruína:

“Me fascina o significado que elas têm para as cidades, acho que é uma forma interessante de olhar para o passado e projetar o futuro e, ao mesmo tempo, reviver sentimentos e acontecimentos.” –Romy Pocztaruk

Neste conjunto, a investigação da artista sobre a ruína desloca-se da imagem fotográfica para a materialidade do objeto. Pocztaruk não fotografa mais ruínas encontradas, fabrica as suas. Os blocos de concreto são moldados por ela, já concebidos como fragmento. A fibra artificial que os recobre instala-se sobre a estrutura e impõe sua própria lógica: o cabelo pesa, cede à gravidade, espraia-se pelo piso. O concreto, em certas peças, depende da trança para se manter de pé.

Mega Hair, de Romy Pocztaruk

O título nomeia com exatidão o que se vê. “Mega hair” é o termo popular para o procedimento de alongamento capilar com fibra aplicada por trama. Pocztaruk usa o mesmo material e a mesma técnica, mas substitui a cabeça humana por blocos de concreto. O corpo permanece ausente, como nas fotografias, presente apenas no indício de um gesto que lhe pertence: o ato de trançar e aplicar.

No texto crítico que acompanha a exposição, Renato Rezende observa que as esculturas de Mega Hair propõem “um ponto de incidência e demonstração”. Os blocos de concreto ganham a leveza da fibra capilar, que não é natural e não precisa ser. Matéria orgânica e inorgânica deixam de se opor. Para Rezende, “a cultura não seria apenas uma segunda natureza, seria a única natureza possível para a pessoa contemporânea”.

Zip’Up é um projeto da galeria criado em 2011, um ano após a abertura da casa, voltado a novos artistas e a propostas curatoriais experimentais. O programa seleciona e acolhe projetos expositivos que ocupam a sala superior da galeria.

Mega Hair, de Romy Pocztaruk

Romy Pocztaruk vive e trabalha entre Porto Alegre e São Paulo. Sua produção investiga vestígios de projetos arquitetônicos e industriais malogrados, com obras que partem da fotografia e se desdobram em vídeo, instalação e escultura. Em Berlim, produziu o vídeo Traumberg (2010). No ano seguinte, realizou a série fotográfica Fordlândia, sobre os remanescentes do projeto industrial americano na Amazônia. Em 2017, apresentou a instalação Bombrasil, dedicada ao programa nuclear secreto da ditadura militar brasileira. Sua exposição mais recente, Eu nunca fui para o Japão (2024), abordou as transformações identitárias da comunidade japonesa em São Paulo. Mega Hair é sua segunda individual na Zipper Galeria.

Mega Hair, de Romy Pocztaruk

Serviço: Exposição Romy Pocztaruk – Mega Hair, com texto crítico de Renato Rezende, na Zipper Galeria. R. Estados Unidos, 1494 – Jardim America, São Paulo. Em cartaz até 13 de junho de 2026. Informações:  www.zippergaleria.com.br | @zippergaleria 

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Publicado por:Philos

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